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O risco da parada súbita

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 06/04/2011 16h40, última modificação 07/04/2011 10h42
Os ciclos de endividamento externo tendem acabar de forma drámatica. No rol de vencedores da batalha contra a depressão global, a China, a Índia e o Brasil figuram em posição de respeito. Por Luiz Gonzaga Belluzzo
O risco da parada súbita

Os ciclos de endividamento externo tendem acabar de forma drámatica. No rol de vencedores da batalha contra a depressão global, a China (foto), a Índia e o Brasil figuram em posição de respeito. Por Luiz Gonzaga Belluzzo. foto: AFP

O governo brasileiro decidiu impor um IOF de 6% aos empréstimos externos de bancos e empresas brasileiras com prazo de até 360 dias. É mais uma tentativa de frear a tendência à valorização do real e de conter o crescimento do passivo externo, sobretudo dos compromissos de curto prazo. A “chuva de dinheiro” é derramada sob o estímulo das taxas de juro excepcionalmente baixas e pela liquidez abundante nascidas das intervenções dos bancos centrais da tríade desenvolvida, Estados Unidos, União Europeia e Japão.

Ademais de construir um piso para a deflação de ativos, as intervenções de provimento de liquidez suscitaram, diriam os keynesianos, um movimento no interior da circulação financeira global. O inchaço da circulação financeira teve efeitos mesquinhos sobre a circulação industrial nos países desenvolvidos, leia-se sobre a movimentação do crédito que suporta as decisões de gastos das empresas e das famílias, estimulando a produção, a renda e o emprego.

O rearranjo no interior do estoque de riqueza responde aos preços esperados dos ativos “especulativos” por parte dos fundos que sobreviveram ao colapso da liquidez. Agarrados aos salva-vidas lançados com generosidade pelo gestor em última instância do dinheiro, os senhores das finanças tratam de restaurar as práticas e operações de “normalização dos mercados”, isto é, aquelas que levaram à crise.

Nas circunstâncias atuais, o rearranjo das carteiras favorece as bolsas, as moedas dos emergentes e as commodities. O dólar segue sua trajetória de declínio, depois da valorização observada nos primeiros meses de crise. Diante do frenesi que ora turbina as bolsas, as moedas dos emergentes e as commodities, não faltam prognósticos que anunciem o fim da crise. Os movimentos observados no interior da circulação financeira, em si mesmos, não prometem à economia global uma recuperação rápida e brilhante, mas indicam que os mercados estão dispostos mais uma vez a arriscar a pele dos países receptores com a formação de novas bolhas de ativos.

Os “economistas dos mercados” ou os que auguram essa serventia dizem que não há como contrariar as forças que movem a moeda nacional para cima. Elas emanam, na opinião deles, da nova configuração da divisão internacional do trabalho, que atribui aos emergentes produtores de commodities uma posição privilegiada na imaginação dos mercados spot e futuros que, desta vez, especulam a nosso favor.

Economistas da banda contrária (e de todas as partes do mundo) assinaram um manifesto, sugerindo às autoridades globais que tomem medidas para conter as idas e vindas dos capitais aventureiros. Não foram ouvidos nem cheirados pelos figurões, mas contestados pelo Institute of International Finance, a casamata ideológica dos fogueteiros que prepararam cuidadosamente a bomba da crise financeira.

A história dos emergentes está recheada de paradas súbitas, episódios que de tempos em tempos encerram os ciclos de endividamento em moeda estrangeira. Nesses momentos, a grana que entrou trata de sair rápido para fugir à desvalorização esperada da moeda local, uma profecia que se autorrealiza no próprio movimento de fuga em direção à moeda reserva. As razões que desencadeiam tais episódios nos exportadores de produtos primários não são desconhecidas do público informado: valorização cambial excessiva, déficit crescente em conta corrente, reversão nos preços das commodities.

O economista-chefe Yilmar Akyuz, do South Center, em artigo publicado recentemente, faz um estudo comparativo entre os últimos quatro episódios de parada súbita: o desfecho trágico do processo de endividamento dos anos 70 do século XX; a crise asiática de 1997-1998; a reversão do fluxo de capitais no fim dos anos 90, aquele que levou à breca o regime de taxas de câmbio fixas ou semifixas; e, finalmente, a mudança de rumos do “dinheiro quente”, depois da quebra do Lehman Brothers, em 2008.

Akyuz afirma que, independentemente das razões imediatas da reversão do movimento de capitais, “é certo que isso coincidirá com uma queda no preço das commodities”. Sendo assim, os mais prejudicados serão os países que gozam do duplo benefício: a valorização dos produtos primários e a invasão de capitais externos.

No rol de vencedores da batalha contra a depressão global, a China, a Índia e o Brasil figuram em posição de respeito, cada qual com suas forças e fragilidades. Entre as fragilidades ressaltam a pressão para a valorização das moedas nacionais, os déficits em conta corrente e as ações destinadas a esterilizar os efeitos monetários da acumulação de reservas, com efeitos indesejáveis sobre a dinâmica da dívida pública dos países receptores da “chuva de dinheiro externo”. Tais inconvenientes são particular-mente danosos nos países com taxas de juro reais desalinhadas e métodos de intervenção inadequados nos mercados cambiais.