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O dia da caça

por André Siqueira — publicado 22/11/2010 10h32, última modificação 26/11/2010 17h55
Tidos como alvo fácil dos estrangeiros nos anos 90, os bancos nacionais ganham corpo, expandem as operações no exterior e avançam em novos mercados. Por André Siqueira
O dia da caça

Tidos como alvo fácil dos estrangeiros nos anos 90, os bancos nacionais ganham corpo, expandem as operações no exterior e avançam em novos mercados. Por André Siqueira.

Tidos como alvo fácil dos estrangeiros nos anos 90, os bancos nacionais ganham corpo, expandem as operações no exterior e avançam em novos mercados

Até o fim de 2010, o banco do brasil deve anunciar dois passos importantes fora do país. Um deles em direção aos estados unidos, onde está em fase de conclusão a compra de um banco em new jersey. E outro rumo à áfrica, onde o banco estatal  assumirá, em parceria com o bradesco, uma participação nas operações do português banco do espírito santo no continente. A investida ocorre simultaneamente a uma acirrada disputa pelo aquecido mercado brasileiro de crédito.

Longe de representar um contrassenso ou perda de foco, a movimentação reflete uma oportunidade, percebida pelo setor, de reinvestir os ganhos obtidos no Brasil. Com o caixa reforçado pelos bons resultados locais, os bancos estão de olho em todas as possibilidades de investimento capazes de aumentar o retorno sobre o patrimônio. A aquisição de operações no exterior certamente é uma delas, segundo especialistas.

Um exemplo é a possibilidade, que permanece latente desde o ano passado, de o Itaú Unibanco adquirir uma das maiores instituições mexicanas, o Banamex, hoje nas mãos do americano Citibank. A operação – que o banco brasileiro nunca confirmou estar em andamento, mas tampouco negou seu interesse – seria de longe a maior investida de um banco nacional em outro mercado.

Outro possível candidato a expandir operações no México é o Bradesco. Em janeiro, o banco anunciou a compra da operação do banco Ibi naquele país. A aquisição veio na esteira da compra da instituição no Brasil, e, por enquanto, se limita às operações de crédito private label da rede de lojas C&A. Executivos brasileiros, entretanto, foram enviados até lá pelo Bradesco, e avaliam as possibilidades locais.

“A compra do Banamex seria um bom negócio para qualquer um dos grandes bancos brasileiros. O México é um país relativamente próximo, de língua espanhola, populoso e com uma classe média crescente”, avalia o presidente da EFC Engenheiros Financeiros e Consultores, Carlos Daniel Coradi. A única ressalva, segundo o executivo, é a necessidade de se preparar gradualmente para tais investidas. “O Itaú é o banco que mais aprendeu a atuar no varejo fora de casa.”

O Itaú mantém uma rede de 81 agências e 1,5 mil funcionários na Argentina, onde oferece, inclusive, empréstimo pessoal e cartão de crédito. No Chile, são 2 mil empregados em 79 unidades. No Uruguai, é dono da maior empresa de cartão de crédito do país, a OCA, com 360 mil clientes. A operação paraguaia é a mais recente, iniciada em julho deste ano, com 19 agências. Nos EUA, na Europa e na Ásia, o banco se concentra no atendimento a grandes empresas e clientes – o chamado private banking. Uma exceção é a agência no Japão, especializada em facilitar as remessas de recursos dos brasileiros que trabalham por lá, os dekasseguis.

Embora atue no exterior desde 1941, o Banco do Brasil deu novo impulso às operações internacionais a partir da crise financeira global. Num primeiro momento, chamou a atenção do banco o volume de capital recebido após a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008. Diante da ameaça de quebradeira generalizada no setor bancário americano, as empresas brasileiras com investimentos nas grandes instituições financeiras internacionais decidiram bater à porta do BB.

“À época (do estouro da crise), a captação de recursos de empresas na agência de Nova York aumentou de 400 milhões para 4 bilhões de dólares. E esse dinheiro permaneceu conosco”, conta o diretor-executivo da área internacional e de comércio exterior do banco estatal, Admilson Monteiro Garcia.

Se lá fora o clima era favorável ao banco, internamente o anúncio da fusão do Itaú com o Unibanco criou um concorrente direto ao posto de maior instituição financeira nacional. “Percebemos que, para continuar a ser líder no Brasil, o BB teria de se tornar também, no mínimo, um líder regional”, diz o executivo. A reação foi rápida, graças à decisão do governo federal de liberar os bancos públicos para adquirir concorrentes.

Antes do fim de 2008, o BB havia arrematado a Nossa Caixa, o Banco do Estado do Piauí (BEP) e o Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Em janeiro de 2009, anunciou que pagaria 4,2 bilhões de reais por 49% do Banco Votorantim. Esgotadas as possibilidades domésticas, o BB passou a olhar além das fronteiras nacionais. “Percebemos que tínhamos 250 grandes clientes corporativos no Brasil que demandavam, na Argentina, o mesmo atendimento oferecido aqui”, afirma Garcia.

Em julho de 2009, o BB anunciou a aquisição do argentino Banco Patagônia, por cerca de 480 milhões de dólares. Da noite para o dia, a instituição estatal passou a contar com mais de 150 agências no país vizinho. “Conseguimos manter a clientela e atrair empresas que são nossas clientes no Brasil”, diz o diretor. Como resultado, as ações do Banco Patagônia valorizaram 20% desde a compra.

A estratégia no mercado americano é mais próxima da adotada no Japão, onde o BB tem sete agências, cada uma com cerca de 7 mil correntistas. “O máximo registrado até hoje foram 300 mil a 350 mil brasileiros residentes no Japão. Nos EUA, as estatísticas não falam em menos de 1 milhão de expatriados. Por que não repetir o modelo?”, argumenta o diretor do banco.

A primeira investida ocorreu entre o fim de 2009 e o início de 2010, com o auxílio de uma consultoria que identificou como mercados potenciais o estado da Flórida e, mais ao norte da Costa Leste, a área próxima a Nova York, New Jersey e Massachusetts. A compra não vingou, diante do atraso na obtenção do aval das sucursais regionais do Fed – o banco central americano. Para operar no varejo americano, instituições estrangeiras precisam receber antes o título de Financial Holding Company.

A CartaCapital Garcia adiantou que o novo alvo está sediado em New Jersey, tem poucas dezenas de agências e uma clientela de brasileiros, portugueses e latinos. Mais uma vez com base na experiência japonesa, onde 15% dos clientes são sul-americanos, em especial peruanos, o BB acredita que poderá manter e conquistar a clientela internacional, além de ampliar os serviços prestados a empresas brasileiras, inclusive as de pequeno e médio porte instaladas nos EUA.

A intenção do BB era anunciar, ao mesmo tempo, a aquisição de um segundo banco regional, desta vez na Flórida. A iniciativa foi “desaconselhada” pelas autoridades locais. “Tínhamos uma lista de três instituições, mas o Fed pediu para escolhermos uma delas e mostrar resultados consistentes antes de partir para outra compra.”

Diferentemente da estratégia adotada na Argentina, as agências compradas nos EUA receberão o nome Banco do Brasil. No caso do Patagônia, o banco estuda apenas uma mudança de logotipo, com as cores e a tipologia do BB, como forma de criar uma identificação com as empresas e os turistas brasileiros, mas sem afastar os clientes argentinos.

O outro front de expansão mais forte do BB é a África, numa parceria com o Bradesco e o Banco Espírito Santo anunciada em meados deste ano. Executivos dos três bancos estão reunidos no Brasil para acertar os detalhes finais da operação conjunta, que devem ser anunciados ainda em dezembro. Na prática, resta definir qual será o tamanho da participação que BB e Bradesco vão assumir em uma holding a ser formada pelo parceiro português, para reunir as participações do BES nos países africanos.

“O BES está há mais de cem anos na África e temos em vista grandes construtoras e empresas como Petrobras e Vale, que estão presentes no continente e são clientes em potencial”, explica Garcia. Outra oportunidade seria usar a experiência dos bancos brasileiros para ampliar a oferta de serviços financeiros, como cartões e seguros. O executivo cita o exemplo de Angola, onde apenas dois hotéis aceitam cartões de crédito, mas não possuem terminais eletrônicos para registrar as transações. “Temos como operacionalizar várias iniciativas, ainda que o retorno venha a médio e longo prazo.”

As incursões fora do País são um caminho natural para as instituições financeiras brasileiras, na avaliação do analista da Planner Corretora, Victor de Figueiredo Martins. Embora frise que a maior parte do crescimento vai ocorrer no mercado doméstico, o especialista afirma que “o excesso de liquidez que existe hoje nos balanços pode ser usado em novas aquisições no exterior”.

“É bom lembrar que, depois de atravessar tantas turbulências, os bancos brasileiros viram que quem possui mais recursos em caixa resiste melhor nas crises”, afirma o analista da Planner. Martins lembra que as maiores instituições ainda enfrentam dificuldades para concluir a integração com os rivais adquiridos nos últimos anos. Mas ressalva que aprenderam a conduzir esses processos, o que pode ser útil na absorção de agências no exterior. “Ainda que não seja para já, conseguimos reunir as condições necessárias para que os nossos bancos cresçam e conquistem mercado fora do Brasil.”