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O risco das bolsas com os robôs de alta frequências

por Luis Nassif publicado 06/12/2013 14h40
A grande queda da Nasdaq em 2010 ocorreu devido a uma falha de um desses robôs: a ordem de venda de 30 centavos que foi interpretada erroneamente como 3 centavos

Recentemente, no programa "Conta Corrente" da Globonews, o professor Marco Antônio Leonel Caetano, do Insper, foi ironizado por seus estudos sobre comportamento do mercado a partir da análise dos terremotos.

Foram críticas de quem não acompanha o uso do conhecimento de física e de realidades dinâmicas para o mercado de ações.

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Caetano iniciou seus estudos há 15 anos. Junto com um colega do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Takashi Yoneyam, seu orientador de doutorado, desenvolveu vários estudos de modelos dinâmicos em engenharia, medicina e até previsão de dengue. A partir de um certo momento, resolveu testar seus modelos no mercado financeiro. Estudou as análises gráficas (técnicas que visam prever quando o mercado bate no seu limite de alta e de baixa) e constatou que nenhuma técnica estatística normal conseguiria prever com exatidão os grandes movimentos de baixa ou de alta.

Entendeu que o mercado trabalhava com ondas similares aos movimentos de alta frequência estudados na engenharia, física e geologia.

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Ambos foram buscar as fórmulas desenvolvidas por um geofísico da Califórnia para prever terremotos. Seu modelo funcionava quando o mercado ficava parado, depois de subir fortemente. Constatou-se que, nesses momentos, o mercado exibia movimentos de alta frequência - isto é, uma amplitude pequena de variação de preços mas muito rápida. Sempre que entrava nesse estágio, podia se esperar um grande movimento próximo.

Valendo-se dessa técnica, Leonel passou a identificar padrões similares na véspera dos grandes cracks mundiais. Foi assim na análise do Dow Jones alguns meses antes da crise de 1929. Aparecia o mesmo risco no crash de 1907, em 1987, no mercado chinês em 2006 e 2007.

Em 2002 ambos tentaram publicar o estudo na revista Physic. Levou quatro anos para ser aprovado, pela dificuldade em encontrar especialistas que casassem conhecimento de engenharia com mercado financeiro. A publicação garantiu aos estudos reputação acadêmica.

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Os gráficos mostravam que, na véspera do crash, aparecia um "tufão branco no meio da tela", como Leonel descreve a curva. Em 2007, o mesmo tufão apareceu na tela, três ou quatro meses antes da quebra da Lemon Brothers.

Em cima desses estudos, Leonel montou um Índice de Mudanças Abruptas - para tentar antecipar crashes do mercado - e um Índice de Entrada - para antecipar recuperações.

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O que interessa nessa história é que, de uns tempos para cá, os corretores passaram a disponibilizar para sua clientela os chamados robôs traders, com movimentos de alta frequência acoplado a ordens de compra e venda de papéis, com técnicas mais ou menos aprimoradas.

A grande queda da Nasdaq em 2010 ocorreu devido a uma ordem errada de um desses robôs. Era uma ordem de venda de 30 centavos que foi interpretada erroneamente como 3 centavos. Houve um disparo automático de ordens de vendas por parte de outros robôs que, em pouco tempo, reduziu em 98% a carteira da KCG, empresa que respondia por 17% dos negócios da Nasdaq. A bolsa caiu 15% obrigando o FED a intervir.

Agora, tem-se uma data de corte complicada - a mudança na política monetária do FED. Se não houver cautela de corretoras e investidores, poderão ocorrer desastres de monta, alerta Leonel.

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