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O gargalo cambial

por Luiz Antonio Cintra — publicado 03/08/2010 17h37, última modificação 06/06/2015 18h17
À medida que o Brasil acelera, os limites impostos pelo real valorizado aparecem: as importações explodem e o déficit externo vai a 23 bilhões de dólares
O gargalo cambial

O ex-presidente do BC Henrique Meirelles, cotado para ser o 'José Alencar' de Fernando Haddad. Foto: Beto Barata/AE

À medida que o Brasil acelera, os limites impostos pelo real valorizado aparecem: o déficit externo vai a 23 bilhões de dólares
Não é de hoje que o real está valorizado. E não foram poucos os economistas a alertar, ao menos desde meados do ano passado, para a esperada trajetória de deterioração das contas externas em decorrência dessa valorização. Os efeitos são cada vez mais evidentes, a começar pelo crescimento acelerado do déficit externo, resultado final de todas as transações comerciais e financeiras do País com o restante do mundo. O déficit acumulado nos primeiros seis meses do ano bateu 23 bilhões de dólares, deixando entrever a necessidade crescente da economia brasileira de “importar” capitais para fechar as suas contas. Apenas no mês de junho o rombo acumulado foi de 5,8 bilhões de dólares, o maior da série histórica do Banco Central, iniciada em 1947. Até o fim do ano, estima o Banco Central, o saldo negativo poderá somar 50 bilhões ou 2,5% do PIB.
O resultado negativo reflete principalmente o crescimento exponencial das importações, puxado pelo aquecimento do mercado doméstico e os investimentos industriais. Mas a diferença também resulta das remessas de lucros e dividendos das multinacionais para suas matrizes, os investimentos bilionários da Petrobras para o início da exploração do pré-sal e os gastos crescentes dos brasileiros em viagens internacionais.
Em paralelo, os exportadores adiam a entrada dos lucros em dólares auferidos no exterior, à espera de maior rentabilidade na hora da conversão em reais. Em todos os casos mencionados – exceção para as despesas com o petróleo –, o dólar barato funciona como uma espécie de amplificador de tendência. Assim como a alta dos juros promovida desde abril pelo Banco Central de Henrique Meirelles, que trata de atrair mais investimento estrangeiro e tem o efeito de valorizar ainda mais a moeda brasileira.

De posse de seus cartões internacionais, os turistas brasileiros que entopem o aeroporto de Cumbica, na região metropolitana de São Paulo, são prova ruidosa desse movimento, decorrente em boa medida da maior renda disponível e da queda do preço dos pacotes por conta da crise na Europa e nos EUA. De janeiro a junho, os gastos turísticos no exterior somaram 7 bilhões de dólares, recorde histórico e 60% acima das despesas registradas no mesmo período de 2009.
Somente no mês de junho o número de brasileiros em visita à Argentina, por exemplo, cresceu 50% em relação ao ano passado. A expectativa é o total chegar a 1 milhão de turistas até dezembro, 300 mil a mais do que em 2009. No sentido contrário, há crescimento dos gastos de turistas estrangeiros no País, bem mais modesto, de 14% no período. Mantida a tendência, o déficit no turismo continuará a crescer.
Pressionadas pelas matrizes, cujas receitas estão em queda

nos países desenvolvidos, muitas multinacionais em atividade no País contribuíram para esse resultado. Aproveitam o dólar barato para transferir o máximo possível de lucro, num total de 14 bilhões no primeiro semestre, o maior volume de remessas da série histórica do BC. Do total, 3,6 bilhões foram enviados apenas em junho. A lista de setores à frente em volume de recursos remetidos começa pela indústria automobilística, que sozinha enviou quase 1 bilhão de dólares, mas também inclui os serviços.
Os especialistas estimam que essa pressão de saída continuará, diante da perspectiva de crescimento medíocre, senão negativo, das economias europeias e dos EUA. E do crescimento substancialmente mais robusto da brasileira, próximo somente da expansão dos países asiáticos, em geral, e pouco abaixo do ritmo chinês. Não se espera uma mudança radical nessa frente e ainda há a chance nada desprezível de uma recaída na Zona do Euro, agravando a necessidade de caixa das transnacionais.
Outro item das contas externas, aquele relativo aos investimentos diretos, tem relação com a conjuntura ruim no exterior, e seu desempenho surpreendeu negativamente em junho. A entrada líquida de recursos (descontadas as saídas) foi de apenas 708 milhões de dólares, principalmente por causa dos empréstimos feitos pelas subsidiárias às matrizes. Em maio, o resultado positivo neste segmento fora de 3,5 bilhões.
Os economistas do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), centro de acompanhamento da conjuntura econômica, levantam uma hipótese para explicar o movimento: “O quadro de dificuldades para a recuperação dos países desenvolvidos, agravado pela situação europeia, pode ter induzido as matrizes a absorver recursos das filiais mediante dois canais, a remessa de lucros e dividendos e o pagamento de empréstimos. Elas teriam a finalidade de cobrir os prejuízos correntes nas operações nos países de origem ou de constituir um colchão de segurança para enfrentar situações futuras mais adversas”. O próprio informe do Iedi considera, no entanto, que será preciso aguardar alguns meses para confirmar essa possibilidade.
A balança comercial, que acompanha as exportações e importações, já viveu dias mais tranquilos.

Além do dólar barato, que encarece os produtos brasileiros no mercado internacional, os exportadores são forçados a encarar um mercado disputado, com os asiáticos e suas moedas desvalorizadas abocanhando parcelas expressivas dos brasileiros, particularmente nos segmentos industriais. Não fosse a recuperação do preço das principais commodities, puxada pelo apetite da China e da Índia, a situação seria ainda pior. Com os preços em recuperação, espera-se que o total de exportações superem as importações em 12 bilhões a 15 bilhões de dólares, graças, principalmente, ao minério de ferro e soja.

O resultado acumulado no primeiro semestre sugere uma ligeira recuperação em relação a 2009, quando o comércio internacional convivia com uma queda de 25% em relação ao período anterior à crise detonada pela quebra do Lehman Brothers, em 2008. No acumulado nos primeiros seis meses do ano, o saldo comercial ficou em 2,6 bilhões de dólares, o menor registrado no período nos últimos oito anos.
Em entrevista a CartaCapital, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, enumera alguns argumentos para se contrapor à impressão de que o setor externo virou um problemão para o País. “O resultado do primeiro semestre não surpreendeu, ao contrário, era o que indicavam todas as projeções. E foi influenciado principalmente por causa do sucesso Brasil, que se recuperou antes dos demais. As exportações estão se recuperando, cresceram 25% em relação a 2009. O problema é que as importações crescem a um ritmo de 45% porque a economia está aquecida.”
Mantega chama a atenção para os gastos da Petrobras com o aluguel de grandes equipamentos de exploração petrolífera, cujas despesas somaram 6 bilhões de dólares no primeiro semestre. Mais uma vez, argumenta o ministro, sinal da pujança da economia brasileira.
Nos últimos meses, Mantega deixou entrever em mais de uma ocasião os desdobramentos possíveis do atual desequilíbrio das contas externas. “Eu cheguei a falar que com esse déficit espera-se que haja alguma reação do mercado de câmbio, que é flutuante. Mas estarmos nessa situação não é sinal de fraqueza, inclusive porque nunca estivemos tão sólidos do ponto de vista externo.”

Uma análise dos principais indicadores econômicos ajuda a enquadrar o problema em sua devida dimensão, para além da participação relativa do rombo externo em relação ao PIB, hoje em 2,13%. A série histórica indica que o buraco foi bem maior na virada da década de 90 para os anos 2000, quando chegou próximo de 5%. O ajuste no mercado de câmbio, a essa altura, foi violento, resultando na disparada da

cotação do dólar no mercado interno e em prejuízos bilionários para quem devia em moe-da norte-americana. Em outras palavras, o País quebrou e teve de purgar os efeitos da crise financeira por alguns anos.

“Se olharmos o conjunto das contas externas, veremos que o déficit de 2,13% não é grande. Em períodos recentes, tivemos déficits bem maiores, com a diferença de que a nossa dívida externa é hoje uma das menores da série histórica, algo como 13% do PIB. Em 1999, a dívida externa era de 40%. Além disso, temos 255 bilhões de dóla

res em reservas, mais do que o total da dívida em dólar, de 225 bilhões. Então a nossa situação é a mais confortável possível, o que explica o fato de termos captado 750 milhões de dólares na terça (dia 27) a uma taxa de 4,5% ao ano, a menor da história”.
Na linguagem do mercado financeiro, esses números indicam que o governo tem hoje condições melhores para se contrapor aos especuladores de plantão, sempre de olho nesses desequilíbrios em busca de lucros especulativos. Diante da deterioração das contas externas, os investidores se posicionaram nos mercados futuros de câmbio, apostando na desvalorização do dólar. A aposta até aqui tem dado prejuízo aos bancos, inclusive porque há a perspectiva de entrada de um caminhão de dólares em decorrência da abertura de capital da Petrobras. Marcado para ocorrer em julho, o negócio foi adiado para setembro. “Os investidores não estão se sentindo confortáveis e estão pedindo ajuda para sair dessas posições”, resume o ministro, que acenou com a possibilidade de o BC realizar operações no mercado futuro para reduzir a aposta contra o real.
Com ou sem prejuízo no mercado financeiro, é dado como certo por especialistas que é uma questão de tempo a mudança de patamar do real, sem o que as contas externas seguirão piorando. Por ora, o BC e a Fazenda tratam de armar um deslizamento suave da cotação, a despeito das intempéries.

Leia a entrevista exclusiva de Guido Mantega à CartaCapital, .