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Luis Nassif

O conceito de taxa real nos investimentos externos

por Luis Nassif publicado 19/03/2012 11h35, última modificação 06/06/2015 18h58
9,75% de juros internos são uma enormidade frente aos 1% de remuneração dos mercados emergentes
dinheiro

Foto: 401K/Flickr

Coluna Econômica 

Apesar dos inegáveis avanços dos últimos meses, o Banco Central do Brasil continua preso a paradigmas falsos.

O primeiro, o de que a apreciação cambial se deve ao excesso de emissão monetária do Banco Central Europeu – mais o FED norte-americano, o Banco da Inglaterra e o do Japão.

De fato, o excesso de liquidez empoçada (dinheiro armazenado sem ser canalizado para crédito) aumenta a propensão a jogadas especulativas. E o peru da vez é o real, devido às boas condições fiscais brasileiras mas, principalmente, devido ao diferencial entre os juros de curto prazo aqui e lá fora.

O segundo ponto relevante é julgar que a redução da Selic para patamares de 9% provocará uma redução no fluxo de investimentos externos.

O mercado trabalha com uma taxa real de juros que equivale à Selic menos a inflação esperada para os próximos 12 meses. Essa taxa seria hipoteticamente de 2,5% a 3%.

Esse conceito de taxa real, muito utilizado nos períodos de inflação elevada, não se aplica aos investimentos em dólares. A inflação mede o poder aquisitivo da moeda. Suponha que um investidor tenha R$ 10.000,00. Um ano depois, supondo uma inflação de 6%, ele teria – teoricamente – que ter R$ 10.600,00 para adquirir os mesmos bens que adquiria antes com R$ 10.000,00.

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Acontece que a moeda do investidor externo é o dólar. Ele quer comparar a quantidade de dólares que traz com a quantidade de dólares que leva, no resgate do investimento.

Suponha que o investidor traga US$ 1 milhão. Com o dólar a R$ 1,70 ele comprará R$ 1.700.000,00. Nesse período, aplicará o dinheiro a 9,75%. Ao final de 12 meses seu saldo será de R$ 1.865.750,00.

Pouco importa de quanto for a inflação (em reais) no período. O que lhe interessa é o valor do dólar quando tiver que comprá-lo para remeter seu investimento para o exterior.

Se continuar em R$ 1,70, ele comprará US$ 1.097.500,00 – ou 9,75% de rentabilidade. Lá fora os mesmos US$ 1 milhão estariam em US$ 1.010.000,00.

Portanto, mantida a mesma paridade cambial, 9,75% de juros internos são uma enormidade frente aos 1% de remuneração dos mercados emergentes.

Apenas o fato risco é capaz de inibir a entrada de dólares. E ele se deve à taxação do capital externo com IOF de acordo com seu prazo de permanência. A Fazenda estendeu para 3 anos o prazo mínimo de permanência do investimento externo, para ficar isento do pagamento de 6% de IOF.

Dois fatores contribuem para isso. O primeiro, a cobrança do IOF em si, que come parte da rentabilidade do investimento inferior a 36 meses. O segundo, as incertezas que traz para a taxa de câmbio.

Nada impedirá a Fazenda, mais adiante, de aumentar a taxação. Ela não tem efeito retroativo. Mas o simples fato de impactar a cotação do dólar afetará a rentabilidade dos investimentos externos já internalizados, à medida que afetará o seu valor de resgate.

De qualquer modo, o grande desafio do BC será desatrelar a taxa Selic dos investimentos de médio e longo prazo. Esse passo será o gatilho para a reciclagem maciça da renda fixa para os investimentos de capital.