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Inflação recorde em janeiro era esperada

por Celso Marcondes — publicado 08/02/2011 16h54, última modificação 08/02/2011 17h38
IPCA chegou a 0,83%. O ministro da Fazenda minimizou o impacto e o economista Paulo Daniel, da PUC-SP, em entrevista, tende a concordar com ele

O índice da inflação de janeiro - 0,83% - medido pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor), anunciado nesta terça-feira 8, foi o maior obtido desde abril de 2005, quando chegou a 0,87%. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, logo se pronunciou a respeito, ao dizer que já esperava o aumento, atribuindo-o ao aumento das commodities em todo o mundo, além da “pressão de janeiro”, tradicional no Brasil por conta dos transportes e a educação. Lembrou que em janeiro de 2010 aconteceu o mesmo, quando o IPCA chegou a 0,75%.

Para comentar o resultado e a reação do ministro, conversamos com Paulo Daniel, que é economista, mestre em economia política pela PUC-SP, professor de economia e editor do Blog Além de economia. Ele também dá a sua opinião sobre um eventual aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para as compras efetuadas com cartões de crédito no exterior.

CartaCapital: O ministro Guido Mantega não se mostrou surpreso com a inflação mais forte de janeiro, mas este é o maior resultado, pelo IPCA, desde abril passado. Acredita que não há motivos para preocupação?

Paulo Daniel: Primeiro, é importante destacar, desde a implantação do regime de metas de inflação, esse resultado para janeiro não é ruim. Basta observarmos a série histórica do IPCA, por exemplo; em julho e agosto de 2000, tivemos uma inflação de 1,61% e 1,31% respectivamente e uma inflação anual de 5,97% dentro dos limites da meta. Portanto, não há motivos para preocupação, mas sim de atenção.

É claro e notório que a maior parte da inflação está concentrada nos produtos alimentícios, portanto, enfrentamos uma inflação de custos, esse tipo de inflação não se combate, tão somente só, com aumento de juros.

Neste sentido, é justamente nesse ponto que o governo tem que atuar. Como? Aumentando o volume de crédito aos agricultores, ampliando o prazo de pagamentos e em alguns casos até isenção, concedendo subsídios, reduzindo impostos, com o objetivo dos produtos alimentícios chegar à mesa dos brasileiros (as) mais baratos.

CartaCapital: Ele também fala numa tendência ao arrefecimento nos próximos meses. Concorda com essa perspectiva?

Paulo Daniel: Sim é bastante possível seja avaliando o histórico dos índices de preços, seja avaliando a conjuntura econômica.

É importante dizer, não enfrentamos um risco de inflação. Aliás, uma inflaçãozinha de até um dígito demonstra que a economia está crescendo, se desenvolvendo, gerando empregos, há relações econômicas e comerciais acontecendo, o oposto da deflação.

Essa coisa de inercialidade da inflação, memória inflacionária é algo somente possível no mundo dos que são eternamente pessimistas ou daqueles que aproveitam momentos como esse para ganhar um dinheirinho, principalmente no mercado financeiro.

CartaCapital: Também o INPC cresceu - 0,34% em relação a dezembro - onerando as famílias que ganham de 1 a 6 SM. Acredita que este crescimento também foi normal, levando-se em conta o aumento nos preços dos alimentos causados pelas chuvas?

Paulo Daniel: A inflação de produtos alimentícios está fortemente ligada às intempéries, ou seja, seca, chuvas fortes, portanto, uma vez diagnosticada é hora de agir. Como afirmei anteriormente, o governo possui instrumentos de política econômica capazes de enfrentar esse problema.

CartaCapital: A Folha de S.Paulo aventa hoje a possibilidade do governo elevar de 0,38% para 4% a alíquota do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) que incide sobre as compras realizadas no exterior com cartão. O ministro desconversou sobre o assunto. Acha plausível esta medida?

Paulo Daniel: É uma medida que tende a reduzir o consumo no exterior. Entretanto, o núcleo do problema é a dita cuja taxa de juros. Enquanto não houver redução de juros, as medidas para defesa de nossa moeda serão interessantes e até importantes, porém, sem grande efetividade.

CartaCapital: Crê que outras medidas têm sido estudadas pelo governo para conter a inflação?

Paulo Daniel: Espero que sim. Mas nos últimos 16 anos, infelizmente, o único remédio tem sido o aumento dos juros. A Presidenta Dilma e sua equipe econômica são extremamente capazes de entender que esse remédio deve ser banido, pelo menos momentaneamente, por uma razão muito simples, não estamos diante de uma inflação de demanda única e exclusivamente.

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