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Na agricultura, produtividade é o segredo

por Rui Daher publicado 12/07/2013 12h43
O crescimento se deu, entretanto, sem que os agricultores perdessem um minuto de seu tempo pensando no meio ambiente

Sabe-se que a abertura da produção brasileira de grãos nos cerrados do Centro-Oeste foi realizada por colonos da região Sul, muitos deles ainda em vias de consolidar a agricultura em suas regiões de origem. Era uma aposta.

O fato, que ocorreu a partir dos anos 1970, parece ter hoje atingido o ápice e feito retornar a procura por expansão em áreas ainda mais distantes e menos férteis. Falamos dos estados de Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia. Apelido, Mapitoba.

Persistência, espírito desbravador, especulação imobiliária, loucura, soja persistindo a R$ 70,00/saca de 60 kg, milho com alta demanda, insumos e variedades mais resistentes à seca. De tudo um pouco que faz o muito.

Nessa boa cobiça não entram apenas a coragem e visão de nossos agricultores, mas também preocupantes e questionáveis investimentos estrangeiros, interessados em assegurar alimentos para suas populações, quando não apenas em especular ou ocupar posições estratégicas na futura geopolítica.

O grupo de nações, que já foi primeiro, rico e desenvolvido, percebeu “alguma coisa fora da nova ordem mundial”, como previu Caetano Veloso, em 1989, o que o faria admitir novos sócios em seu restrito clube.

Justificativas: escassez de terras agricultáveis, limitações climáticas e de recursos naturais, níveis de produtividade próximos do teto, regulações ambientais, economias mais fracas.

Munir-se de óculos 3D e mirar o Brasil e a África pareceu-lhes o óbvio. No que acertam. Principalmente, aqui.

A última estimativa da Conab prevê colhermos, na safra 2012/13, o recorde de 185 milhões toneladas de grãos. Quatro vezes o obtido na safra 1976/77.

Para a façanha, atualmente, usamos 53 milhões de hectares de terra. Dez milhões a mais do que naqueles idos. Um aumento de apenas 23%.

Não, não virei com um argumento tolo, muito usado por confederados e ruralistas, e dizer que isso nos faz sacerdotes da preservação ambiental. A tal história de que chegamos à produção atual economizando terra e sem arranhar um tico de matas e riachinhos de águas claras é pura besteira.

Vivo repetindo: o principal fator para tal conquista veio do aumento de produtividade. Antes, retirávamos de cada hectare, em média, 1.200 kg, hoje 3.500 kg. Mas isso aconteceu sem que os agricultores perdessem um minuto de seu tempo pensando no meio ambiente, mas sim em viabilizarem suas contas bancárias e não quebrarem.

Comprar novas áreas e torná-las aptas ao plantio requer muito investimento. Se para crescer quatro vezes a produção de grãos tivéssemos que ter aumentado área na mesma proporção, agricultores e país estariam quebrados. Preservação ambiental coisa nenhuma.

Na esfera da produção, a viabilidade da agricultura consiste em retirar mais produtos de boa qualidade por unidade de área plantada. Na esfera da distribuição, manda a logística, de que pouco cuidamos. Na comercialização, além de estudar as tendências dos preços, é preciso lidar com os cartéis compradores.

Fácil não, meus prezados. Mas foi o modelo que escolhemos, está dando certo e que, na forma como se organizou o comércio internacional da produção primária, não poderia ser outro.

Nossa produtividade agrícola veio com base em muito investimento em tecnologia. Insumos e mecanização, sobretudo. Mas também muita aquisição de conhecimento, facilitada pela atual rapidez na obtenção de informações.

Viajei recentemente para uma região que tem uma das mais produtivas agriculturas do Brasil. Notei a formação de um caldo de cultura específico, com tamanha profundidade, originado na pesquisa científica, que na hora mais esperada do dia, a do churrasco, nada se falou de política, supérfluos ou se contou piadas.

As conversas giraram em torno do milho responsável pela genética que emprestava sabor maravilhoso a um suíno que pururuca sobre a brasa. Nem mesmo foi possível fazer o assunto chegar ao malte que nos acompanhou noite e berço adentro.