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Economia

Crise Financeira

O segundo tombo

por Delfim Netto publicado 29/07/2010 15h25, última modificação 29/07/2010 15h27
O crescimento dos níveis de pobreza nos países desenvolvidos mantém a economia mundial sob estresse. O próximo ato da crise pode ser ainda mais trágico

O crescimento dos níveis de pobreza nos países desenvolvidos mantém a economia mundial sob estresse. O próximo ato da crise pode ser ainda mais trágico

Nesta primeira semana de julho, as várias tribos de economistas deste nosso espaço globalizado foram chamadas a se manifestar sobre o ceticismo do respeitado professor Roberto Shiller quanto à recuperação dos países da Eurolândia atingidos pela segunda crise financeira provocada pela irresponsabilidade fiscal dos governos, aliada às patifarias dos mercados financeiros.

Numa recente entrevista, ele revelou sua frustração diante da falta de confiança que existe nos países desenvolvidos quanto a uma resposta positiva à crise na maioria das economias europeias. O professor Shiller acredita que é maior que 50% a probabilidade de que o mundo entre em um novo período de recessão por conta dessa crise europeia, que na verdade é a continuação daquela de setembro de 2008.

As opiniões do professor Shiller são ouvidas porque se trata de um profundo conhecedor dos problemas que tumultuam os sistemas financeiros, particularmente o mercado imobiliário. Escreveu obras extraordinárias, dentre as quais o famoso texto Animal Spirit, que tem edição em português.
É preciso relativizar, no entanto, o peso do seu comentário a respeito da probabilidade de outra recessão. Ele mesmo fez questão de chamar a atenção para o fato de que não está apoiado em nenhum estudo novo, mas apenas no seu próprio sentimento. “Não tenho atrás de mim nenhuma teoria nem o resultado de alguma experiência; apenas eu sinto, simplesmente, que existe essa probabilidade de um segundo mergulho no nível de atividade da economia mundial ...”

Como podem ser medidos, então, os 50% ou mais de probabilidade? Ela é apenas a frequência com que um fato se repete e, como não houve nenhuma experiência, não há nada a medir. Então, tanto faz dizer que a probabilidade é de 50%, ou menos, que as coisas não mudam, neces-sariamente. Agora, por que é preciso prestar atenção a uma conjectura como esta? Porque as consequências de um segundo tombo, quando ainda não estão curadas as fraturas do primeiro, são simplesmente aterradoras.

É evidente que a maior parte dos 30 milhões de desempregados desde a crise iniciada nos Estados Unidos em 2008 não foi reabsorvida no mercado de trabalho. O crescimento dos níveis de pobreza nos países desenvolvidos continua a manter a economia mundial sob estresse, o comércio global reduz as perspectivas de expansão e aumenta a volatilidade nos mercados financeiros. Isso, obviamente, põe dificuldades para a aceleração do desenvolvimento nos países que não contribuíram para o primeiro ato da tragédia nem são responsáveis pelo segundo, que, se confirmado o sentimento do professor Shiller, conduzirá a um desenlace ainda mais trágico.

Os governos que socorreram a banca envolvida na patifaria, com recursos extraídos do setor produtivo parecem não entender que haverá alguns milhões de trabalhadores a menos, que já não terão renda para ser expropriada numa segunda oportunidade. A lerdeza com que estão trabalhando para aprovar a regulação que proteja a sociedade da concupis-cência dos agentes financeiros e suas inovações tóxicas é uma indicação de que não aprenderam nada com a história. Nem a do século passado e suas terríveis consequências nem a da última década com o empobrecimento dos povos.

Quando se olha de perto o que aconteceu, não podemos deixar de lembrar a célebre descoberta de Hegel na sua Introdução à Filosofia da História: “O que a experiência e a história nos ensinam é que os povos e os governos nunca aprendem nada com a história ou usam os princípios dela deduzidos”.
Nunca foi tão útil entender e tirar da história as lições que reduzam a probabilidade de novo erro. Essas lições não se circunscrevem à necessidade de construção de um sistema monetário e financeiro hígido, estável e devidamente regulado para financiar o sistema produtivo e as inovações que são a base do crescimento da produtividade do trabalho. Um fato importante que se pode extrair da crise é que ela mostrou a velocidade com que controles fiscais aparentemente bem-sucedidos podem deteriorar-se e ameaçar o equilíbrio dos países.

A lição maior da crise é que a percepção da existência de um sólido equilíbrio fiscal de longo prazo e uma apropriada relação Dívida Pública/PIB (corretamente medida) são fundamentos do sucesso da boa governança. Esses fundamentos dão aos governos a capacidade de bem cumprir o seu papel no enfrentamento das crises de oferta ou procura globais.
O Brasil tem sido até agora um bom exemplo do sucesso dessa lição. •