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O Corte, na vida real

por Thomaz Wood Jr. publicado 17/08/2010 17h12, última modificação 17/08/2010 17h12
O cinema nunca foi apaixonado pelo mundo corporativo. A Sétima Arte poucas vezes encontrou motivos para povoar seus cenários com diretores de marketing

O cinema nunca foi apaixonado pelo mundo corporativo. A Sétima Arte poucas vezes encontrou motivos para povoar seus cenários com diretores de marketing, gerentes de logística ou analistas de recursos humanos. Gente chata, gente esquisita, devem pensar os roteiristas. O Corte, do diretor Costa Gavras, constitui uma exceção. O cineasta, nascido na Grécia, já foi o rei dos cineclubes. Nos anos 1970 e 1980, os filmes de Costa Gavras – Z,

Estado de Sítio e Desaparecido: Um Grande Mistério – ecoavam sentimentos de frustração e revolta. Os adolescentes e recém-adultos da época se interessavam por temas que hoje são considerados exóticos: política, poder, democracia e socialismo.

O mundo mudou, as salas de cinema se tornaram multiplex e os saquinhos de pipoca deram lugar a baldes tamanho-família. Costa Gavras também mudou, mas não perdeu seu olhar crítico. O Corte, de 2005 (disponível em DVD), foca as desventuras de Bruno Davert (interpretado pelo ator José Garcia), um executivo que trabalhou 15 anos para um fabricante de papel, até ser despedido, durante um processo de reestruturação.

Bruno enfrenta com espírito elevado a situação, confiante em sua experiência e talentos. Porém, após dois anos desempregado, começa a sentir os efeitos do exílio corporativo: para garantir o orçamento doméstico, sua esposa se sujeita a dois subempregos, o segundo carro da família é vendido e seu padrão de consumo, típico de classe média, se deteriora.

Fascinado pela possibilidade de trabalhar para um ascendente fabricante de papéis e frustrado pela falta de oportunidade, Bruno coloca suas habilidades executivas a serviço da busca do novo posto de trabalho. Ele mapeia a concorrência (outros executivos especialistas no setor de papéis, desempregados como ele), avalia suas forças e fraquezas e traça um plano estratégico: eliminar os principais concorrentes, assassinando-os, um a um. Como qualquer plano estratégico, este também enfrenta dificuldades durante a execução. Porém, ao final, Bruno triunfa. Final feliz!

Desde o lançamento, O Corte chamou a atenção de professores de Administração. Eles o utilizam para fomentar discussões sobre o lado sombrio do mundo empresarial. E não é difícil entender a razão: com humor (negro) e bom ritmo, o filme aborda temas polêmicos da vida executiva: a desumanização das decisões corporativas, os traumas causados por reestruturações e o sentido do trabalho.

A demissão de Bruno é causada pela fusão de sua empresa com um fabricante do Leste Europeu. Movimentos como esse, seguidos de reestruturações e eliminação de “redundâncias”, são comuns, constantes e sempre traumáticos. Após uma fusão vem a confusão. A empresa X e a empresa Y disputam por anos o mesmo mercado. Fazem guerra de preços, roubam profissionais uma da outra e, nos encontros executivos, se desqualificam mutuamente. Cada uma das cavernas nutre desprezo e ódio pelos selvagens habitantes da outra. Então, um belo dia, anuncia-se com fanfarra a “união de forças” e a busca de “incríveis ganhos de sinergia”. Aos funcionários resta a difícil opção: aprender a dormir com o inimigo ou buscar outra caverna.

Em suas peripécias, Bruno cruza com outros cavernícolas desamparados. Alguns ainda mantêm as aparências, vivendo à margem e tirando o sustento do subemprego. Outros foram derrotados, perderam a vitalidade necessária para reverter o declínio pessoal. Para Bruno, o emprego é muito mais do que um ganha-pão, uma ocupação destinada a nos garantir a sobrevivência. O trabalho de Bruno está no centro de suas relações sociais, lhe confere identidade e permite sustentar seus sonhos de consumo. Afastado, sua autoestima desce a ladeira, sua vida social desanda e seu convívio familiar se deteriora.

O sonho de Bruno é alimentado por cenas de tevê, a mostrar uma visão frenética, rósea da vida corporativa, com seus executivos-heróis e seus feitos grandiosos. O que o mantém vivo e ativo é a meta de transformar-se na imagem que vê na telinha. Bruno é anódino, medíocre. Seus valores e sua ética são os valores e a ética da caverna. Fora dela, a única busca que faz sentido é por outra caverna.

O diretor reverte a fórmula usual. Os crimes não têm castigo. Bruno e seu filho (um jovem larápio) escapam ilesos. Bruno atinge seu intento: suas aventuras, desajeitadas e fatais, o levam de volta ao topo da pirâmide corporativa. A alegoria de Costa Gavras é extrema. Ao carregar, com bom humor, nas tintas, o diretor desmascara a mediocridade dos jogos corporativos, sugere a amoralidade das disputas e faz pensar sobre o lado sombrio de uma sociedade seduzida pelo consumismo e pelos valores empresariais.