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Economia

Luis Nassif

O fim da confraria da Selic

por Redação Carta Capital — publicado 09/11/2011 09h25, última modificação 09/11/2011 09h31
A queda da Selic, além de interessar às políticas sociais e ao investimento público, também beneficia bancos comerciais e fundos de investimento em renda variável

Alguns anos atrás, Pérsio Arida inventou a “teoria da jabuticaba”. Por algum mistério insondável, sempre que a taxa de juros real (taxa Selic descontada a inflação) ficava abaixo de 8%, havia inflação.

Em um almoço, pedi que ele me explicasse o mecanismo na cabeça do remarcador de preços.

E ele: estamos em uma economia oligopolizada, o remarcador olha a taxa de juros, comparava com a expectativa de inflação e, se a diferença ficasse abaixo de 8%, remarcava preços.

Respondi-lhe que se me apontasse um só que atuasse assim, lançaria uma campanha sua para o Nobel de Economia. OU seja, não havia nem base teórica nem evidência empírica para o que dizia. No entanto, entrou para o senso comum do jornalismo financeiro.

Agora, Pérsio, Armínio Fraga e Gustavo Franco aceitam que os juros devem cair mais ainda, conforme afirmaram em reunião do PSDB.

O argumento do Pérsio é correto: com menos juros sobram mais recursos do Estado para investimentos.

Mas sua preocupação – assim como a de Armínio e Gustavo – é o de liberar recursos dos títulos públicos (e da renda fixa em geral) para as aplicações em ações, área que são o atual foco da sua atuação, como gestores de fundos.

Na mesma reunião – do PSDB – Pérsio apresentou a proposta de acabar com o que chama de crédito subsidiado do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico s Social). Mais uma vez, a ideia é liberar clientes para os fundos de investimento.

Duas lições a se tirar do episódio:

- Todas as propostas desse grupo de economistas visam atender aos seus interesses empresariais específicos.
- Mas seus interesses empresariais, agora, estão alinhados com os interesses do país, de aumento do investimento, de liberação dos recursos da confraria da Selic para os fundos de investimento em renda variável e dos recursos públicos para políticas sociais e investimento.

São curiosos esses movimentos econômico-políticos no país.

A queda da Selic, além de interessar às políticas sociais e ao investimento público, também beneficia bancos comerciais (que passam a captar mais barato) e fundos de investimento em renda variável (que não tem a concorrência da renda fixa, com juros elevados e liquidez absoluta).

Mesmo assim, a confraria da Selic conseguia se impor através do jugo do especialista – os departamentos econômicos de bancos e as consultorias – brandindo sofismas primários. Todo um país de joelhos ante um exército maltrapilho em raciocínio, mas rico em alianças.

Esse modelo começou a se enfraquecer, primeiro, graças ao trabalho de alguns economistas de primeira linha – como Sérgio Werlang, do Itaú, depois de Ilan Goldfajn – que passaram a apoiar as ações do Banco Central, de redução de juros e a defender ideias mais sofisticadas do que os chavões de Loyolla-Mailson.

Mesmo Armínio Fraga – talvez a maior liderança hoje, no mercado de capitais – inibiu-se ante os chavões que predominavam na aliança confraria da Selic-mídia financeira.

Agora, aparentemente acabou a era dos “juristas” – os defensores dos juros altos em qualquer circunstância. Pérsio esqueceu a “inflação de jabuticaba”, os grandes bancos enquadraram seus selicistas. E, depois da atoarda com a primeira redução da Selic, o mercado se curvou ao comando do Banco Central.

Espera-se agora que, com o vento a favor, o BC acelere a queda de juros.

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