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Meninos passarinhos

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 04/12/2009 18h36, última modificação 20/09/2010 18h37
Se o país está mudando, mudam as cenas cotidianas. Rodoviária, por exemplo, não é mais lugar de paraíba.

Se o país está mudando, mudam as cenas cotidianas. Rodoviária, por exemplo, não é mais lugar de paraíba. Aeroporto, por sua vez, não é mais privilégio de classe média. “Paraíba” no Rio é o mesmo que “baiano” na gíria de Sampa: o cabra que vem do Nordeste e tem jeito de retirante, mal adaptado aos costumes e à estética das metrópoles. Assim como os gaúchos não largam seu chimarrão nem em laboratórios da USP, os nordestinos são fiéis, entre outras coisas, a seus chapéus de couro, estilo Lampião, o Rei do Cangaço, e a suas dulcíssimas rapaduras. E aos seus pontos de encontro em praças públicas escolhidas.

Quem viaja num ônibus interestadual mais confortável descobre, não raramente, ser mais barata a tarifa aérea, se a compra for programada com certa antecedência. Hoje, preços sinceros e promoções estão democratizando as asas da Panair. Ave!

Há uma mudança visível no perfil dos passageiros em desfile pelos aeroportos, isto quando a marcha não embola e vira muvuca estática, fruto da desorganização das empresas aéreas e da Infraero. Os novos viajantes levaram para o check-in e salas de espera embrulhos com barbante, bolsas de náilon, sacos de lona e malas baratas em torno de famílias ansiosas. As mulheres em suas saias e jeans sem grife e os homens em mangas de camisa. Nos rostos, excitação e temor naturais de subir naquela espécie de jegue atômico.

Os novos viajantes estão ganhando o seu pedaço de céu, e com isso remetem a um tempo em que viajar de avião era para poucos. Havia uma espécie de código de comportamento que aos olhos atuais beirava ao caricato. Se o voo era internacional, nem se fala. Tailleurs, salto alto, bolsa combinada, chapéu de feltro com aba e frasqueira para o make-up básico eram obrigatórios para a mulherada afeita a exibir poder e status. Os homens iam de blazer ou de terno e gravata para também dar pinta de chique.

Tênis, roupas esportivas, bermudas, mochilas, havaianas, começaram a bagunçar as fashion victims de aeroporto, mostrando que o tempo voou. Nada mais aborrecido, porém revelador da mudança de referência dos viajantes aéreos do que observar as bagagens mal enfileiradas e claudicando nas esteiras dos aeroportos, enquanto a sua não vem. Inexplicavelmente, sempre, a mala de cada um aparece em último lugar. Entre Vuittons e Guccis falsas, e a levíssima alemã Rimowa, a queridinha (e carérrima) dos afluentes, passam os farnéis dos paraíbas que descobrem a dor e a delícia de ser menino passarinho neste país. Aliás, queiram ou não, aeroplano sempre foi um ônibus que voa.

Verão e ônibus. Na rua, os ônibus que voltam a assombrar com suas hordas de arruaceiros de plantão, batucando na lataria e entoando seus muito particulares cânticos de guerra. Na calçada, mal se pode discernir se a gritaria é algo dramático, como um assalto ou um motim em meio à muvuca, algo bastante plausível, ou pura “zoação”.

Normalmente, a esbórnia não passa de esbórnia, porque malandro que é malandro não bobeia, no melhor sentido da palavra com a segunda sílaba aberta, pois, com a supressão de alguns acentos diferenciais, a reforma ortográfica nos levou à possibilidade de ser bem-humorados, e nem vai querer chamar a atenção da polícia.

Na maioria das vezes, os ônibus do barulho são terror barato das gangues que se comprazem em assombrar os psicologicamente abalados habitantes da cidade, hirtos à espera da guerra a qualquer instante.

O metrô, que a partir da semana que vem desembocará em plena praça General Osório, em Ipanema, adquire nos fins de semana um ar de decadência. Vê-se lixo de toda espécie em seus vagões, que também andam sofrendo de falta de ar condicionado: papéis, garrafas de refrigerante e outros. A incivilidade anda ameaçando a última flor do Lácio do sistema de transporte do Rio.

Dinheiro na cueca

Ante a força dos fatos, procede chamar o rego do bumbum de cofrinho.