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Economia

Crise financeira

O preço do silêncio

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 01/12/2010 10h45, última modificação 01/12/2010 10h45
Por que a maioria dos economistas proeminentes não antecipou a crise? Os dólares de Wall Street emudecem

Por que a esmagadora maioria dos economistas fracassou em antecipar a crise financeira, a despeito dos inúmeros sinais que apontavam para a sua iminência?” Dois professores da Universidade de Massachusetts – Amherst, Gerald Epstein e Jessica Carrik, meteram-se na aventura de compreender as razões do silêncio da maioria que não latiu, sequer gemeu, no período de “construção” dos fundamentos da derrocada financeira.  
O estudo de Epstein e Carrik seguiu os passos de 19 proeminentes economistas. Figuras de escol da intelligentsia contemporânea, eles circulam entre a academia, as instituições financeiras privadas e públicas. Com acesso à mídia e, na maioria dos casos, incumbidos de exercer o “controle de qualidade” dos artigos apresentados às revistas especializadas, o silêncio dos economistas matou dois coelhos com uma só pancada: “Fez a cabeça” da maioria silenciosa e estabeleceu os critérios de respeitabilidade acadêmica para façanhas teóricas do “mercadismo” contemporâneo, como a hipótese dos mercados eficientes.
Para quem não sabe ou não está lembrado, essa hipótese afirma que todas as informações relevantes sobre os fundamentals da economia estão disponíveis em cada momento para os participantes do mercado. Na ausência de intervenção dos governos, a ação racional dos agentes será capaz de avaliar corretamente as relações risco/rendimento dos ativos e, assim, orientar a melhor distribuição possível dos recursos.
Lido e relido, o estudo de Epstein e Carrik procura mostrar, na verdade, que a “circulação das ideias vencedoras” nasce das exigências de legitimação intelectual, “científica” e acadêmica da Grande Finança – especialmente de Wall Street e suas práticas.
É razoável aceitar a sugestão de alguns críticos que estabelecem relações entre as heterodoxias das práticas franqueadas pela liberalização financeira das últimas décadas e a construção de modelos de precificação de ativos e de avaliação de risco cada vez mais “precisos” e abstratos. Garantida a superioridade científica de tais modelos, a mídia encarrega-se de colocar à disposição da rafameia semiletrada a vulgata da gororoba científica, para deleite dos acólitos do Tea Party e adjacências hiperconservadoras.
 Nas entrelinhas, as conclusões do estudo deixam claro que roda cada vez mais depressa a “porta giratória” que faz circular- os sábios da crematística entre os três ambientes, a academia, a finança privada e o Estado. A pesquisa desvela intensa promiscuidade entre os acadêmicos da área financeira, o setor privado e certas funções públicas estratégicas. “Mais especificamente, dos 19 economistas incluídos no estudo, 13, ou seja, quase 70%, ocupavam postos no setor privado. Um dos economistas trabalha para dois bancos, em um deles como presidente, em outro como diretor.”
O leitor tem o direito de imaginar que escrevo esta coluna com o objetivo de estigmatizar moralmente os profissionais da economia que servem a Deus e ao Diabo. Em tempos de anátemas fulminados por prelados de todas as religiões, nada poderia ser mais perigoso para a vida laica e democrática. Se for assim, o cidadão preocupado com a defesa da livre circulação das informações e das opiniões (aí, incluídas as “científicas”) deve empenhar sua atenção nas transformações ocorridas na esfera pública da sociedade capitalista, sobretudo nos Estados Unidos. Não só os economistas, mas também outras profissões outrora liberais sofrem as agruras de submeter a legitimidade de suas investigações à adesão incondicional e à lógica dos mercados desregulados. Isso está relacionado com a formação de blocos de poder que fecham os espaços para a opinião divergente.
 Na caminhada para a crise financeira, a fragilidade numérica dos opositores e o “desprestígio” científico das vozes discordantes abriram alas para o agravamento da miopia gulosa, sempre acompanhada do fenômeno que Gabriel Palma chamou de “despolitização” do Estado, então completamente imobilizado pelo mito da “disciplina dos mercados”. Diante disso, torna-se ridícula a discussão em voga nos Estados Unidos sobre os responsáveis pela crise: mercados financeiros inclinados a promover expansões descontroladas do crédito e processos cumulativos de inflação de ativos ou reguladores omissos que olharam para o outro lado? Não é difícil descobrir que – acomodados nas teorias dos sabichões – reguladores e regulados navegavam no mesmo barco.  
 No prefácio que escreveu para o livro de Christopher Whalen (Inflated: How money and debt built the american dream), Nouriel Roubini sente-se obrigado a apresentar o autor como um analista independente do sistema financeiro que rejeita “os habituais contorcionismos serviçais”, típicos das pesquisas comandadas por Wall Street. •