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Análise / André Barrocal

Juro, um calmante para o "mercado"

por André Barrocal publicado 15/10/2013 14h13
Expectativas de inflação são as piores do ano, mas a histeria da "inflação do tomate" foi domada com Selic à beira de dois dígitos e taxa real acima de 3%
Elza Fiuza/Agência Brasil
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Três dias depois das manchetes dos tomates, o Copom descongelou o juro. De lá para cá, o BC subiu a taxa mais quatro vezes

O Banco Central (BC) divulgou na segunda-feira 14 mais uma de suas pesquisas semanais com representantes do sistema financeiro sobre alguns indicadores econômicos. Na inflação, assunto que mais gera repercussão no chamado boletim Focus, as expectativas são as piores do ano. Apesar disso, o “mercado” não mostra a estridência de seis meses atrás, quando seus insistentes ataques ao governo de tolerância com a alta de preços popularizaram a “inflação do tomate” no debate público.

A contradição e o silêncio talvez se expliquem pela volta do Brasil ao topo ranking mundial do juro, situação que enche o bolso dos coléricos queixosos de antes. Desde a quinta-feira 10, o juro real brasileiro está em 3,3% ao ano. É este o lucro mínimo e limpo de inflação, que pode ser obtido com títulos públicos ou empréstimos entre bancos, por exemplo. Não há país que proporcione tamanho rendimento a quem faz o mesmo tipo de negócio.

Este ganho real é calculado a partir de dois números. A taxa de juro do Banco Central (a Selic) e a projeção do “mercado” para a inflação futura, um dos temas pesquisados semanalmente pelo BC. Na quarta-feira 9, o banco botou a Selic em 9,5% ao ano. No boletim Focus desta segunda-feira 14, os pesquisados apostam que os preços vão subir em média 6,2% nos próximos doze meses.

Na mesma sondagem, o “mercado” prevê que a inflação de 2013 ficará em 5,8%. Em nenhum outro momento do ano houve tamanho pessimismo sobre a inflação de 2013 e dos 12 meses à frente por parte do sistema financeiro. Nem entre março e abril, quando a histeria fez o BC iniciar um ciclo de aperto monetário para segurar preços que, segundo o “mercado”, estariam à beira do descontrole.

Na última semana de março e nas duas primeiras de abril, a pesquisa Focus captava estimativas de inflação de 5,7% para 2013 e de 5,4% em 12 meses. O juro real estava em 1,85%. O “mercado” gritava. Agora, o quadro inflacionário pintado pelo sistema financeiro piorou, mas o juro real subiu 80% e parece ter funcionado como um calmante, um ansiolítico, sobre o “mercado”.

O ápice do nervosismo do “mercado” completa exatos seis meses. Os porta-vozes do setor haviam reclamado tanto do governo em entrevistas e artigos que convenceram duas revistas semanais de que o tema merecia reportagens extensas. No fim de semana dos dias 13 e 14 de abril, Veja e Época publicaram matérias de capa usando como símbolo o tomate. “Inflação: Dilma pisou no tomate”, dizia a primeira. “A ameaça da inflação: por que o governo pisou no tomate”, afirmava a segunda.

Três dias depois, em sua reunião periódica de análise da economia para examinar se o controle de preços estava garantido ou exigia mudanças na Selic, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC descongelou o juro. Fixado em em 7,25% desde outubro de 2012, o menor patamar da história do País, passou a 7,50%. De lá para cá, o BC subiu a taxa mais quatro vezes. Em documentos oficiais, indica que pode colocá-la de novo na casa de dois dígitos, uma herança que a presidenta Dilma Rousseff recebeu dos antecessores e não pretendia deixar para os sucessores.

Nos bastidores, o ministério da Fazenda e o Palácio do Planalto dão sinais de ressentimento contra o que consideram uma espécie de covardia por parte daqueles que, em tese, seriam aliados contra o juro alto. Segundo estas análises, os empresários favorecidos pela queda da taxa encolheram-se quando Brasília mais precisava de apoio, durante os ataques do “mercado” à “inflação do tomate”. O motivo é que o próprio empresariado teria se acostumado ao lucro fácil do sistema financeiro.

Resta a dúvida se o governo Dilma desistiu de enfrentar o juro alto, que consome verba que poderia ser usada em obras públicas, e o sistema financeiro, cuja capacidade de produzir estragos no Ibope do governo ficou comprovada este ano. Ou se vai se acomodar diante do quadro atual, que se não é o desejado, ainda assim é bem melhor do que nos governos Fernando Henrique e Lula.

Pelo menos o ministro da Fazenda, Guido Mantega, dá mostras de um certo desconforto diante do ciclo de alta da taxa de juros praticado pelo BC. Em um evento público há duas semanas, em São Paulo, Mantega disse que o Brasil precisa reduzir o gasto com juros da dívida.

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