Você está aqui: Página Inicial / Economia / Muita calma nessa hora

Economia

Pressão inflacionária

Muita calma nessa hora

por Gabriel Bonis publicado 07/09/2011 14h15, última modificação 08/09/2011 14h36
Ex-secretário de Política Econômica diz que o aumento do IPCA e corte da Selic não prejudicam a meta, mas setor de serviços aquecido preocupa

Após o aumento de 0,37% no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de agosto, anunciado na terça-feira 6 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o acumulado da inflação nos oito primeiros meses do ano chegou a 4,42%, se aproximando da meta cheia de 4,5% para 2011 inteiro. Com isso, o acumulado nos últimos 12 meses é o maior desde junho de 2005, alcançando 7,23%.

“O índice ficará na meta, mas naturalmente acima do centro de 4,5%, podendo chegar a 6,5%”, diz o doutor em economia e consultor do Instituto de Estudos Para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), Júlio Sérgio Gomes de Almeida, em entrevista a CartaCapital.

Segundo o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, a alta do IPCA, puxada principalmente por alimentos como o açúcar cristal (3,90%), arroz (1,82%) e as carnes (1,84%), está relacionada à valorização das commodities, além do crescimento do setor de serviços, que registrou inflação acumulada nos últimos 12 meses de 8,92%, devido ao aumento da renda e o baixo desemprego. Contudo, Almeida aponta que o governo tem agido para manter a inflação sob controle. “O crescimento da economia foi moderado e o crédito também para evitar que a inflação de alimentos e serviços chegue às indústrias.”

Em relação ao recente corte do Copom (Conselho de Política Monetária) na taxa básica de juros da economia, de 12,5% para 12%, não há "contradição" na política de aperto inflacionário, diz o economista, uma vez que a relação entre a medida e um possível aumento do consumo poderá ser sentida apenas em "cinco ou seis meses".  "Isso significa dizer que se o BC reduziu a Selic é porque está vendo um quadro em 2012, com a inflação menor e a economia brasileira necessitando de um estímulo”.

Veja a íntegra da entrevista abaixo:

CartaCapital – O senhor acredita que o aumento do IPCA, puxado principalmente pelos alimentos, deve tirar o Brasil da meta inflacionária de 2011?

Júlio Sérgio Gomes de Almeida – A inflação ficará na meta, naturalmente acima do centro de 4,5%, mas podendo chegar a 6,5%. Os alimentos voltaram a pressionar o Índice de Preços e o Brasil é um grande produtor de commodities agrícolas e alimentares. Somos afetados por isso e pelos preços de produtos não comercializáveis, basicamente serviços que têm crescido demais. O preço dos alimentos está ligado à valorização das commodities, o que nos beneficia e ao mesmo influencia os preços internos. No caso dos serviços, há um crescimento grande nos rendimentos de pessoas que trabalham na área, um fator positivo. Porém, é um processo que durante um tempo acaba refletindo em inflação. Atualmente, há uma inflação simultânea de alimentos e serviços, prejudicando o IPCA de agosto. Contuso, o governo tem adotado as medidas certas para conter a inflação no Brasil, como moderar um pouco o crescimento. O ano passado a economia expandiu 7,5%, nitidamente acima da sua capacidade. Agora está moderada para 3,5%, o que cabe para segurar o aumento de preços. O governo também já conteve o crédito para evitar que a inflação de alimentos e serviços não chegue nas indústrias.

CC – Então se essa elevação do IPCA não assusta, ela deve ceder no próximo mês?

JSGA – A expectativa é que possa haver certa elevação, ficando ainda perto da meta até o fim do ano. Devemos anualizar a inflação, ou seja, que no próximo mês tenhamos um índice anualizado dentro da meta cheia de 4,5%. Isso é importante ter como referência, pois atualmente a nossa inflação anualizada é alta porque foi muito forte nos meses iniciais de 2011. Se conseguirmos ter daqui para frente uma taxa perto da meta de 4,5%, e acredito nisso, estaremos em um caminho correto.

CC – Muitos analistas criticaram a decisão do Banco Central em cortar a Selic de 12,5% para 12%, porque a economia brasileira ainda estaria aquecida. Por essa análise, e se o BC quisesse manter a inflação sob controle deveria ter mantido a taxa de juros. O senhor acha que a medida adotada vai municiar esses críticos?

JSGA – A redução ou variação da taxa de juros tem efeito somente após cinco ou seis meses. Isso significa dizer que se o BC reduziu a Selic é porque está vendo um quadro futuro, no início de primeiro trimestre de 2012, com a inflação menor e a economia brasileira necessitando de um estímulo. Nesse caso, não há contradição. Por causa do prazo entre uma ação do órgão e o seu efeito, o BC fica condenado a fazer antecipações. Logo, certamente achou que a economia brasileira pode estar desacelerando demais e o crescimento em breve estará em uma faixa muito baixa. Ou pode avaliar que o quadro internacional vai se agravar, com sofrimento maior do País.

CC – O senhor mencionou que o BC pode estar focando em um futuro não tão estável. Como enxerga a economia brasileira e mundial até o início de 2012?

JSGA – É um tema controverso, mas relevante. Não acredito que o BC tenha tomado a decisão do corte de juros pressionado. Creio que o BC teve razão para adotar essa medida, pois a desaceleração da economia brasileira talvez esteja marchando para um nível bem maior ao que se imaginava no começo desse processo [alta da Selic]. No terceiro trimestre de 2011, a economia nacional estacionou ou cresceu muito pouco e isso é uma tendência para o quarto trimestre. Do ponto de vista interno e externo a economia está desacelerando muito, como os EUA e a Europa. O quadro internacional, ainda que não se leve em conta um cenário mais pessimista com novas quebras de bancos e interrupção de crédito como em 2008, é de desaceleração tendendo à recessão. Isso significa dizer que o BC tinha razões para fazer isso, naturalmente poderia ponderar outros fatores, mas deve ter tido informações de que o quadro mais pessimista é o que se desenha. O BC reduziu a taxa de juros com base técnica solida, mas há um grau de antecipação e aposta como qualquer outra decisão. O debate é correto, mas não cabe pré-julgar, porque vamos saber se a ação foi errada ou não apenas em quatro ou cinco meses.