Você está aqui: Página Inicial / Economia / O peso do Brasil

Economia

Sistema financeiro

O peso do Brasil

por Por André Siqueira, de Madri — publicado 20/07/2010 15h03, última modificação 29/07/2010 17h29
O peso do Brasil

Banco Santander amplia os negócios nos países emergentes, mesmo diante da crise europeia. Por André Siqueira. Foto: Rafa Rivas/AFP

Diante da crise europeia, o Santander amplia os negócios nos emergentes. Em 2010, as operações brasileiras podem superar aquelas da matriz espanhola

A crise europeia aumentou o peso das operações brasileiras de empresas sediadas nas regiões mais afetadas pelas turbulências do mercado. Não por acaso, a Telefónica comprou uma briga séria com os sócios da Portugal Telecom pelo controle da Vivo. Outro sinal dos novos tempos vem do Santander, o maior banco espanhol. Seu presidente, Emilio Botin, declarou recentemente esperar que os lucros gerados no Brasil ultrapassem pela primeira vez, em 2010, os obtidos pela matriz.

No início de junho, o executivo disse esperar que a participação da subsidiária nos resultados aumentasse de 21%, em 2009, para 23%, até dezembro. A Espanha passaria a responder por 21%. Passado pouco mais de um mês, as previsões internas do grupo para o Brasil estão mais próximas dos 24%, uma vantagem que tende a se ampliar nos próximos meses.

As mudanças ocorrem apesar de o Santander não ter conseguido mostrar, no Brasil, a que vieram os 7,7 bilhões de dólares obtidos em setembro de 2009, na oferta pública de ações na Bovespa, a maior rea-lizada no mundo no ano passado. Os últimos dados do Banco Central, referentes a maio, mostram o banco atrás dos concorrentes na expansão da oferta de crédito. O volume de empréstimos feitos pelos espanhóis aumentou 1,1%, ante 2,6% dos bancos públicos e 2,1% dos rivais privados.

“Não queremos que o mercado nos avalie a curto prazo, porque nossos planos são de médio prazo”, afirma o vice-presidente do Santander, Francisco Luzón, que ocupa- a direção-geral da Divisão América do banco. A estratégia da instituição financeira no Brasil inclui a abertura de mais 600 agências nos próximos três anos – até o fim deste ano, 180 serão inauguradas. Em maio, a instituição mostrou estar disposta a seguir o caminho da concorrência, em busca de clientes nas classes médias emergentes, e abriu uma agência no Complexo do Alemão, no Rio.
“Queremos fazer a integração com o Real (incorporado pela instituição em 2007, em consequência da aquisição do holandês ABN Amro) e criar um banco potente, preparado para fechar 2010 sem perder mercado. Em 2011, teremos uma única marca e uma oferta de produtos e serviços completa, para chegar a clientes de baixa a alta renda”, diz Luzón.

O Santander possui 20 milhões de clientes no Brasil, divididos meio a meio entre correntistas e possuidores de cartões de crédito, financiamentos ou outros serviços. O vice-presidente do banco diz esperar que a instituição consiga ampliar a participação no mercado local dos atuais 9,1% para 15% até 2013. Até o fim deste ano, essa parcela poderá se aproximar dos 10%. Esse crescimento deixaria a operação brasileira alinhada à posição do grupo na América Latina – a fatia no conjunto dos sistemas financeiros dos sete países em que mantém presença é de 10,2%. Nesses mercados, que o executivo chama de “coluna vertebral” da região, a instituição possui um total de 6 mil agências.

Segundo Luzón, se os anos 80 e 90 foram décadas perdidas para a América Latina, o período de 2000 a 2010 foi a década recuperada. “E os próximos dez anos vão ser de grande expansão.” O vice-presidente do Santander acaba de retornar de uma viagem à China, onde apresentou o banco como um potencial canalizador dos investimentos do governo e das empresas na região. “Interessa muito aos chineses participar de empreendimentos nas áreas de infraestrutura e produção de matérias-primas e alimentos na América Latina, tendo o Brasil como cabeça de ponte. O objetivo era mostrar a eles que nenhum banco estrangeiro tem uma presença tão forte quanto a nossa nesses principais mercados.”

O resultado da estratégia do banco espanhol nos mercados emergentes deverá fazer com que a participação das operações nesses países – aí incluídos a China e os demais asiáticos – salte de 40% para 60% dos lucros entre 2009 e 2010. Apesar da aparente “fuga para a segurança” – desta vez no sentido contrário, do Hemisfério Norte para o Sul –, os executivos responsáveis pela área de planejamento do Santander preferem afirmar que a Espanha e os demais mercados no Velho Continente, como Inglaterra, Alemanha e Portugal, atravessam hoje uma fase de correção de rota, ainda que sem previsão de retorno ao crescimento econômico. “Os riscos (na Europa) são políticos. A preocupação do mundo é com a coordenação dos programas e quando serão feitos os ajustes”, afirma o diretor de análise e estratégia do banco para as Américas, José Juan Ruiz. Na década de 1990, o executivo ocupou diversos cargos no Ministério da Economia, Fazenda e Comércio espanhol.

Segundo a diretora de estudos econômicos e políticas públicas do Santander, Alejandra Kindelán, a Espanha viveu um período de prolongado crescimento, com elevações médias do PIB superiores a 3% ao ano, durante 15 anos, e está no caminho para corrigir o déficit público (que deverá cair de 11,2% do PIB, em 2009, para 4,4%, até 2012) e se adequar a um mundo com menor demanda e liquidez. “O mercado vê a situação ruim, mas não percebe um ajuste silencioso em andamento.”

O governo espanhol anunciou uma série de reformas para reduzir o tamanho da dívida, entre elas cortes de 5% nos salários de funcionários públicos, e teve de enfrentar situações como a greve no metrô de Madri. Apesar do anúncio de uma reestruturação no mercado bancário, com a série de fusões patrocinada pelo governo entre as chamadas cajas de ahorro – as instituições responsáveis por alimentar a bolha do crédito imobiliário, que serão reduzidas de 45 para apenas sete –, o mercado interbancário ameaçou entrar em colapso por diversas vezes.

“Ao longo deste mês, espera-se terminar a reforma com uma proposta de modificação da Lei das Cajas, o que nos permitirá pôr sobre a mesa projetos de futuro mais esperançosos, que não sejam cortar, cortar e cortar”, afirmou o vice--presidente do Banco de Espanha (o banco central daquele país), Javier Ariztegui, na terça-feira 6, durante seminário patrocinado pelo Santander na Universidade Internacional Mendez Pelayo, na cidade que dá nome ao banco.
Mesmo assim, não faltam vozes para apontar falta de transparência do governo na divulgação das causas e consequências da crise espanhola. O economista Alberto Montero-Soler, professor da Universidade- de Málaga e vice-presidente da Fundação Centro de Estudos Econômicos, Políticos e Sociais (Cepes), critica o uso do termo crise de dívida soberana, e diz que a raiz dos problemas do país está no excessivo endividamento do setor privado. O especialista cita dados do BIS (Bank for International Settlements), que regula o sistema financeiro internacional), que mostram 62% dos títulos de empresas e bancos espanhóis nas mãos de instituições financeiras francesas e alemãs, ante apenas 18% dos bônus do governo.
“As dúvidas dos mercados sobre a solvência da dívida privada contagiam as avaliações da solvência pública e do governo. Ao centrar-se nesta e não naquela, (o governo) recorre a um ajuste econômico que, totalmente fora de foco, afunda mais a economia e é rechaçado até pelos mercados”, escreveu Montero-Soler em seu blog, no sábado 3.

No coração da turbulência, o Santander foi apontado como o banco europeu com maior grau de solvência, de acordo com os testes realizados por autoridades europeias – a divulgação oficial será feita na segunda quinzena de julho, mas os resultados foram “vazados” para a imprensa recentemente, em uma tentativa de tranquilizar os mercados. “A publicação dos resultados mostrará a solvência do sistema bancário espanhol”, disse Ariztegui.
Não por acaso, o banco defende a adoção de maior fiscalização sobre o sistema bancário internacional e exigências diferenciadas para as instituições financeiras, de acordo com a situação financeira de cada uma, e não pelo porte. “Não queremos que os justos paguem pelos pecadores”, afirma a diretora. “Por outro lado, defendemos que não haja mais instituições consideradas grandes demais para quebrar, desde que o sistema esteja preparado, com planos de contingência e liquidação.”

Se estiver certo nas apostas feitas há 15 anos, quando colocou os pés na América Latina, o Santander terá vantagem estratégica sobre os concorrentes do Hemisfério Norte. A rentabilidade média do setor na região, de acordo com o banco, é de 15,7%, ante 14,2% na Ásia e 6,6% nos países- desenvolvidos. A melhora de renda na região e o aumento das taxas de bancarização da população impulsionam o volume de operações financeiras. No entanto, para desfrutar esse novo Eldorado, os espanhóis terão de encarar a força das instituições financeiras locais.

Entre 2000 e 2009, os bancos nacionais dos sete países em que o Santander atua, e que apelidou de G-7, aumentaram sua cota no sistema de 35% para 46%. Enquanto isso, os estrangeiros – como o Santander, seu rival espanhol BBVA, além de HSBC- e Citibank – perderam terreno, caindo de 35% para 27% no mesmo período, afetados pela crise nas matrizes.