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O mundo rural do ponto de vista científico

por Rui Daher publicado 24/10/2014 12h26, última modificação 24/10/2014 12h57
Não se deve ignorar o que a academia produz sobre a agropecuária, mas é preciso contrapor visões desprovidas de abordagens multifacetadas
Alina Souza/Palácio Piratini
Expo boi

A academia analisa o mundo rural de forma esparsa, voltada apenas para o objetivo curricular de cada pesquisador

Sei que Ibope, Datafolha, Facebook, não registrarão grande audiência à coluna de hoje. Perderei abundância leitora ao deixar de lado Dilma e Aécio, que mesmo depois das eleições continuarão nadando, braçada a braçada, nas raias de políticas nada olímpicas, antagônicas e similares ao mesmo tempo nos quatro estilos, que as folhas e telas cotidianas se esmeram em fazer isso possível.

A andança capital que trago hoje é alvissareira e não poderia ter saído de outro lugar.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), através de suas unidades de Estudos e Capacitação e de Informação Tecnológica, com a ajuda luxuosa de dois pandeiros, o Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o escritório brasileiro do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), conseguiram dar voz à comunidade científica brasileira sobre o Mundo Rural.

Foi lançado o livro “O Mundo Rural no Brasil do Século 21 – A formação de um novo padrão agrário e agrícola”.

Recrutados em diversas instituições científicas do País, 51 pesquisadores das áreas de agronomia, economia, ciências sociais, engenharia de alimentos, medicina veterinária, estatística e matemática, produziram um trabalho de quase 1.200 páginas que, se não se pretende definitivo, põe nos trilhos as bases para que interessados, produtores ou não, fujam das mesmices publicadas, resistam aos interesses negociais, e neguem certas ações de um Estado desarrumado.

Não se deve ignorar o que a academia produz sobre a agropecuária brasileira e suas interações com os demais setores da economia. O faz, porém, de forma esparsa, voltada para o objetivo curricular de cada pesquisador, e, quando tecnicamente conclusivas, desprovidas de abordagens multifacetadas.

Aí e no fato de terem conseguido a participação voluntária dos pesquisadores, estão os méritos de Antônio Márcio Buainain, Eliseu Alves, José Maria da Silveira e Zander Navarro, coordenadores do livro.

Suas riquezas analítica e histórica começam nos “prolegômenos”, com noções introdutórias do economista José Roberto Mendonça de Barros e do sociólogo José de Souza Martins, que amalgamam passado, presente e modernidade, em seus textos.

O estudo propõe discutir “sete teses sobre o mundo rural brasileiro em seu contexto contemporâneo”. Algo que me parece ter muito a ver com a levada da coluna, contrapondo agropecuária “vista assim do alto” e “aproximada com a lupa”.

Em interpretação livre, mas cuidadosa, enumero as sete teses expostas no trabalho, como publicado em artigo dos editores, na Revista de Política Agrícola (abril/maio/junho, 2013):

1 - Estamos em nova fase do desenvolvimento agrário;

2 - Inovar é o desafio;

3 - O perfil do produtor rural é bifronte;

4 - Por que nunca houve ou haverá reforma agrária no Brasil;

5 - O Estado tem novas tarefas;

6 - Êxodos vários são Irreversíveis;

7 - Continuar na via argentina trará um esvaziamento demográfico.

Sem pretensão maior, lembro-me de ter tangenciado vários desses temas nestas andanças capitais. Provavelmente, sem a profundidade devida, o que esse novo “Guia”, depois de esmiuçado, poderá permitir.

Ciclos de desenvolvimento, inovações tecnológicas temperadas com bosta de vacas e visco de minhocas, êxodo por abandono geracional, expansão e reducionismo fundiário por sucessão familiar, arranjos locais produtivos mal concebidos, entre outros, são assuntos que já fiz passar por aqui.

Além dos temas novos, sugeridos pelo trabalho, os mais interessantes voltarão, agora com lupa mais potente.

Não vejo a hora de poder multifacetar estas nossas andanças capitais, travestido com a dialética do profano Velho Faceta, personagem do pastoril pernambucano, que saía pelos pequenos povoados multicolorindo, multibrincando, multifacetando campesinos, caboclos e sertanejos, de olho em suas Bacurinhas rurais.

Xiiiiii! Esqueci que tem um cara que acha que eu cheiro orégano antes de escrever.