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Os caminhos para o desenvolvimento sustentado

por Redação Carta Capital — publicado 01/10/2012 10h33, última modificação 01/10/2012 10h33
Governo, empresários e sociedade precisam trabalhar juntos para consolidar as bases do desenvolvimento a longo prazo, diz Cledorvino Belini, presidente da Anfavea
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Cledorvino Belini. Foto: Divulgação / Anfavea

Por Costábile Nicoletta

Cledorvino Belini ingressou no Grupo Fiat em 1973, antes mesmo da construção da fábrica da montadora italiana em Betim (MG). Trabalhava na Fiat Tratores, a divisão de máquinas agrícolas que, depois de se expandir por meio de incorporações, tornou-se a atual Case New Holland (CNH). Ali, chegou a diretor de compras, planejamento da produção e logística. Em 1987, transferiu-se para a Fiat Automóveis como diretor de compras e, em 1994, assumiu a diretoria comercial. Em 1997, começou a dirigir a fabricante de autopeças Magneti Marelli até que, em 2004, tornou-se presidente da Fiat Automóveis. Hoje, comanda a Fiat/Chrysler na América Latina, além de estar à frente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e de ter sido eleito um dos líderes mais admirados no Brasil em pesquisa organizada por CartaCapital. A experiência de ter vivenciado todos os planos anti-inflacionários que antecederam a estabilização monetária do País o abaliza a analisar o atual momento da economia brasileira.

CartaCapital: O que considera o principal desafio à frente da Fiat?
Cledorvino Belini: O principal desafio de toda liderança é formar, manter, estimular e reconhecer uma equipe preparada e mobilizada. A equipe — e aí incluo o universo de pessoas que trabalham para fazer a força de nossas marcas — é a soma de diversidade, experiência e excelência. O desafio é fazer com que cada um dos colaboradores esteja plenamente preparado para exercer a sua função, aprimorar seus conhecimentos e desenvolver sua liderança. A força interna que permite a uma empresa alcançar a vitória de sua estratégia é a emergência contínua de novos líderes e um time comprometido, que vê sentido em seu trabalho, aceita o desafio e mobiliza suas competências.

CC: Qual sua avaliação acerca da decisão do governo de manter a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis?
CB: A concessão de incentivos na forma de redução da incidência de impostos sobre diversas gamas de produtos, inclusive veículos, provocou imediato aumento do consumo, comprovando a surpreendente elasticidade da demanda em relação ao preço da economia brasileira. No caso da indústria automobilística, inverteu-se a tendência de queda de vendas de automóveis e comerciais leves verificada no primeiro semestre e chegamos ao recorde de 420 mil licenciamentos em agosto, incluindo automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus. O resultado contribuiu para ativar o setor industrial, considerando-se a multiplicidade da cadeia de fornecedores da indústria automobilística. A extensão da redução de incidência do IPI até 31 de outubro dará fôlego ao processo de recuperação da produção industrial nacional.

CC: Ainda há espaço para o crescimento das vendas de carro no País?
CB: Sim, ainda há espaço. Em primeiro lugar, porque o carro é um bem aspiracional, como a casa própria. Em uma sociedade com grande mobilidade, em que milhões de famílias ascendem à classe média, há um enorme desejo de compra de um automóvel para a família. A concretização desse desejo pressupõe que o potencial consumidor sinta-se seguro em relação à manutenção de seu emprego ou fonte de renda e tenha acesso a crédito em um ambiente de taxas de juros declinantes. Estas condições estão dadas hoje. Para dimensionarmos essa potencialidade de mercado, basta observar que no Brasil há um automóvel para cada seis pessoas, enquanto na Argentina há um para quatro habitantes. Para igualarmo-nos à Argentina, seriam necessários 18 milhões de automóveis, distribuídos por todo o País.

CC: Haverá espaço para tantos automóveis?
CB: É preciso destacar a importância do investimento em transporte público de qualidade e abrangência em todo o País. O modelo de deslocamento urbano essencialmente baseado no automóvel particular não é sustentável. A mobilidade urbana pressupõe a combinação de vários modos de deslocamento, para que o automóvel seja um fator de liberdade de ir e vir, e não um problema. A Europa tem em média um veículo para cada dois habitantes, uma concentração três vezes maior do que a brasileira, enquanto os Estados Unidos contam com um automóvel para cada 1,2 habitante, cinco vezes mais do que no Brasil. Eles encontraram fórmulas para harmonizar essa densidade de frota com a mobilidade urbana. Nós temos que desenhar nossa caminho.

CC: O que mais o preocupa no Brasil e no mundo neste momento?
CB: Observo com preocupação a crise econômica e financeira da Europa e a recuperação dos Estados Unidos em ritmo mais lento do que se poderia esperar. Com estas economias a baixa velocidade, o comércio mundial se retrai e as consequências se disseminam globalmente. Mas sou um otimista e acho que toda crise representa uma oportunidade: com as economias centrais menos atraentes, o capital busca alternativas e o Brasil e outros BRICS podem beneficiar-se ao receber capitais em busca de investimentos produtivos para atender mercados em expansão.

CC: O que mais o anima?
CB: A economia brasileira mostra mais uma vez sua capacidade de reação. A combinação de uma medida de caráter transitório, a redução de impostos, com fatores como a redução da taxa de juros, o destravamento da concessão de crédito e o aumento da confiança do consumidor foram suficientes para reativar o mercado em nosso setor. O potencial do mercado interno brasileiro é o fator que mais me anima a perseverar na estratégia de crescimento da empresa, do grupo e do setor.

CC: Qual o principal desafio do Brasil neste momento?
CB: Há uma tarefa coletiva e inadiável no Brasil, que envolve governo, empresários e sociedade, que é a consolidação das bases para o desenvolvimento sustentado. Trata-se de um esforço complexo, que envolve investimentos contínuos em infraestrutura e logística, além da realização de reformas institucionais necessárias à modernização do Estado. As empresas têm o desafio de aumentar sua competitividade, através da eliminação de ineficiências, buscando o esforço de inovação, novas tecnologias, incremento da qualidade, desenvolvimento de novos produtos e processos. São desafios que pressupõem uma forte injeção de qualidade na educação, para preparar a sociedade para dar respostas às urgências da modernidade e às demandas de um modelo de desenvolvimento sustentado. Apesar dos esforços e correções de rota, a qualidade da educação brasileira não é compatível com o país que queremos construir. Há avanços notáveis no tocante à acessibilidade ao ensino superior, através da ampliação da oferta de vagas e da adoção de mecanismos que incorporam à população universitária jovens provenientes de camadas sociais antes excluídas. A educação, por esse ângulo, cumpre sua função democrática de abrir oportunidades para todos e está em sintonia com a forte onda social promovida por diversas políticas públicas combinadas. Entretanto, a qualidade da educação ainda não responde às necessidades de geração de mão de obra qualificada para os diversos setores da economia, sobretudo aqueles voltados para a inovação. O desenvolvimento econômico, político e institucional de um país depende da capacidade coletiva de elaboração de um projeto nacional.

CC: Que achou de ser um dos dez líderes mais admirados do Brasil?
CB: Estou muito honrado. A revista CartaCapital é uma publicação de muito prestígio, que circula junto a um público formador de opinião. Estar entre os dez líderes mais admirados do Brasil é motivo de muita alegria e de estímulo para trabalhar com foco e militar por uma sociedade mais justa e equilibrada, em um país mais rico e equânime.