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Economia

Produção agrícola

Não faltarão alimentos nas próximas décadas

por Rui Daher publicado 28/12/2013 00h54, última modificação 28/12/2013 02h31
Todo empreendimento agrário está entregue ao imprevisível mercado, com flutuações que em um só ano podem aniquilá-lo, largado ao léu por que a iniciativa tem que ser privada

Certeza um: se não houver um desastre climático global de grandes proporções, não faltarão produções agropecuárias para a demanda de alimentos, proteínas animais, fibras, derivados celulósicos e energia renovável, nesta década e nas próximas. Isto inclui o cabalístico ano de 2050, para quando as previsões arregalam olhos alarmados.

Certeza dois: andará devagar, mas muito devagar, a inserção social das populações campesinas, que podemos substituir por agrárias, para não ofender a senadora Kátia Abreu com “marxismos infantis”, na procura de acesso às aquisições de aparelhos que tornam a sobrevivência mais farta, livre e segura.

Essas as conclusões que procurávamos na coluna anterior, servindo-nos dos estudos de Henry Bernstein, e que sugerimos à discussão nesta semana que se antecipa a um novo ano.

De tal forma está organizada a cadeia do agronegócio, desde a sua fase primária até a comercialização e distribuição dos bens, passando por uma concentração brutal de negócios em conglomerados cujos capitais têm seus pés fincados fundo no mercado financeiro internacional, que é praticamente impossível faltar alguma coisa. Ela faliria, e daí, babau.

Fato adicional que reforça o argumento, é o pequeno número de culturas e de proteínas animais necessárias à segurança alimentar das populações do planeta.

Pensem aí no que forma o mercado de commodities agrícolas e como elas precisam ser produzidas para gerar escala, produtividade e, no final, manutenção da atividade e crescimento através de muita tecnologia e pouquíssima mão de obra.

Não se planta muita soja, milho, trigo, arroz, para fazer desfeita à graviola. Planta-se o que o mundo pede.

No caminhar da história e das “dinâmicas de classe da mudança agrária” (apud Bernstein), saem homens, mulheres e jegues; entram organismos geneticamente modificados, tecnologias nutricionais e fitossanitárias mais efetivas e senhores de nome John Deere e Ferguson.

E nós? Poderão perguntar os quase 3,5 bilhões de pessoas que, segundo a FAO, vivem em áreas rurais, 75% em atividades agrícolas? Continuaremos partindo para os centros urbanos, como tem sido a tendência? A indústria e os serviços virão a nós ou devemos ir atrás deles? Serão injetados capitais e infraestrutura social para atender nossas necessidades de saúde, educação, saneamento?

A mim, esse é um desenvolvimento que parece pouco provável através dos meios, programas e summits até aqui usados. Da mesma forma, dos tímidos contramovimentos envolvidos nas lutas agrárias do lado pobre do mundo, que abriga 97% desses necessitados.

Como pergunta Bernstein: quais as bases sociais desses movimentos, sua representatividade, que forças sociais coonestam suas exigências e dão eficácia às suas ações, são movimentos unidos ou fragmentados?

A verdade é que não é plausível essa incorporação ser feita para atender ou ajudar para alimentar “uma população mundial tantas vezes maior e tão mais urbana do que na época em que os camponeses eram os principais produtores da comida do mundo”.

Sugiro ao autor do livro: procure adicionar ao fator alimentação a miríade de produtos criados pela tecnologia a partir de produtos agrários. Aí que não dá mesmo.

Um mundo que se estende da bolsa de futuros de Chicago e dos conglomerados multinacionais à diferenciação de classes do “capitalismo camponês” e suas contradições.

É quando penso no Estado e justifico planejamento. Quando ando em pequenas lavouras de tomates, cebolas, batatas, frutíferas, hortaliças, flores. Mamona, pimenta, guaraná, alho. De criações de ovinos e crocodilos. De tanques de piscicultura. Na carcinicultura. Girassol, aveia, algas marinhas.

Enfim, em todos os empreendimentos agrários que são entregues jogados ao imprevisível mercado, com flutuações que em um só ano podem aniquilar um negócio, largado ao léu por que a iniciativa tem que ser privada. Sem apoio nenhum.

Assim parecemos modernos. Assim parecemos liberais.

E o Estado? Ora, o Estado tem que se preocupar com os grandes itens. Tem que tratar de fornecer segurança, saúde, educação. Que nem isto dá.

Ficam assim mais de quatro milhões de pequenas propriedades ao que vier, penduradas nas tetas da sorte no mercado, e a grande empresa privada, cada vez mais produtiva e lucrativa, a deixar aos homens, mulheres e jegues suas mais secas tetas.

Direcionamento de culturas e apoio à agricultura familiar, em todas as regiões agrárias pobres do planeta. Este o fio de esperança nesse massacre sem final previsto.