Você está aqui: Página Inicial / Economia / Inflação e preços agrícolas

Economia

Contracorrente

Inflação e preços agrícolas

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 23/02/2011 16h48, última modificação 23/02/2011 16h48
O G-20 reúne-se em Paris cercado pelo espectro da estagflação, fenômeno que se acreditava sepultado nos anos 1980. Por Luiz Gonzaga Belluzzo

O G-20 reúne-se em Paris cercado pelo espectro da estagflação, fenômeno que se acreditava sepultado nos anos 1980
Na Inglaterra, enquanto o crescimento da economia se arrasta nas imediações do zero a zero, o índice de preços ao consumidor de janeiro chegou aos 4%, valor anualizado. A meta estabelecida para este ano é de 2%. Há quem projete a inflação da rainha Elizabeth correndo a 5% no fim do ano.
O salto no índice que mede a variação do custo de vida dos cidadãos trabalhadores da Pérfida Albion está claramente relacionado com o choque de preços deflagrado pelas commodities, além da desvalorização da libra e de uma elevação do Value Added Tax (VAT) de 20%, inteligente decisão do mauricinho David Cameron para reduzir o déficit do Tesouro. Conforme a Danske Research, o índice CRB, composto pelas commodities de maior peso no mercado internacional, subiu 86% em dólar e 88% em euros, entre fevereiro de 2010 e fevereiro de 2011.
Como é de praxe e de lei, o presidente do Banco da Inglaterra, Mervin King, enviou uma carta ao chanceler do Tesouro, George Osborne, para comunicar o acontecimento e advertir o governo para uma provável elevação da Bank Rate. King escreveu na carta ao chanceler Osborne: “O Comitê de Política Monetária julga que a tentativa de fazer a inflação voltar rapidamente para a meta corre o risco de gerar indesejável volatilidade no PIB e aumentaria as chances de jogar a inflação para baixo da meta no médio prazo”. Diante do choque de commodities, os analistas não descartam uma elevação dos juros nos próximos meses, mas advertem para as condições do mercado de trabalho, onde sobra gente a procurar emprego. Diz um deles que, se os salários estão “comportados”, e uma vez superados os fatores mencionados, a inflação fatalmente cairá com o prestimoso auxílio da perda de poder de barganha dos trabalhadores e da redução do seu poder de compra.
Semanas atrás, Paul Krugman, em sua coluna no New York Times, jogou a responsabilidade do aumento de preços às condições climáticas, que sem dúvida desempenham um papel importante na contração da oferta de muitos produtos, entre eles o trigo do pão nosso de cada dia. Krugman rejeitou, no entanto, as hipóteses que, além dos fatores climáticos e do aumento da demanda de alimentos e de outras matérias-primas nos emergentes, apontavam a expansão da liquidez global e suas taxas de juro ínfimas, que botam fogo na especulação com as mercadorias transfiguradas em ativos. Krugman, assustado com os falcões da austeridade fiscal e monetária que rondam sinistramente a convalescente economia norte-americana, chuta para escanteio a hipótese das “distorções” causadas pelas políticas anticíclicas e pelos derivativos na volatilidade e na elevação dos preços.
Os adversários da crítica ao papel dos derivativos afirmam que operadores financeiros não intervêm diretamente nos “ativos subjacentes” negociados nos mercados a termo, ou seja, nos mercados físicos de matérias-primas. E o volume de transações nos mercados a termo é muito superior àquele transacionado nos mercados à vista, com fracas interações entre eles.
O economista Michel Aglietta argumenta que essa visão parte de uma interpretação errônea da transmissão do movimento de preços entre os mercados de derivativos de matérias-primas e os mercados “físicos”. O ponto de vista dos defensores da escassez tem alguns elos fracos: a estrutura de mercado dos produtos agrícolas é fortemente concentrada, governada por monopólios e monopsônios com enorme poder de administrar preços e quantidades. Portanto, se um mercado está em “desequilíbrio” por causa de um choque de oferta, o movimento inicial é amplificado pela formação de posições a termo “compradas” pelos caçadores de tendências. A transmissão para os mercados à vista é efetuada por meio das grandes empresas que tratam de acumular estoques tão logo antecipam a alta de preços deflagrada nos mercados a termo.
O G-20 reúne-se em Paris assombrado pelo espectro da estagflação, fenômeno que os economistas e policy makers imaginavam ter sepultado no início dos anos 80 do século XX, sob o peso das taxas de juro de Paul Volker. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, propõe um arranjo internacional, com formação de estoques reguladores administrados por produtores e consumidores para estabilizar os preços das commodities. Brasil e Estados Unidos chiaram contra a proposta.
O Brasil, assim como o resto do mundo, não escapou das vicissitudes do choque de commodities. Ele adveio num momento em que a demanda doméstica estava carregando a economia brasileira para as proximidades dos 8% de crescimento. Há claros sinais de pressão no mercado de trabalho. O preço dos serviços mostra tendência à aceleração. As medidas de restrição à expansão do crédito tomadas pelo Banco Central e o anúncio do Ministério da Fazenda a respeito da política fiscal, assim como a definição do salário mínimo estão, em minha modesta opinião, na direção correta.