Você está aqui: Página Inicial / Economia / O exemplo emergente

Economia

Davos

O exemplo emergente

por André Siqueira — publicado 01/02/2011 16h30, última modificação 02/02/2011 12h51
Os países ricos olham para o Hemisfério Sul em busca de soluções para seus próprios problemas. Por André Siqueira
O exemplo emergente

Os países ricos olham para o Hemisfério Sul em busca de soluções para seus próprios problemas. Por André Siqueira. Foto: Fabrice Cofrini/AFP

Os países ricos olham para o Hemisfério Sul em busca de soluções para seus próprios problemas

O desequilíbrio global conseguiu se impor, finalmente, na pauta das principais preo­cupações dos líderes políticos e corporativos reunidos no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. E nem é tão difícil entender a razão: o crescimento do PIB global é puxado, hoje, pelos países emergentes, em especial os chamados BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) enquanto os Estados Unidos e a União Europeia permanecem atormentados por déficits públicos que ameaçam os esforços de escapar a uma estagnação econômica prolongada.

Em outras palavras, as desigualdades regionais só ganharam status quando o nó passou a apertar mais do lado de cima do globo. Pouco mudou na essência do Fórum, que continua a ser um imenso palco para declarações vazias de boas intenções e trocas de cartões nos bastidores. A diferença é que, neste ano, os representantes de países como Brasil, China e Índia são os convidados de honra de banquetes que, também na área diplomática, nunca saem de graça.

A hospitalidade europeia deve-se, por exemplo, ao interesse em negociar meios de conter a escalada de preços das commodities, um fenômeno que levaria ao mundo inteiro a ameaça da inflação. O presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, tem cogitado elevar as taxas de juro na Zona do Euro, em que pesem os efeitos nefastos que o aperto monetário poderia ter sobre as combalidas economias dos países mais endividados da região.

A elevação dos preços agrícolas e da energia não afeta apenas o mundo desenvolvido, e é associada por muitos às graves crises sociais em curso em países como Tunísia e Egito, além de representar uma ameaça a outras regiões, como alertou, em Davos, o presidente da Indonésia, Susilo Yudhoyono. O conselheiro do Fundo Monetário Internacional, Zhu Min, destacou o fato de os alimentos representarem 75% do índice de inflação ao consumidor na Índia, o que torna o país especialmente vulnerável a quaisquer flutuações nos preços internacionais.

A questão é que o encarecimento das commodities não pode ser tratado como uma bolha, como destacam economistas brasileiros. “Não há um movimento especulativo dramático, nem gente tentando acumular estoques. É, sobretudo, o resultado de países emergentes crescendo e consumindo mais, somado a fatores climáticos em países produtores, como a Austrália e a Argentina”, ressalta o professor da USP Simão David Silber.

Ao Brasil, pouco interessa discutir limitações aos preços dos principais produtos de sua pauta de exportação. Não por acaso, a presidenta Dilma Rousseff frustrou expectativas ao se fazer representar em Davos por uma equipe eminentemente técnica, encabeçada pelo ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, ao lado dos presidentes do Banco Central, Alexandre Tombini, e do BNDES, Luciano Coutinho. Antes de chegar à Suíça, o chanceler esteve em Bruxelas, onde foi recebido por altas autoridades da União Europeia, interessadas em negociar um acordo comercial com o Mercosul.

A valorização dos produtos agrícolas e minerais, cara aos europeus, representa para o Brasil não apenas uma fonte de pressões inflacionárias. Foi também a principal razão de o saldo comercial ter se mantido no terreno positivo em 2010, conforme mostra o resultado do balanço de pagamentos, divulgado na terça-feira 25. Uma análise do Itaú Unibanco mostra que o volume médio das exportações subiu 9,5%, enquanto o volume importado disparou 37,8% – mesmo assim, o superávit do comércio exterior foi de 20,3 bilhões de dólares, ante 25,3 bilhões de dólares em 2009. Essa cifra contribuiu para manter financiável o déficit nas contas externas brasileiras, que atingiu 47,5 bilhões de dólares, ou 2,4% do PIB no ano passado.

“Mantidos os termos de troca médios de 2009, o saldo comercial seria deficitário em 8,4 bilhões de dólares e o déficit em transações correntes atingiria 3,7% do PIB. O Brasil está com sorte”, conclui o relatório do banco.

A boa maré também trouxe aos trópicos uma corrente de dinheiro sem precedentes. Só no Brasil aportaram 122 bilhões de dólares no ano passado, dos quais 48,5 bilhões de dólares em investimento direto estrangeiro. Ou seja, o ingresso de recursos voltados a atividades produtivas mais do que bastou para cobrir o déficit externo. “O capital especulativo deixou de ser um grande item na conta brasileira, sobretudo nos últimos meses, após as elevações de alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF)”, avalia Silber. A medida foi adotada em outubro de 2010, numa tentativa de conter a valorização do real.

Muito atraente para os investidores estrangeiros – seja pela elevadíssima remuneração oferecida pelos títulos públicos ou pela economia doméstica aquecida –, o Brasil ainda não conseguiu reverter a trajetória do câmbio e, segundo o economista da USP, nem conseguirá. “O que devemos fazer é baixar custos internos, de modo a permitir que o setor produtivo se mantenha competitivo, e buscar um ajuste fiscal que permita reduzir os juros”, recomenda.

O Instituto de Finanças Internacionais (IIF, em inglês) divulgou, na terça-feira 24, a previsão de que o fluxo de investimentos nos países emergentes vai alcançar 1 trilhão de dólares em 2011. A entidade, que representa os maiores bancos do mundo, teme que os governos imponham restrições à entrada do capital para proteger as moedas locais de uma valorização excessiva, que tende a prejudicar as exportações.

Ao barrar o capital especulativo, o chamado hot money, os países restringem consideravelmente as possibilidades de ganhos das instituições financeiras globais. Somente sob essa perspectiva é possível entender o conselho endereçado pelo vice-diretor de análise macroeconômica global do IIF, Jeremy Lawson, aos países emergentes: “Os controles não são a melhor resposta para os fortes fluxos de capitais quando, como parece ser o caso agora, as taxas reais de câmbio estão subvalorizadas, a política monetária afrouxada está superaquecendo a economia e há espaço para uma política fiscal mais apertada”.

A análise passa longe da atual situação brasileira, sob qualquer aspecto, mas não impediu a entidade de ir além e, às vésperas de Davos, criticar o País pela adoção de medidas como o aumento do IOF.

O economista Ernesto Lozada, da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), defende a adoção de medidas para domar o fluxo de capital não só no Brasil, mas em todo o mundo emergente. “Quase 13 trilhões de dólares foram liberados pelos países desenvolvidos, entre 2008 e 2009, para socorrer empresas e bancos e evitar uma grande recessão mundial em decorrência da crise financeira”, lembra o professor. “Se o excesso de liquidez não for submetido a controles, o resultado será a formação de bolhas inflacionárias e guerras cambiais, e todo o mundo perde com isso.”

Enquanto a União Europeia mantém o esforço para absorver os resultados dos ajustes de contas nos países mais endividados, como a Grécia, Portugal e Espanha, os EUA não dão sinais de que vão retroceder na estratégia de estimular a economia por meio das taxas de juro em níveis mínimos e generosos estímulos fiscais. Em novembro de 2010, o Fed (banco central americano) anunciou uma operação de recompra de títulos da dívida pública que colocaria no mercado 600 bilhões de dólares. Um dinheiro que, ao transbordar para o restante do mundo, contribui para a perda de valor do dólar e as pressões sobre os preços das matérias-primas e alimentos.

No discurso anual no Congresso,­ feito­ na terça-feira 25, o presidente americano Barack Obama procurou mostrar disposição para cortar gastos e anunciou um congelamento dos gastos governamentais pelos próximos cinco anos. Ao mesmo tempo, se referiu a um ambicioso programa de obras de infraestrutura e outros projetos de incentivo à retomada da atividade econômica. “Foi um discurso dúbio”, avalia Lozada. “Enquanto esperam mais clareza nas posições americanas, todos os países continuam a comprar dólares, até mesmo o Banco Central Europeu.”

O economista Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York, participou do primeiro dia de debates em Davos, na quarta-feira 26, e ajudou a puxar as críticas à frouxidão do mundo desenvolvido, em especial os EUA, ao lidar com os déficits públicos. Conhecido pelo pessimismo, o analista disse identificar um movimento de retomada do crescimento mundial, liderado pelos países emergentes, mas não descartou o risco de um novo mergulho da economia europeia.

Segundo um relatório do FMI, a economia mundial deverá crescer 4,5% em 2011, acima das últimas previsões. Os emergentes serão responsáveis por dois terços dessa expansão. Os EUA, segundo o fundo, devem crescer 3%, apesar da dificuldade em fazer voltar a andar o mercado imobiliário. Na Zona do Euro, a grande dificuldade é evitar que a crise da dívida destrua o sistema bancário da região, responsável por financiar a gastança desenfreada de governos hoje à beira da inadimplência.

Como de costume, os temas mais promovidos pelos governantes presentes a Davos são os que exigem esforços alheios, e não próprios. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, pouco avançou na redução dos subsídios à agricultura doméstica, mas foi insistente na questão da regulação do mercado de commodities. Na quinta-feira 27, afirmou que o objetivo não é impedir que os países produtores se beneficiem da alta de preços, mas evitar que sofram as consequências caso as cotações voltem a cair. “Precisamos de regulação porque isso significa transparência”, afirmou.

Até o fim do Fórum Econômico Mundial, no domingo 30, os representantes do Brasil nos painéis terão muito a mostrar, mas pouco a oferecer. É provável que cause espanto aos europeus, imersos no dilema de cortar gastos sociais e remover direitos trabalhistas enquanto veem a economia patinar, testemunhar que abaixo da linha do Equador foi possível conciliar, nos últimos anos, distribuição de renda e redução da pobreza com um crescimento em bases sustentáveis. Não há, portanto, motivo algum para ceder ao canto da sereia e seguir a cartilha de quem ainda não colocou ordem na própria casa.