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Juro baixo leva fundos de pensão a diversificar carteira

por Redação Carta Capital — publicado 16/11/2012 09h55, última modificação 16/11/2012 09h55
Instituições devem migrar parte dos investimentos para imóveis e projetos de infraestrutura
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BenjaminThompson

 

Por Roberto Rockmann

 

Com os juros em termos reais na casa dos 2% ao ano, patamar histórico, um novo momento se abre para os fundos de pensão, que, de olho em retornos mais elevados, gradualmente, terão de reduzir sua exposição a títulos do governo federal em troca de mais investimentos em imóveis, ações e debêntures. “Vivemos um mundo novo”, diz o diretor-executivo da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), Roberto Carvalho, que se recorda de quando era operador de bolsa e renda fixa há mais de duas décadas. “Naquele tempo, havia overnight, se operava com taxas de 40% ao dia, hoje o juro real está em 2% ao ano, o que exigirá uma diversificação de investimentos além da tradicional renda fixa”, afirma.

“Como disse recentemente a presidente Dilma Rousseff referindo-se às altas taxas de juros no Brasil, a verdade é que a longa fase do almoço grátis acabou”, destaca Gabriel Amado de Moura, diretor de investimentos da Fundação Itaú Unibanco, que ressalta que um cenário muito mais complexo se apresenta agora para os investidores. “O mundo mudou e será preciso mudar com ele”, frisa, citando que Brasil, China, Índia e Rússia crescem uma Grécia a cada 90 dias e uma Itália a cada 15 meses. Se o Brasil convivia com juros reais perto de 20% há alguns anos, fatores conjunturais mudaram essa realidade e devem fazer com que os juros na casa dos 2% tenham vindo para ficar. “A República fez uma emissão recente de papéis no exterior e pagou 110 pontos base acima do Tesouro dos Estados Unidos, a mesma taxa que a empresa do Warren Buffet, um dos maiores investidores do mundo, pagou.”

Esse cenário terá impacto sobre as carteiras dos fundos de pensão. Em 2011, 62% dos recursos dessas instituições estavam aplicados em renda fixa, 29% em renda variável e 9% em outras aplicações. Em 2008, 65% dos investimentos estavam em renda fixa e 28% em renda variável. Em 2004, 61% estava na renda fixa e 30% na variável. Nos Estados Unidos, a fatia em renda variável beira os 40% — 30% acima da brasileira. Os títulos do governo ainda são campeões na lista de preferências dos fundos de pensão, mas, em um cenário de queda de juros, será preciso compor uma diversificação, para que os gestores consigam bater as metas atuariais, a rentabilidade mínima exigida para que os aposentados possam ter seus benefícios assegurados. A maioria trabalha com rentabilidade real de 6% ao ano. “Teremos que aceitar essa maior complexidade e nos prepararmos para ela na hora de investir. Teremos de selecionar geografias, riscos, ativos”, diz Moura, ressaltando que fundos de pensão de outros países investem em diversas formas de renda variável: de investimentos em imóveis a debêntures de empresas, ações de empresa no exterior e fundos de private equity.

Representante do comitê de investimentos da Abrapp, René Sanda afirma que os resultados do governo dão margem para que os juros permaneçam baixos durante a década. A dívida líquida do setor público, que em 2002 chegou a 60% do PIB, hoje caiu para 35% e deve cair para 32,7% em 2013. “Não há pressão sobre a dívida pública”, afirma. O apetite por rolagem de títulos a altas taxas caiu também. Ficar com 100% de uma carteira com esses papéis não faz mais sentido. “É preciso alterar a cabeça”, diz.

O diretor da gestora Black Rock, Axel Christensen, afirma que a mudança gradual de investimentos já foi observada em outro país vizinho do Brasil, o Chile. Na década de 1980, o país sul-americano convivia com taxas nominais de juros na casa dos 20% e uma década depois os juros caíram para a casa dos 5% anuais. “Primeiro, os fundos buscaram opções de renda variável no mercado doméstico e depois passaram a identificar oportunidades no exterior”, destaca. Segundos dados do governo chileno, hoje 37% das aplicações dos fundos de pensão estão em investimentos em renda variável, seja no mercado chileno, seja no mercado externo.

No início de novembro, a Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, fechou a aquisição de um shopping center e uma das torres corporativas do Condomínio Parque da Cidade, a serem construídos até 2016 na Marginal do Pinheiros, região do Morumbi, em São Paulo. A compra, feita da Odebrecht Realizações Imobiliárias, foi fechada por 817 milhões de reais. O empreendimento tem, no total, 82 mil metros quadrados de área, projeção para 595 mil metros quadrados de área construída total e será composto por seis torres comerciais, duas torres residenciais, um shopping center e um hotel, interligados por um parque.

Para Sanda, que também é diretor de investimentos da Previ, “trata-se de um negócio totalmente alinhado às necessidades de um fundo de pensão como a Previ, que tem visão de longo prazo e precisa de fluxo de caixa para pagar benefícios atuais e futuros dos seus participantes”. Ele ainda ressaltou que os investimentos no setor imobiliário têm apresentado bons retornos na casa de 20% a 30% ao ano desde 2008. Com a aquisição do shopping e da torre comercial do Condomínio Parque da Cidade, a carteira imobiliária da Previ ultrapassa 8 bilhões de reais.

Imóveis não são os únicos ativos na mira dos fundos de pensão. A área de infraestrutura desponta como outra das preferidas, por reunir ativos de longo prazo de maturação e previsibilidade de caixa. No leilão de concessões dos aeroportos, realizado no início do ano, o consórcio Invepar-ACSA arrematou por 16,2 bilhões de reais a administração e operação do Aeroporto de Guarulhos por 20 anos. Criada em março de 2000, a Invepar (Investimentos e Participações em Infraestrutura S.A.), cujos acionistas são Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ), Fundação Petrobras de Seguridade Social (Petros), Fundação dos Economiários Federais (Funcef) e Grupo OAS, surgiu no cenário nacional para investir em infraestrutura.

Em abril, o Consórcio formado por Invepar, Odebrecht Transport e CCR venceu o leilão do projeto da Ligação Transolímpica, realizado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, com uma proposta de 57,97 milhões de reais. As empresas do consórcio terão de executar as obras do corredor expresso de 13 quilômetros, incluindo os sistemas de operação e manutenção. Estão previstas duas faixas por sentido para o BRT (Bus Rapid Transit), um túnel de 1,53 quilômetro de extensão e 48 pontes e viadutos. O contrato terá duração de 35 anos. O vencedor será responsável pela conservação, manutenção e operação do corredor.

 

Leia a reportagem completa no relatório sobre seguros e previdência que circula na edição 724 de CartaCapital.

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