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Economia

Entrevista - Andrew Mearman

O ensino de Economia de costas para a realidade

por Samantha Maia — publicado 31/12/2014 08h01
O professor britânico Andrew John Mearman critica o estreitamento do escopo dos cursos e a ênfase excessiva da matemática descolada da realidade
Lisa Klumpp
Andre John Mearman

Mearman lembra que um dos desafios da Economia é lidar com problemas reais e complexos, como por exemplo o risco de colapso ambiental

A crise financeira mundial evidenciou a fragilidade do ensino de Economia e estimulou discussões sobre uma reforma curricular. Um dos defensores de mudanças substanciais, Andrew John Mearman, da Bristol Business School da Universidade West of England e integrante do grupo de reforma curricular coordenado por Robert Skidelsky, esteve no Brasil na quinta-feira 4 para participar do IV Encontro de Economistas do Sudeste, em Belo Horizonte. A seguir, ele fala dos desafios para se formar pensadores autônomos em vez de técnicos do mercado.

CartaCapital: É importante repensar a grade curricular dos cursos de Economia?
Andrew John Mearman: Um dos principais problemas com os currículos da graduação e da pós-graduação é a desconsideração dos objetivos educacionais. A questão mais importante para um educador é “onde quero chegar?” Um programa universitário também precisa se fazer essa pergunta. A resposta pode levar a uma abertura da mente das pessoas, levando-as a pensar com independência ou a aprender um conjunto específico de conceitos ou ferramentas. Para mim parece que muitos currículos não pensam claramente sobre essas questões. Em vez disso, eu acho que nós devemos partir dessas questões. Se você acredita que educação diz respeito à formação de pensadores autônomos, elaborará currículos bem diferentes daqueles que faria se achasse que ela é um programa de treinamento. Os cursos não deveriam servir para treinar indivíduos. Empresas e governos podem treinar seus empregados, universidades devem formar os alunos. Na pós-graduação, os argumentos a favor de programas de treinamento são mais fortes, pois os estudantes escolheram claramente seguir em determinada direção. Então, se você quiser trabalhar como economista, você precisa dominar as habilidades de um economista.

CC: Quais são essas habilidades?
AJM: Alguns programas interpretam as habilidades do economista como a capacidade de elaborar matemática de alto nível e reproduzir os pontos centrais de uma determinada linha de pensamento. Para mim, nem sempre isso é apropriado, particularmente para os economistas que trabalham na indústria ou no governo. Ali, a economia tem muito mais a ver com a solução de complexos problemas concretos, que exigem um conhecimento econômico combinado com flexibilidade de pensamento, insights de outras disciplinas, consciência da realidade comercial ou política etc. Eles também exigem boa capacidade de comunicação e outras habilidades. Sabemos que os graduados em economia se saem mal nesses critérios. Muitos dos formados são muito bons nas técnicas econômicas, mas não muito empregáveis. Considero necessário repensar os alicerces centrais do currículo. Além disso, o currículo está desatualizado e carece de elementos cruciais.

CC: Quais elementos?
AJM: Fica mais óbvio quando pensamos em como os economistas lidaram com a crise de 2007 e a nova situação. Muitos currículos simplesmente ignoravam finanças, dívida, desigualdade, isto é, a maior parte dos principais motores da crise. Defendo há muito tempo um maior pluralismo no currículo de Economia, e ainda há um trabalho considerável a ser feito na teoria e no método. Um número grande demais de currículos está concentrado em fazer com que os estudantes aprendam um “cerne” de teorias mais aceitas, e particularmente em treiná-los nas técnicas matemáticas. Em parte, trata-se de reproduzir a economia mainstream e produzir a próxima geração de PhDs. Mas a maioria dos alunos na graduação, e até estudantes de mestrado, não está interessada em fazer um doutorado em Economia. Além disso, os programas de doutorado em Economia costumam recrutar seus alunos na Matemática e na Física. Organizar um currículo de economia baseado nas necessidades dos programas de doutorado me parece uma bobagem.

CC: Qual é a dificuldade de colocar essa mudança do currículo em prática?
AJM: Há um bocado de inércia no ensino de economia. É muito mais fácil ensinar o que já ensina há algum tempo. Se todo o seu treinamento segue uma determinada abordagem, você fica bastante relutante em abandoná-la. Eu fui a uma sessão na conferência de 2009 da Allied Social Science Association (São Francisco, EUA) sobre ensino de excelência. Um membro da audiência perguntou se, dada a crise, nós deveríamos ensinar mais Marx, Veblen ou Keynes. A resposta foi chocantemente arrogante: “Eu não acho que nós devemos permitir que um evento único em 75 anos mude o que ensinamos”. Isso me parece ser um problema.

CC: Quais são as consequências dessa formação para a sociedade?
AJM: O prejuízo advém de os economistas serem formados com base em uma técnica, um conjunto pequeno de conceitos vinculados a uma gama teórica reduzida, o que os leva a ignorar questões cruciais em uma sociedade e de serem incapazes de discuti-las. Um bom exemplo é a macroeconomia. O principal texto do novo consenso macroeconômico é o de Michael Woodfort e nas edições iniciais do livro não havia praticamente nenhuma menção a bancos ou finanças. Se você acreditar que a crise foi causada principalmente pelas atividades dos bancos, do sistema financeiro paralelo e da financeirização da vida, então as omissões do livro são bastante sérias. Outros acham que a desigualdade é uma grande causa das crises econômicas. Mas a maioria dos livros didáticos minimiza a desigualdade ao explicá-la em termos de produtividade marginal e retorno sobre o investimento em capital humano. Não veem assim a desigualdade como uma grande questão. Um dos maiores desafios é um possível colapso ecológico e há muita literatura sobre economia ambiental, mas a maior parte dela é muito estreita, o que dificulta para nós lidarmos com um problema tão sério.

CC: Qual é a conexão entre a crise financeira e a reforma do currículo da Economia?
AJM: O currículo não estava equipado para lidar com a crise financeira, seja para prevê-la ou explicá-la a posteriori. Houve negligência quanto a trabalhos relevantes de economistas como Hyman Minsky e uma superdependência dos modelos de escolha racional e de teorias como a hipótese da eficiência do mercado, que eu vejo como profundamente falha. Foi engraçado, mas também alarmante, ver Eugene Fama receber o Nobel de Economia no exato momento em que as teorias associadas a ele pareciam tão pouco sustentadas pela realidade. Isso remete à inércia da disciplina e a um estado de negação. É verdade que houve trabalhos de finança comportamental que parecem levar a sério a ideia de que as pessoas não se encaixam nos modelos de escolha racional, e que nós precisamos pensar de outra forma sobre pessoas e mercados. Nós veremos aonde isso nos leva. Mas ainda há uma subteorização na economia mainstream sobre a estrutura do sistema bancário, do papel das instituições financeiras não bancárias, as reservas de capital empresarial (cash pool) e etc. Essas coisas têm sido trabalhadas fora do mainstream econômico e, de fato, fora da Economia.

CC: Há algum caso de sucesso de mudança curricular na pós-graduação em Economia no mundo?
AJM: Minha própria formação na pós-graduação foi na Universidade de Leeds, e eu diria tratar-se de um exemplo de alternativa bem sucedida ao padrão. Tínhamos aula com Malcolm Sawyer, Paul Dunne, Francis Green e Man-Soep Park, entre outros. Estudamos o material convencional, mas em conjunto ou em comparação com as alternativas, principalmente a literatura pós-keynesiana e marxista. Também podíamos estudar módulos sobre economia industrial, economia do trabalho e assim por diante, novamente a partir de diferentes perspectivas. O sucesso desse programa pode ser visto no número de alunos que trabalham em universidades britânicas no ensino de economia, muitos em Leeds mesmo. Outros bons exemplos são a University of Missouri-Kansas City, com uma equipe integrada por Randall Wray, Stephanie Kelton, Matthew Forstater e o falecido Fred Lee, para ensinar um programa pós pluralista e interdisciplinar, e a Universidade de Notre Dame, nos EUA, mas este programa foi atacado. Nós devemos lembrar que bons exemplos como esses são o resultado de uma combinação pouco usual de fatores, em geral temporários, e em geral muito frágeis.

CC: Como o senhor avalia o ensino de Economia no Brasil e na América Latina?
AJM: Eu devo confessar que sei pouco sobre a região. Espero poder aprender mais na minha viagem. Há uma forte tradição na Economia brasileira, boa parte dela crítica da visão dominante, e eu espero que isso signifique que o ensino de Economia brasileiro reflita essa abordagem. Sabemos, porém, que, como em toda parte, o Brasil é vulnerável às forças do que alguns chamam de “neoliberalismo”, que podem levar os currículos a serem mais limitados e focados em treinamento. A economia é uma disciplina ferozmente disputada, por causa do modo como as teorias são usadas nos debates políticos, então ela sempre será um campo de batalha.

CC: Qual é a importância da história na formação dos economistas?
AJM: Uma das consequências da crise é um reconhecimento muito maior de que a história deve ter um papel mais amplo no currículo de Economia. Acho que é uma mudança realmente positiva. Costuma-se dizer que uma das coisas que tornaram o Ben Bernanke um presidente eficiente do Federal Reserve dos EUA durante a crise foi seu estudo sobre a Grande Depressão dos anos 1930. Ele tirou lições dela. Claramente, nós precisamos ter cautela em tirar lições da história: a história é contada a partir de uma perspectiva, e é claro que o mundo muda. Mas analogias cuidadosamente traçadas são guias cruciais para a ação. Creio também ser importante reviver a história do pensamento econômico. As obras de Keynes, Marx, Veblen e Minsky foram claramente úteis para compreender os eventos recentes. Esses pensadores precisam ser mantidos vivos nas pesquisas e na cabeça dos estudantes. Não é suficiente conhecer o nome de Adam Smith. Certamente não é suficiente acreditar que Smith era um crente na virtude absoluta do livre mercado! Para alguns estudantes, contudo, essa é a extensão de sua história do pensamento. E esse é o perigo de toda história: ela pode ser usada para justificar o presente. Isso é algo com o qual temos de nos precaver. Outra chave é ligar a história econômica, e a história em geral, à história do pensamento. Isso é algo que eu faço em minhas próprias aulas. Por que Smith escrevia sobre o que escreveu? Porque ele observava mudanças na sociedade. Por que as ideias de Keynes se tornaram tão populares? Ele escrevia sobre formas de curar um enorme problema de desemprego em massa.

CC: Há alguma disciplina considerada supérflua?
AJM: Sempre que se propõe agregar coisas ao currículo, a questão retorna: “então, o que vamos excluir?” É uma boa técnica defensiva para preservar o status quo e não mudar nada. Nós temos um tempo limitado, e há espaço para mais sendo criado por uma mudança de ênfase. Eu não sou um grande fã da matemática na Economia – ela pode distorcer as questões que os economistas colocam e estreitar o foco da análise econômica – mas o problema da Economia não é a matemática em si. Pode ser que o tipo de matemática seja inadequado para analisar sistemas complexos. Mais do que isso, porém, o problema da matemática é a enorme ênfase dada a ela pela disciplina. Eu abriria espaço para outras matérias ao reduzir o conteúdo de matemática, e não creio que isso tornará a Economia menos científica, como alguns argumentam. A Economia se tornaria mais científica, capaz de explicar e resolver melhor problemas no mundo real. Qualquer que seja o volume de matemática, ela deveria ser ensinada de um jeito diferente. Precisa estar entranhada na Economia e não ensinada por si só. Seria mais atraente para a maioria dos alunos, e provavelmente mais útil.

CC: Qual é o peso que a economia do setor público deveria ter no currículo de pós-graduação em Economia?
AJM: Particularmente para os economistas que pensam em buscar empregos governamentais, um curso de economia do setor público seria valioso. Ele poderia ser uma combinação de discussões sobre a economia pública e das ferramentas e quadros de referência que os economistas normalmente empregam. Por exemplo, o curso incluiria um tratamento abrangente das técnicas de avaliação econômica. Há hoje uma ampla literatura sobre a economia do setor público, de um leque de diferentes áreas. Boa parte dela simplesmente aplica a análise padrão do sistema de bem-estar ao funcionamento do setor público. Para muitas pessoas, é a isso que agora se refere a expressão “economia política”. Eu não compartilho essa visão, a acho muito estreita e distorcida, mas ela é comum. Um curso interessante sobre a economia do setor público questionaria a suposição de que a provisão do setor privado é inerentemente superior àquela do público. Os argumentos que defendem essa posição são bastante fracos e sem base empírica. Havia um bocado de literatura nos anos 1980 e 1990 sobre a questão da propriedade, mas ela parece ter sumido, como se o debate tivesse sido resolvido. Um enfoque ainda mais interessante sobre a economia do setor público seria examinar a economia política real de como o setor público é influenciado pelas atividades do setor privado, lobistas etc. Isso não significa concordar com o argumento de que hoje há uma total captura regulatória, mas seria algo bom de examinar. Também há uma ampla literatura sobre economia da regulação. Novamente, ela pode minguar por causa da suposição de que a regulação é problemática. Para mim, todas essas são questões em aberto.