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Microdistribuidoras abastecem salões de beleza das favelas brasileiras

por AFP — publicado 24/10/2014 05h26
Gigante de cosméticos cria rede para fazer seus produtos chegarem nas comunidades
Christophe Simon / AFP
Salão de beleza no Rio de Janeiro

Salão de beleza no Rio de Janeiro

Por Simon Boehm

Para levar seus produtos de beleza até as favelas brasileiras, a gigante dos cosméticos L'Oréal lançou mão de "microdistribuidoras" encarregadas, desde 2011, do abastecimento de salões de beleza – quase sempre informais – das comunidades. O projeto começou há três anos em três favelas do Rio de Janeiro: Cidade de Deus, Rocinha e Complexo do Alemão.

Hoje, 50 microdistribuidoras funcionam nas favelas das duas maiores cidades do país - 35 no Rio e 15 em São Paulo, onde a iniciativa começou no final de 2013. "É um modelo de distribuição único, com uma venda direta nos pequenos salões de beleza informais, abundantes nas favelas", explica Tatiana Peczan, responsável pelo projeto na L'Oréal Brasil. A ideia é "entrar nos bairros que não são atingidos pela distribuição convencional", conta Tatiana.

O projeto seleciona candidatas que moram numa favela, munidas de espírito empreendedor e com boas habilidades sociais, e que desejam se tornar distribuidoras de produtos de cabeleireiros. Primeira etapa: uma semana de formação técnica sobre a profissão de cabeleireiro e sobre os produtos Matrix, marca da L'Oréal que nasceu nos Estados Unidos.

Em seguida, vem a compra de um primeiro estoque, voluntariamente limitado, em geral uma centena de produtos. As vendedoras obtêm uma comissão sobre os preços dos produtos, e têm um status fiscal convidativo. A compra do estoque é financiada por um sistema de microcrédito com a parceria de bancos. Uma formação comercial (gestão de estoque, comunicação, balanço de resultados) também é dada às microdistribuidoras pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

"Elas têm créditos e nós tentamos ter um estoque de base muito baixo, com um produto de cada linha", explica Michael Henry, diretor da divisão de produtos profissionais da L'Oréal Brasil. A Matrix criou então "uma gama pouco extensa que corresponde à demanda destes salões de beleza que não têm estoque", diz Henry. Esta linha, Master Results, foi especificamente criada para o Brasil, com "apenas cinco produtos técnicos de cuidados, 20 colorações e um produto de alisamento". "Não pressionamos nossas vendedoras a baterem metas", afirma o executivo, insistindo sobre o desafio de "longo prazo" para as micro-distribuidoras.

"Nossa prioridade é ajudá-las em seu desenvolvimento", confirma Tatiana Peczan, enquanto visita o pequeno salão Belos Frios, na comunidade carioca de Rio das Pedras. Instalado numa ruela, o estabelecimento é abastecido por Carlos Ramato, jovem empreendedor que em dois anos formou uma clientela de mais de 30 salões. "Aqui o comércio é informal e nós funcionamos na base da confiança", explica Ramato. Segundo ele, é raro alguém deixá-lo na mão.

Carlos Ramato investiu cerca de 2 mil reais há dois anos para iniciar o negócio e formar seu estoque. Hoje, a atividade dá ao empresário um retorno maior ao que ele obtinha como motorista de transportes alternativos para os moradores de Rio das Pedras. Atualmente, dois mil pequenos salões de beleza são alimentados pelo sistema de microdistribuidores, com cerca de 40 estabelecimentos para cada fornecedor.

O projeto brasileiro pode ser levado para fora? "É promissor, mas quero ter certeza antes de começar a fazer projetos como este em todos os lugares", respondeu An Verhulst-Santos, diretora geral da divisão de produtos profissionais do grupo L'Oréal. "Ainda assim é preciso saber se é sustentável e se os microdistribuidores podem realmente fazer da atividade seu ganha-pão", continua.

Uma outra experiência de microdistribuição lançada pela L'Oréal em Gana em 2013, também no setor de salões de beleza, não deu os resultados esperados – um terço fracassou. Na L'Oréal, os números sobre a experiência brasileira não foram revelados. O objetivo inicial é "que todo mundo ainda esteja no projeto nos próximos três anos", resume Michael Henry.

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