Você está aqui: Página Inicial / Economia / Instituições confiáveis

Economia

Sextante

Instituições confiáveis

por Delfim Netto publicado 12/10/2010 16h02, última modificação 22/10/2010 11h36
Uma das piores coisas que podem ocorrer a um banco central é ser dominado pelo pensamento único de uma "escola"
Instituições confiáveis

Uma das piores coisas que podem ocorrer a um banco central é ser dominado pelo pensamento único de uma "escola". Por Delfim Netto. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

No dia seguinte à realização do primeiro turno das eleições, tive a oportunidade de participar do Brasil em Debate, na tevê da Câmara Federal, conduzido pelo respeitado jornalista Tarcísio Holanda, competente analista da cena política e da evolução da economia brasileira. O programa contou com a participação lúcida e inteligente do economista e professor Roberto Piscitelli, da Universidade de Brasília.
No dia 3 de outubro, tivemos a manifestação da solidez do regime democrático, na forma pela qual estamos aplicando os preceitos da Constituição de 1988 e construindo instituições confiáveis. O eleitor expressou livremente e com tranquilidade seu ponto de vista, da forma como o fez nesses últimos anos e não deixou muitas dúvidas de que este será o clima para o segundo turno. É o ambiente que permite avançar na consolidação de uma sociedade republicana, regulada por uma Constituição que acolheu a preferência revelada dos brasileiros.

No campo da política econômica, o que se questiona é se há espaço para grandes mudanças, depois das eleições do dia 31. Minha convicção é de que ninguém vai querer piorar o que temos hoje, tentando reinventar a roda: temos uma política canônica, um Estado indutor que se comporta de forma bastante satisfatória e estamos produzindo um equilíbrio fiscal razoável, com uma redução lenta da relação dívida/PIB.

Quem estiver lá vai querer, isso sim, é avançar na direção de ampliar a igualdade de oportunidades, que foi a grande conquista do governo Lula. Significa melhorar as condições para que os brasileiros possam construir as suas vidas livremente, erguer suas casas, receber os benefícios do saneamento, da energia e demais serviços essenciais de um Estado que entenda que esse é o crescimento que todos desejam.

Tivemos até agora um comportamento bastante bom na administração dos problemas da economia, mas é preciso atentar para o fato de o mundo lá fora mudar muito depressa, e os ventos a favor que vinham do exterior estão se virando contra. Significa que precisamos nos organizar também com rapidez para enfrentar a ventania externamente. Temos, internamente, todas as condições para continuar com o mercado bastante ativo e sólido, mas precisamos aperfeiçoar as instituições que tratam da economia, cuidar que o Estado indutor seja amigável com o setor privado e que ajude a acelerar o crescimento.

Algumas coisas poderiam ter sido feitas um pouco melhor. O professor Roberto Piscitelli fez duas observações muito importantes sobre o papel da taxa de juros como instrumento da sobrevalorização do real, que causa prejuízos imensos ao setor industrial e às exportações. E também sobre a oportunidade de se discutir alguma alteração na estrutura do Copom, nos mecanismos de seleção e no processo de homologação de seus membros.

O professor tem toda razão. A taxa de juros pune o Tesouro Nacional e toda a economia. O próximo governo vai ter de prestar muito mais atenção a esse fato do que se prestou até agora. Nós tivemos uma política monetária razoável, mas o custo social da política poderia ter sido bem menor se houvesse menos dogmatismo. Hoje, é o próprio Banco Central que revê a sua posição, reconhecendo que a taxa de juro real de equilíbrio no Brasil é menor do que aquela que indicam os “cientistas” do mercado financeiro, o que revela que há, em marcha, um aperfeiçoamento da política monetária. Talvez por causa da mudança recente que houve na diretoria do BC.

A outra observação é sumamente importante: uma das piores coisas que pode acontecer a um banco central (e seu Conselho de Política Monetária) é ser dominado pelo pensamento único, território de uma determinada “escola” que aumenta, em primeiro lugar, a arrogância e, em segundo, a certeza de que são “portadores da verdadeira ciência”.

É preciso incorporar não só diferentes escolas, mas profissionais de altíssima qualidade, vindos das várias regiões do País, cujas visões correspondam à diversidade social e econômica que é parte de nossa maior riqueza.

O cidadão que tem lugar no Copom precisa saber que está com um instrumento poderosíssimo que controla o bem mais importante do mundo para os seus conterrâneos, o emprego. Todos têm o direito de saber se, afinal, a decisão foi correta ou se ela poderia ter sido melhor. A fórmula adequada para se chegar a isso é permitir o pensamento múltiplo, que forneça a visão da realidade física das diferentes origens geográficas do território brasileiro.