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O queixume como esporte nacional

por Rui Daher publicado 02/01/2015 12h00, última modificação 17/06/2015 17h36
Do governo à seleção brasileira de futebol e ao clima seco, nada nos satisfez. Não creio um 2015 diferente
José Cruz/Agência Brasil
Militante do PT na posse de Dilma

Perspectivas? Mais desnecessárias, sobretudo quando abordam a economia. Analistas carrancudos espalharão o pior

Poucos não acharam 2014 uma lástima para o Brasil. De uns anos para cá, queixumes viraram esporte nacional. Especialmente entre os mais ricos, que o incorporaram aos críquete, hipismo e golfe. Não creio um 2015 diferente.

Do governo à seleção brasileira de futebol e ao clima seco, nada nos satisfez. Ouvi gajos reclamando da constância de Gisele em fotos e telas. Terá Tom Brady padecido o mesmo suplício com ela ao vivo?

Talvez o tsunami corruptor, tão maior do que o nosso, secular e somente agora percebido na Federação de Corporações, tenha instilado o fel que nos amarga. Injusto não abocanharmos parte maior.

Não serão diferentes os próximos 365 dias. Não que iremos novamente perder de 7 a 1 da Alemanha. Neves não cairão em urnas que deixarão muitas viúvas. Água de beber é possível que haja assim como justificativas silabadas.

No fim de 2015, antecipado pelo comércio para setembro, nos abraçaremos para desejar paz, saúde, amor e muito dinheiro no bolso. A todos.

Tanta sinceridade excluirá brigas com vizinhos por causa de cães barulhentos, diarreias crônicas, inexplicáveis pés-na-bunda amorosos, e impacientes abutres bicando a carniça acionária da Petrobras em busca de altas imediatas.

Pergunto: alguém ainda lê retrospectivas de fim de ano? Poderia trazê-las aqui sobre agropecuária. Foi assim, aconteceu o assado. Pulo, embora entenda como obrigação das Redações em folhas telas cotidianas. É da tradição.

A Folha de São Paulo, em sua retrospectiva, diz que 2014 foi um “ano bipolar”. A capa de uma revista semanal anuncia “o ano do mico”. Estranho. Qual não foi uma coisa ou outra?

Perspectivas? Mais desnecessárias, sobretudo quando abordam a economia. Analistas carrancudos espalharão o pior. Sabem que alguma merda sempre virá. Se melhorar, encontrarão um povo desmemoriado e um adversativo para salvá-los.

Onde mais se erra mais se pontifica. Afora quem se dedica à exegese dos búzios, poucos arriscam prever cusparadas em árbitros de futebol, acidentes de carros em Minas Gerais, trens na Índia e barcos no Pará. Estes, sim, previsíveis, como a miséria mal e porcamente escondida.

Apostaria em inundações urbanas e deslizamentos de morros no verão, desfiles civis-militares nos sambódromos, que especialistas conseguirão diferenciar em centésimos, e baianos sobre trios elétricos de 85 membros.

E vocês, queridos agropecuaristas? A quem os olhos de William e Renata, no JN, acusarão de vilões da inflação dos alimentos? Palpite para a dupla de música sertaneja moderna lançada pela Rede Globo? Fraternos urbanoides, sugestão para as redondilhas poéticas de Pedro Bial no BBB qualquer número e nota?

Fato é que não sabemos coisa nenhuma. Nem do que passou nem do que virá. O genial escritor e jornalista Ivan Lessa já nos alertava que “a cada 15 anos, o Brasil esquece os últimos 15 anos”.

Se me pedissem para citar um avanço da sociedade mais próxima a mim, lembraria a evidente progressão da leviandade nos guetos do luxo paulistano.

Melhor, então, deixar pra Deus. Assim dizem os que Nele creem e temerosos agnósticos seguem a manada.

“De um tudo” foi feito para explicar-nos os motivos dos fracassos. Concedemos inestimada atenção para números assustadores e balanços contábeis de bancos e grandes empresas nem tanto. Fizeram cara de sérios perscrutadores de realidades e ortodoxias. Assim mesmo, dizem, que votamos mal, arrematados tontos que nada entendem.

Aliás, permitam-me tergiversar um pouco. Hoje o batuque segue leve e solto. De meus desejos pessoais para 2015 um é vital. A persistir, pode impedir-me alcançar os 70 anos.

Deus ou búzios, façam desaparecer de meus pesadelos um palpiteiro na Globo News, bigodinho bem aparado, tipo o do ator-espadachim Errol Flynn (1909-1959), voz grave de forte acento carioca. Vez ou outra, aparece-me metido num fardão. Acordo gelado, tremendo e suando frio.

Certo é que, enquanto aqui fazemos trololó de pior boteco, plantinhas vão saindo da terra, crescendo sem dar a menor bola para o que pensamos. Vivem, porque viver é só viver, assim como dizia outro gênio da raça, Millôr Fernandes: “pensar livre é só pensar”.

Quase 200 milhões de toneladas de grãos se formam para colheita em 2015. Cafezais desesperadamente tentam encher seus grãos. Bagas de uvas aproveitam para cicatrizar pequenos arranhões. Bilhões de pés de hortaliças se espalham para abate e novo semear. Amoras pretejam terras do interior paulista e lichias se despedem até o próximo Natal.

Por tudo isso serei feliz em 2015 e, espero, vocês também. Vistas assim do alto e com a lupa, nestas Andanças Capitais. Sem medo de errar. O que escrevo dá pra ver.

Posse 1

Ô ministra Kátia Abreu, depois de tudo o que passei aqui, precisava usar aquele vestido? Lembrou-me Gilberto Gil: “Enquanto o tempo não trouxer teu abacate/Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão”.

Posse 2

Escrevi que importante seria nomeado para comandar o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Patrus Ananias foi excelente escolha.