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Os riscos do hiperativismo na economia

por Luis Nassif publicado 31/01/2013 09h39, última modificação 31/01/2013 09h39
Há limitações no front inflacionário, mas não se tratam esses problemas com gambiarras. Por Luis Nassif

O desafio de uma política econômica virtuosa é conseguir trabalhar de forma pragmática todos os instrumentos que melhorem investimentos e ambiente econômico, sem deixar que o pêndulo se incline demais em uma das duas direções: do mercado ou do Estado.

O governo Collor deu início ao desmonte do excesso de Estado herdado do regime militar. Cometeu imprudências em algumas áreas, mas tentou definir formas de atuação do Estado em ambiente de mercado. Quando entrou Fernando Henrique Cardoso, o pêndulo radicalizou: trocou-se a ideia do Estado enxuto, porém forte, pela do não-Estado. Matou-se a gestão pública no país.

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De 2008 para cá iniciou-se um novo tempo na política econômica, consolidado no ano passado com a redução dos juros, melhoria do câmbio e um ativismo maior das empresas estatais, bancos comerciais, BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), Eletrobras e Petrobras.

Esse ativismo permitiu superar a crise de 2008, baratear o custo do crédito, prover a economia de uma enorme massa de financiamento a longo prazo. Sem a freada de arrumação, corre-se o risco de exagerar na direção oposta ao do movimento anterior.

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Analise-se a questão da reciclagem da poupança.

Nas últimas décadas, criou-se enorme volume de poupança privada, seja na ciranda do mercado, na venda de ativos familiares, na expansão dos fundos de previdência.

De um ano para cá, mudou-se o ambiente econômico, com a redução da taxa Selic e o controle das arbitragens entre juros e câmbio. O objetivo final desse movimento é reciclar essa poupança, trazendo-a para a economia real e para o financiamento da infraestrutura.

Ora, o caminho natural para essa reciclagem é o mercado de ações. Esse ativo está sendo jogado fora.

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Numa ponta, devido à política de financiamento do BNDES.

O foco principal deveria ser o aumento da taxa de investimento na economia e o apoio às pequenas e médias empresas. Logo, entrar de forma complementar aos demais instrumentos de captação.

Em vez disso, está ocorrendo o efeito substituição do investimento privado.

Uma das linhas do banco são megafinanciamentos para fusões e aquisições que não acrescentam um tijolo à infraestrutura existente.

Outra linha temerária são os megafinanciamentos às empresas de telefonia e multinacionais em geral. Esses financiamentos estão liberando as empresas para distribuírem todo seu lucro e remeterem para fora não apenas os dividendos como juros sobre capital. Além disso, especialmente no setor de telefonia estão acumulando passivos gigantescos.

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Dentre as estatais, problema semelhante.

À Petrobras foi conferido o extraordinário desafio de administrar o petróleo do pré-sal. Não se pode sangrá-la, como está sendo feito com esse sub-reajuste dos preços de combustíveis ou jogando em suas costas prejuízos com a venda de gás para as termoelétricas. Os desafios que ela terá que enfrentar são muito relevantes.

Há limitações no front inflacionário, mas não se tratam esses problemas com gambiarras que poderão comprometer o desempenho futuro de peça-chave para a economia brasileira.