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Os dólares do pré-sal à vista

por Luiz Antonio Cintra — publicado 22/09/2010 10h01, última modificação 24/09/2010 10h20
A bilionária capitalização da Petrobras amplia a valorização do real
Os dólares do pré-sal à vista

São três as fronteiras de exploração petrolífera do planeta para as próximas décadas: na Ásia Central, na África, em países como Nigéria e Sudão e, agora, no pré-sal brasileiro.

Além de ser uma boa oportunidade de investimento, a megaoferta de ações da Petrobras tem a capacidade de mexer com a conjuntura macroeconômica do País. Por conta dos valores envolvidos no negócio e da expectativa de entrada de dezenas de bilhões de dólares dos investidores estrangeiros, aumentou a pressão sobre a política cambial, nos últimos anos com uma reiterada tendência de valorização da moeda brasileira. A perspectiva de maior oferta de dólares no curto prazo reforçou essa tendência e fez com que a cotação caísse a 1,70 real, a menor desde o início do ano.
O caso fica mais complicado de administrar quando se considera a conjuntura internacional, que tem uma relação direta com as flutuações do mercado cambial. Em estudo divulgado na terça-feira 14, a Unctad, agência das Nações Unidas especializada em políticas de desenvolvimento, chama a atenção para esse ponto. E reforça a sensação de que o perigo, para países emergentes como o Brasil, mora além das fronteiras nacionais. Em linhas gerais, o prognóstico traçado sugere que o comércio internacional “andará de lado” nos próximos anos, com viés de queda.

Nesse cenário, as exportações brasileiras poderão cair quase 8% nos próximos cinco anos, estima a Unctad, a depender principalmente da cotação das commodities, principal variável da balança comercial brasileira. A sugestão para os países em desenvolvimento é justamente evitar a valorização de suas moedas principalmente em relação ao dólar e ao euro, que tendem a incentivar as importações e outros gastos em “moeda forte”, como os gastos com viagens internacionais e despesas com serviços. Ao mesmo tempo, torna os produtos brasileiros caros no mercado internacional, dificultando a vida dos exportadores, particularmente aqueles do setor industrial, onde o -País é menos competitivo.

O problema é o Brasil não ser o único país a enfrentar a conjuntura adversa. Os EUA buscam desvalorizar o dólar, assim como fazem as autoridades econômicas da Zona do Euro, em busca de uma saída exportadora que permita se contrapor à queda do consumo doméstico. E mesmo o Japão, sempre avesso às mudanças, anunciou a nova orientação de sua política de câmbio. Na quarta 15, o governo decidiu intervir, comprando uma quantidade expressiva de dólares, cujo resultado foi elevar a cotação da moeda dos EUA em 3% ante o iene.

Ainda que no sentido correto, a iniciativa japonesa só ocorreu após a cotação do iene a 82,87, a menor taxa do dólar no mercado japonês em 15 anos. A última vez que as autoridades econômicas haviam agido nesse sentido se deu seis anos atrás, quando o país comprou 409 bilhões de dólares com o objetivo de reverter a valorização.

Por outro lado, a retração do consumo norte-americano, por conta do desemprego elevado e do baixo nível de investimentos, resulta na redução do volume importado do restante do mundo, particularmente de bens duráveis e semiduráveis, tornando o mercado internacional de bens industrializados ainda mais hostil.

Não foram poucos os economistas a alertar para os riscos potencialmente explosivos dessa conjuntura. Para os economistas da Unctad, a saída para restabelecer um relativo equilíbrio na economia mundial passa por criar estímulos ao consumo em economias de grande porte, com ênfase na Alemanha, a maior do continente europeu, e no Japão, capazes de se contrapor à debilidade americana.

Para os países em desenvolvimento, eles deveriam combater a valorização de suas moedas, elevar o poder de compra dos trabalhadores e criar condições para a retomada dos investimentos que ampliem a capacidade de produção e de exportação no médio prazo.

Diante dos sinais dados pelo mercado, o governo brasileiro procurou colocar as cartas na mesa. Ainda na --quarta 15,--- o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que acompanha de perto o andamento do mercado de câmbio, disposto a evitar que a moeda norte-americana caia para além da cotação de 1,70 real, ciente do peso representado pela operação de capitalização da Petrobras. “O governo brasileiro tem cacife para bancar qualquer tamanho de operação da Petrobras. O fundo soberano tem fundos ilimitados, porque é o caixa do próprio Tesouro”, afirmou o ministro, durante cerimônia na federação das indústrias do Rio de Janeiro.
Além de poder comprar os dólares que entram no mercado brasileiro, Mantega também sugeriu que o Banco Central poderá voltar a atuar no mercado de derivativos, com o objetivo de desestimular as posições compradas em dólar, realizadas pelos investidores que apostam na desvalorização do real em algum momento do próximo ano.

Na próxima reunião do G-20, marcada para outubro, Mantega pretende reforçar o pedido para que os países desenvolvidos e os em desenvolvimento cheguem a uma política conjunta para evitar que a corrida pelas desvalorizações persista. “Os países estão agindo. O Japão fez um movimento forte para impedir a valorização do iene. Parece que isso é algo orquestrado com outros asiáticos. Mas não são só os asiáticos que querem desvalorizar as suas moedas. Estados Unidos e Europa também querem sair da crise com exportação.”

Henrique Meirelles, do Banco Central, também afirmou estar “atento” aos sinais de desequilíbrios na economia brasileira, que convive nos últimos meses com o crescimento vigoroso do déficit em suas contas externas, decorrente em larga medida da valorização do real e do crescimento acelerado das importações. O que Meirelles deixou de mencionar é que a política de juros altos do BC é a principal variável a complicar a -vida de Mantega. Enquanto nos países desenvolvidos as taxas pagas pelos títulos públicos andam próximas de zero, o retorno de 10,75% oferecido pelo BC atrai bilhões de dólares, os mesmos que derrubam a cotação da moeda norte-americana no mercado cambial brasileiro.

Alguns meses atrás, quando o País viveu um momento semelhante no mercado de dólar, a saída encontrada por Mantega foi taxar os capitais de curto prazo, aqueles que vêm se aproveitar das altas taxas pagas pelos títulos brasileiros. Alguns economistas consideram que uma saída nessa mesma direção poderá ser adotada nas próximas semanas, para além das esperadas intervenções diretas no mercado cambial.

Uma saída de médio prazo, no entanto, inclui necessariamente outras variáveis, conforme indicaram os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e Julio Sergio Gomes de Almeida, em artigo publicado na edição 611 de CartaCapital, de 1º de setembro. Os dois especialistas sugerem que o governo – este, mas principalmente o próximo – terá de controlar os gastos, que deveriam crescer menos do que o ritmo do PIB e das receitas públicas. Com isso, abriria espaço para o BC reduzir os juros a um patamar próximo da média internacional.