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Onde habitam as dificuldades do setor sucroalcooleiro?

por Rui Daher publicado 14/02/2014 11h07
O setor quer definições sobre o papel do etanol na matriz energética dos próximos anos. E de forma clara. Por Rui Daher
Elza Fiúza/ABr
Canavial

Entre as safras 2005/06 e 2013/14, área de cana-de-açúcar plantada e produção cresceram 50%

Com a vitalidade de quem chegaria a bom futuro, o pequeno citricultor paulista existiu por pouco tempo. Logo passou a servir como elo frágil de uma cadeia produtiva que se fez maior.

A indústria e alguns analistas tentam fazer-nos crer que entraves sistêmicos pós-crise econômica afetaram o consumo mundial de suco de laranja, o que fez reduzir em mais de 15% o número de laranjais no Estado, especialmente de pequenos produtores.

É verdade, porém, com reparos. O ferro nos pequenos e médios citricultores paulistas é fato histórico a ser contado em décadas e com autores do massacre bem identificados.

Mas se esses já se foram, tratemos dos que ainda podem evitar a pecha de personagens de uma morte anunciada. O setor sucroalcooleiro ou sucroenergético.

Dois períodos de enorme excitação se sucederam no setor. O primeiro, na década de 1970, com o lançamento do Proálcool. O segundo, no início deste século, quando República e Sociedade exaltaram o retorno dos biocombustíveis para limpar a matriz energética brasileira, quiçá do planeta.

Nos idos de chumbo, o petróleo logo realinhou seus preços e a paisagem brasileira abrigou inúmeras usinas de álcool desativadas. Foram pelo menos duas décadas até o início da recuperação.

Já em tempos de duvidosa potência, aos ataques vindos de países hegemônicos questionando os benefícios do etanol de cana-de-açúcar, respondíamos altaneiros e soberanos: "não interfere na produção de alimentos como o milho; não plantaremos na Amazônia; cortem a sobretaxa e verão só." Veículos flex passaram a dominar a produção nacional.

Toda essa eloquência, hoje, virou pergunta sussurrada. Voltaremos aos anos 80?

Olhando para os canaviais, parece que não. Entre as safras 2005/06 e 2013/14, área plantada e produção cresceram 50%, para 8,8 milhões de hectares e 660 milhões de toneladas, respectivamente. Uma taxa apreciável.

Se o mesmo não aconteceu com a produtividade, 20% abaixo do patamar médio de 80 t/ha, nada a temer. O nível tecnológico da cultura permite recuperação rápida. Segundo a CONAB, nesta safra já deve chegar a 75 t/ha.

Bom lembrar que, no período, apesar das aludidas dificuldades, o setor pôde quebrar entraves históricos ambientais, trabalhistas e atingir alto grau de mecanização. Grandes complexos cresceram e diversificaram.

Se as dificuldades do setor vêm depois de planta, soca e colheita, onde então elas habitam?

Poderia ser nas usinas de açúcar, quando batem às portas da Índia e dela não recebem nem afeto nem doce predileto. Ou nas plantas de etanol, que ocupam tímido quarto de serviço na Mansão Petrobras.

Acontece que a produção de açúcar, a partir de 2010, cresceu 25%, para perto de 40 milhões de toneladas, dois terços do total sendo exportados no embalo de preços recordes no comércio exterior, entre 2010 e 2012.

Mesmo com a oferta indiana recomposta, as cotações ainda permanecem 30% acima das em vigor até 2008. Uma flexibilidade que nem todo setor tem.

Teria sido então no etanol que a porca torceu o rabo?

No período analisado, de oito safras, a produção cresceu 6,2% anuais, para 27,5 bilhões de litros. Tudo para o mercado interno, pois a exportação é mínima.

Um problema; um motivo. Queda de produção em 2011 e 2012; redução no consumo com o subsídio da Petrobras aos preços da gasolina.

Os calos pisados não são meus. O fato pode, realmente, justificar o tamanho da repercussão.

Parece-me, no entanto, único, algo que um arreglo público-privado resolveria. Claro que um dos lados precisaria dar arrego, no caso o mais irracional, que danifica uma valorosa empresa estatal e um setor eficiente a fim de controlar uma inflação mal identificada.

O pior será deixar tudo como está. Afinal, o preço do etanol nas usinas cresceu 13% desde a última safra e os 25% de mistura na gasolina vão ajudar a demanda.

Não basta. Além de afastar o artificialismo do governo nos preços da Petrobras, o setor quer definições sobre o papel do etanol na matriz energética dos próximos anos. De forma clara.

Onde está o investimento para cogeração de energia elétrica por meio do bagaço de cana? Estamos discutindo as repercussões futuras do gás e óleo de xisto? Até onde as definições do Congresso dos EUA e o pacote ambiental e energético da Comissão Europeia para 2030 afetarão a demanda de biocombustíveis? Como coibir os subsídios na Índia para o açúcar?

Muito mais do que os tropeços breves e recentes do setor, preocupam pautas importantes do futuro encobertas por uma queda de braço burra.

Estamos entrando num jogo sem o goleiro. Mas brasileiros acreditam ser tudo possível.

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