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O charme das pequenas

por Thomaz Wood Jr. publicado 04/08/2010 11h04, última modificação 04/08/2010 11h04
Empresas de pequeno ou médio porte frequentemente sofrem com a falta de tecnologia, de recursos e de escala. Entretanto, quando bem geridas, podem compensar essas lacunas com arrojo, flexibilidade e agilidade

Empresas de pequeno ou médio porte frequentemente sofrem com a falta de tecnologia, de recursos e de escala. Entretanto, quando bem geridas, podem compensar essas lacunas com arrojo, flexibilidade e agilidade

No início de carreira, muitos administradores preferem trabalhar em grandes empresas. Ter um “sobrenome” corporativo famoso parece lhes dar segurança e status. Entretanto, depois de anos de muita labuta e pouca recompensa, alguns desses profissionais começam a questionar sua escolha e a considerar a possibilidade de abrir negócios próprios ou vender seus préstimos para senhores de menor envergadura.

Empresas pequenas e médias têm seus próprios problemas: elas nem sempre conseguem ter acesso às mais modernas tecnologias, frequentemente têm dificuldade para financiar o seu crescimento, e lutam constantemente com as desvantagens vindas de sua pequena escala de operação. Muitas delas ainda sofrem com o amadorismo e com a falta de visão empresarial de seus sócios. Porém, quando bem geridas, as empresas de menor porte podem compensar tais deficiências com características positivas. Em um trabalho recentemente apresentado na conferência anual do Grupo Europeu de Estudos Organizacionais, a pesquisadora Bénédicte Aldebert indica cinco fontes potenciais de vantagens para organizações pequenas e médias.

A primeira é a proximidade hierárquica. Em empresas de pequeno ou médio porte, o processo de tomada de decisão é centralizado, frequentemente em uma única pessoa. O dono, ou os sócios, costuma ter contato próximo com empregados, fornecedores e clientes. Com isso, tem condições favoráveis para tomar decisões rápidas e bem informadas. Em grandes empresas, ao contrário, decisões importantes envolvem a mobilização de grupos de estudo e múltiplos níveis de avaliação. Passam-se meses até que investimentos sejam decididos e novas diretrizes sejam aprovadas.

A segunda é a proximidade funcional. Empresas de pequeno ou médio porte são frequentemente estruturadas em torno de uma profissão ou especialidade. Essa condição define o horizonte de mercado e facilita as decisões estratégicas. Além disso, suas funções – vendas, marketing, produção, recursos humanos, controle financeiro – são desempenhadas por poucos profissionais. Essas duas condições facilitam o direcionamento estratégico e o atendimento de metas. Grandes empresas, por sua vez, têm estruturas especializadas, com “silos” voltados para os seus próprios interesses. Multinacionais, ao adotar sistemas matriciais de gestão, agregam ainda maior complexidade ao sistema. Promover a convergência de propósitos e a orientação para resultados passa a ser uma atividade desafiadora e de sucesso incerto.

A terceira é a proximidade do sistema de informações. Empresas de pequeno ou médio porte utilizam sistemas simples e cultivam a informalidade: a proximidade física com funcionários e o contato direto com clientes e fornecedores facilita o fluxo de informação e a comunicação. Grandes empresas, ao contrário, precisam investir pesadamente em processos de monitoramento de mercado e em sistemas internos de informação. Ainda assim, frequentemente sofrem com problemas relacionados à falta, ao excesso ou à baixa consistência das informações.

A quarta é a proximidade temporal. Empresas de pequeno ou médio porte vivem em estado de atenção, sentindo rapidamente os solavancos do mercado e reagindo prontamente. Qualquer descuido pode levar a perdas irreparáveis. Isso faz com que elas desenvolvam a flexibilidade e a capacidade de improvisação. Executivos de grandes empresas, protegidos pelo porte da organização, tendem a se isolar e a olhar mais para dentro do que para fora. Assim, alimentam a inércia da organização, tornando-a cada vez mais lenta e menos capaz de reagir a mudanças no ambiente externo.

A quinta é a proximidade espacial. Pequenas ou médias empresas apresentam forte inserção territorial, ligando-se comumente de forma umbilical aos seus clientes. Tal condição de dependência, em princípio desvantajosa, permite conhecer profundamente as necessidades dos clientes e desenvolver novos produtos, serviços e negócios. Grandes empresas, por outro lado, frequentemente se isolam de seus clientes, que podem ser atendidos por profissionais de linha de frente, mais interessados em cumprir suas cotas do que em desenvolver novos negócios. Dessa forma, tendem a perder o contato direto com sua fonte de receita.

Essas vantagens podem não ser suficientes para seduzir jovens fascinados com logotipos famosos, grandes escritórios e viagens em classe executiva, mas podem atrair executivos já calejados pelas idiossincrasias das grandes corporações. Perde-se o suposto conforto e o enfado dos grandes transatlânticos. Ganha-se a velocidade e a vertigem dos pequenos veleiros.