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Não basta dizer sim

por André Siqueira — publicado 27/05/2009 15h02, última modificação 20/09/2010 15h04
Dois senhores distintos atraíram olhares, na sexta-feira 22, ao adentrar o movimentado prédio da Caixa Econômica Federal, na Avenida Paulista, por volta das 15h. Os presidentes dos conselhos da Sadia, Luiz Fernando Furlan, e da Perdigão, Nildemar Secches, tomaram o elevador privativo e subiram direto ao segundo andar, onde está instalado o discreto gabinete do Ministério da Fazenda em São Paulo.

Dois senhores distintos atraíram olhares, na sexta-feira 22, ao adentrar o movimentado prédio da Caixa Econômica Federal, na Avenida Paulista, por volta das 15h. Os presidentes dos conselhos da Sadia, Luiz Fernando Furlan, e da Perdigão, Nildemar Secches, tomaram o elevador privativo e subiram direto ao segundo andar, onde está instalado o discreto gabinete do Ministério da Fazenda em São Paulo. Aguardaram 15 minutos na antessala e passaram o resto da tarde com Guido Mantega, o titular da pasta. Embora regido pela praxe (Roberto Setúbal e Pedro Moreira Salles também estiveram por lá este ano, para conversar sobre a união do Itaú com o Unibanco), o encontro é mais do que estratégico, no caso da fusão entre as duas empresas de alimentos. Na verdade, os interesses dos executivos vão muito além de aprovação de autoridades.

Embora antecipado em detalhes pela imprensa, o anúncio da criação da Brasil Foods, ou BRF, deixou muitas questões em aberto. A primeira, e talvez não a mais importante, é a necessidade do aval do sistema de defesa da concorrência, que, se procurar, vai descobrir vários segmentos em que a nova empresa terá mais de 50% de participação. Ou seja, quanto mais minuciosa a análise, pior. A argumentação da empresa, para aproveitar a porteira aberta pela AmBev, será a de que o mercado relevante é o internacional, não o brasileiro.

Até lá, elas assumem o compromisso de manter separadas as duas empresas. Haja nervos, diante de uma expectativa de cortes de custos na casa de bilhões de reais. O aval depende do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, que apóia as decisões nos relatórios produzidos pela Secretaria de Direito Econômico (SDE), ligada ao Ministério da Justiça, e pela Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae), subordinada à Fazenda.

Mantega também tem, ao menos em tese, alguma ingerência sobre o BNDES, subordinado à estrutura do Ministério. Nesse caso, o assunto é muito mais sensível. Antes mesmo da aprovação pela área concorrencial do governo, a BRF irá ao mercado vender 4 bilhões de reais em novas ações. A previsão é que a emissão ocorra até o fim de julho. A entrada de dinheiro é fundamental para reduzir o grande endividamento trazido pela Sadia, que tem, não por coincidência, cerca de 4 bilhões de reais só em dívidas a vencer até o fim deste ano. O aporte vai deixar a nova empresa com uma estrutura de dívida mais próxima à da Perdigão atualmente, o que não é nada mau.

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, já disse, logo no dia do anúncio, que tem interesse em comprar ações da BRF. Não revelou se muitas ou poucas. Mas arrisco um palpite, sem juízo de valor: tudo vai depender do apetite demonstrado pelos investidores. Como sempre, o banco entra para cobrir o setor privado quando falta fôlego. Em tempos de crise, é difícil prever qual será o interesse do mercado na emissão.

O caso é que, se o BNDES se tornar um acionista importante da BRF, poderemos chegar a uma situação curiosa, embora nem tão sui generis no Brasil. As famílias Furlan e Fontana tendem a ter a participação diluída, enquanto os fundos de pensão de funcionários de empresas públicas, como o Previ, do Banco do Brasil, terão o poder aumentado. Com o BNDES na jogada, um acordo de acionistas pode deixar o grupo, para usar um eufemismo, sob forte influência do governo. É possível imaginar, portanto, que Furlan e Secches tinham muito a conversar com Mantega na última sexta-feira. E é só o começo.