Economia

O ostracismo dos homens do agronegócio

por Rui Daher publicado 22/11/2013 13h08
Para evoluirmos do ponto em que estamos, seria necessário gestão centralmente planejada, com aberturas lógicas e controles punitivos

O agro tem razão quando se queixa da pouca bola que recebe das folhas e telas cotidianas. Sinto isso na carne. Política, entretenimento e economia passam por um processo onde mais vale o fulano do que o fato.

Invadem intimidades e fazem a festa de multidões leitoras ou cultoras de cenários sanguinolentos ou formas frutíferas rechonchudas.

Realidades, investigações honestas, reflexão de motivações, deixa-se para a programação vespertina das TVs abertas ou os tediosos debates na Globo News e similares.

Fato é que agropecuária, hoje, não tem fulano ou fulana que mereça esse tipo de destaque. Aliás, se o teve, foram poucos. Basta olhar nossa galeria de ex-ministros.

Logo após criar, em 1860, o órgão que viria a ser o ministério da Agricultura, o 2º Império teve como funcionário o escritor Machado de Assis, que em nada influenciou a política agrícola brasileira. Apenas precisava de um salário para poder escrever.

Procure bem, e diga-me lá um personagem de alto calibre na agropecuária brasileira que faça a mídia nele se interessar.

Olacyr de Moraes esteve por aí. Mas precisou largar a produção de plumas algodoeiras e cevar a criação de moças emplumadas.

Premiações, sim, abundam. Bom exemplo, caso mérito fosse o critério. Percebam os palcos oferecidos, a criatividade nos formatos dos troféus. Nosso capitalismo adora recompensar.

Tenho sido otimista com a agricultura. Até a página 32, porém.

Desde que foi definido o modelo fundiário que iríamos adotar, realmente, houve desenvolvimento em todos os sentidos.

Após os períodos monocultores, duas etapas foram essenciais na inflexão: a primeira, entre as décadas de 1960/70, com incentivos e investimentos industriais e tecnológicos. Tudo o que veio depois foi autóctone.

A segunda, nos últimos dez anos e ainda embrionária, através dos programas voltados para a agricultura familiar.

No entremeio, ficamos semi paralisados. As estatísticas mostram. Acumulou-se endividamento monumental, cuja recuperação, ainda não total, só veio depois da alta das commodities.

Se os preços caírem, ferra. A produção não acompanharia os custos dos insumos nem o “esmagamento” da colheita pelas indústrias, ambas concentradas.

Mas não é isso o que me faz parar na 32 e acreditar que a agricultura crescerá de forma mais lenta e menos sustentável.

O motivo é político, setor onde agricultura e pecuária quase não têm importância. Seus protagonistas são primários, paroquiais, quando não rasteiros.

Para evoluirmos do ponto em que estamos, seria necessário gestão centralmente planejada, com aberturas lógicas e controles punitivos.

Todos os órgãos governamentais de regulação, controle e apoio têm cheiro de mofo na gestão. Mesmo a Embrapa e outras instituições oficiais de pesquisa, sem recursos, são dirigidas a papeis burocráticos. Como, então, suas inovações poderão parear com os recursos e focos das multinacionais?

O papel exercido pelos políticos da chamada bancada ruralista, com raras exceções, quando não desonroso é burro. Não conseguem entender seus interesses de forma totalizante.

O rótulo pegou porque, durante décadas, mal se defenderam, quando não se aproveitaram, de episódios como adubo-papel, colheita de PROAGRO, jeitinho nas dívidas, financiamentos de veículos, e a aceleração irracional do desmatamento.

Com os limites de produtividade se aproximado do teto, o alto custo de expansão em novas áreas, a precária infraestrutura de transporte e armazenagem, nossa esperança de crescimento robusto fica em fazer os mais de 4 milhões de propriedades enquadradas na agricultura familiar chegarem às virtudes da agricultura empresarial.

Não será fácil.

A transmissão de tecnologia a esse segmento, quando chega, é feita por técnicos-papagaios, treinados e pagos (não receiem ser criativos nas fórmulas) pelas multinacionais para ensinarem o nome da marca de agrotóxico a ser usado depois que o anterior perdeu efetividade.

Divulgar alternativas, naturais, orgânicas e biológicas, complementares, não recebe acolhida no MAPA e remunera pouco.

O adubo será sempre o mesmo, podendo o agricultor pagar um pouco menos se comprar antecipado, quando o caixa das gigantes, geralmente, está negativo.

Nada disso, no curto prazo, afetará nossa perspectiva de celeiro do planeta. Já somos e ninguém tasca, na mesma medida em que o Cruzeiro será o campeão brasileiro. Faltam adversários.

Se nada mudar, nossa agricultura está condenada a repetir eternamente um “mais do mesmo”, e só não perderá seu protagonismo enquanto durarem seus recursos naturais.

 

 

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