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Economia

Entrevista

"Não temos surto inflacionário"

por André Siqueira — publicado 10/03/2011 18h00, última modificação 06/06/2015 18h17
Guido Mantega afirma não haver razões para pânico

Guido Mantega afirma não haver razões para pânico

A inflação dá sinais de recuo, afirma o ministro da Fazenda, Guido Mantega, sem deixar de reconhecer que a economia precisava ser desacelerada para reduzir as pressões sobre os preços. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida a CartaCapital:

CartaCapital: Como deve ser interpretado o ajuste fiscal, se os cortes não se referem, integralmente, a medidas que reduzam efetivamente o tamanho do Estado?
Guido Mantega:
Deve ser visto pelo lado da política anticíclica que o governo tem praticado no Brasil. A política econômica é a mesma, de promover o desenvolvimento, o crescimento, a geração de emprego. Nos últimos dois anos, tivemos de estimular a economia, dar subsídios, aumentar os gastos do Estado para retomar o crescimento. Agora que a economia está consolidada, cabe ao Estado diminuir a sua presença, porque, senão, superaquece a economia.

CC: Já existe um superaquecimento?
GM:
Não, porque, em 2009, o crescimento foi próximo de zero. No ano seguinte, você compensa, usa a capacidade instalada. A média dos dois anos dá um crescimento entre 3,5% e 4%, digamos.

CC: Mas a inflação chegou a dar um susto, não?
GM:
Não sei por que você está assustado com a inflação. A inflação é mundial e, no Brasil, está menos volátil que nos outros países. No ano passado, houve forte aumento de preço das commodities. É claro que a economia, também aquecida, corre o risco de propagar essa inflação, porque os serviços são o segmento que mais responde ao aquecimento da economia. Mas não é lícito dizer que temos um surto inflacionário.

CC: Então por que o governo interveio para desaquecer a economia?
GM:
Existe, sim, um problema de inflação, não estou negando. O que estou dizendo é que não há razão para pânico ou entrar em surto porque tem uma parte dessa inflação que é cíclica, sazonal, e está caindo até mais rapidamente do que se imaginava. A economia brasileira está desaquecendo, no último trimestre estava rodando a 5%.

CC: Há quem tema que a queda seja maior. As medidas podem ter sido contracionistas demais?
GM:
Não vamos exagerar de um lado para o outro. A política fiscal, embora ajude a baixar a inflação, tem como principal objetivo voltar ao nível de gasto anterior à crise. O segundo objetivo é retornar ao patamar de (superávit) primário de antes, até 2008, e, portanto, manter as contas públicas sólidas, para ajudar na queda do juro no futuro. Não agora, mas no futuro.

CC: Se a inflação está cedendo e outras medidas têm surtido efeito, por que subir a Selic?
GM:
O juro não costuma ter efeito imediato, está nos manuais de economia. Agora, interfere nas expectativas, e aí o efeito é imediato. Você tem de perguntar ao Banco Central o que ele acha adequado.

CC: Não há, neste governo, uma maior harmonia entre a Fazenda e o BC?
GM:
Eu acho que há afinação, porque as políticas monetária e fiscal têm de estar sintonizadas. Agora, existe uma autonomia de ação e de julgamento. Há uma concordância com a política geral, ou seja, que nós temos de manter o crescimento, porém sem gerar inflação e com solidez fiscal. Essa é a concordância que temos, e aí cada um administra a sua área de modo a dar resposta a esse objetivo comum.