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Mais um milagre de Eike

por André Siqueira — publicado 03/04/2009 15h06, última modificação 20/09/2010 15h07
Pouca gente lê demonstrações financeiras de empresas, ainda que, em atenção à legislação, elas tenham de ser publicadas em jornais de alcance nacional. A não ser que o caro leitor seja acionista do grupo em pauta, ou analista de mercado, tampouco recomendo o esforço de entender o economiquês erudito da maioria dos relatórios.

Pouca gente lê demonstrações financeiras de empresas, ainda que, em atenção à legislação, elas tenham de ser publicadas em jornais de alcance nacional. A não ser que o caro leitor seja acionista do grupo em pauta, ou analista de mercado, tampouco recomendo o esforço de entender o economiquês erudito da maioria dos relatórios.

Exclusivamente por dever de ofício, costumo me aventurar por alguns desses compêndios. Mais eventualmente ainda, encontro alguma informação que passa despercebida à mídia especializada. Às vezes vale a pena comentar, nem que só por curiosidade.

Meu último achado vem do resultado anual da MPX, braço de energia do empresário Eike Batista, o homem mais rico do Brasil. A companhia anunciou lucro líquido de 6,8 bilhões de reais em 2008. Investiu, entre janeiro e dezembro, nada menos do que 1 bilhão de reais em três projetos de usinas termelétricas. No fim do ano, tinha quase 2 bilhões de reais em caixa.

O projeto que mais me impressionou, entretanto, ocupa linhas no item Sustentabilidade. A iniciativa soa tão grandiosa quanto as da área operacional. Já as cifras envolvidas... Nem tanto.

Diz lá que o grupo EBX (holding à qual pertence a MPX) assinou parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Por dez anos, assumiu “o compromisso de apoiar e proteger os parques nacionais dos Lençóis Maranhenses, de Fernando de Noronha e do Pantanal Matogrossense”. Para levar adiante a façanha, a empresa vai investir 11,4 milhões de reais – em todo o período.

Para quem ainda não atinou para a desproporção, esclareço que a quantia equivale a 0,17% do lucro líquido de 2008. Ou, mais apropriadamente, 0,017% para cada um dos dez anos de projeto. Vou dizer de mais uma forma: o custo anual da parceria equivale a pouco mais do que a milionésima parte do lucro auferido no ano passado.

Tomara que os acionistas não sintam muita falta do dinheiro. Oxalá, também, a verba seja suficiente para os 300 mil hectares (ou 3 bilhões de metros quadrados) de áreas nativas que se pretende conservar. Algo me diz que vai ser pouco...

Eike Batista já mostrou, mais de uma vez, ter um tino inigualável para os negócios. Levantou fortunas bilionárias no mercado de capitais com a venda de papéis de empresas cujos principais projetos estão também no papel. Se o mesmo faro puder ser aplicado aos empreendimentos ambientais, o Brasil ficará certamente grato.

PS: A ideia aqui não é tirar sarro, nem desqualificar a iniciativa da empresa. O mesmo relatório mostra que a empresa apóia outros projetos, embora não cite valores (o que me leva a presumir que sejam ainda menores). Só como exemplo, lembro-me de quando a Febraban anunciou, há alguns anos e em nome de todos os bancos brasileiros, 20 milhões de reais para construir cisternas no semi-árido nordestino. Nada contra os projetos. Mas temos de esperar, e cobrar, mais empenho e maiores desembolsos de nossas empresas. E não dar a elas de mão beijada o ganho de imagem que, em última análise, é o que move boa parte das chamadas ações de responsabilidade social.