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Economia

Inflação

Infelizmente, nenhuma novidade

por Paulo Daniel — publicado 22/04/2011 11h22, última modificação 22/04/2011 11h31
Ao elevar os juros básicos da economia para 12% ao ano, o Banco Central desagradou o chamado lado real da economia e o mercado financeiro

A decisão do Banco Central (BC) em colocar os juros básicos da economia no patamar de 12% ao ano, foi de tentar contemporizar os diversos agentes econômicos, tanto do chamado lado real da economia, como do mercado financeiro, entretanto, desagradou ambos.

A justificativa do BC se mantém; combate à inflação, entretanto, mesmo com aumento do compulsório, aumento da taxa de juros o processo inflacionário que é mínimo, persiste, por uma razão muito simples, este “fenômeno” não é única e exclusivamente nosso, mas global. Portanto, é preciso mais do que prudência ao afirmar que vivemos um surto inflacionário. Não vivemos!

Outro ponto importante a ser destacado é que, a característica da inflação não é de demanda, por dois motivos; os produtos importados estão invadindo o mercado brasileiro e a capacidade produtiva brasileira está em torno de 80%, ou seja, temos capacidade de ofertar mais produtos sem necessariamente realizar novos investimentos e, por sua vez, sem inflação, o que nos mostra que aumentar taxa de juros não resolverá o problema.

Nessa última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), o mercado financeiro esperava um aumento de 0,5 ponto percentual. Neste sentido, é importante salientar e sermos sinceros com nós mesmos, ao mercado financeiro não existe preocupação concreta com a inflação, isso é somente um pano de fundo, a preocupação concreta é única e exclusivamente com a sua renda, portanto, ao aumentar os juros aumenta sua renda, por isso, a ladainha insana de só, tão somente só, de aumentar os juros.

Ao aumentar os juros, a tendência de aumentar o fluxo de capitais é enorme, os rentistas internacionais estão ávidos a aportarem não somente em um porto relativamente seguro com sua abundância de dólares, escolhem preferencialmente um país que possuí livre mobilidade de capitais, ou seja, que podem entrar e sair quando bem quiser, para esses é praticamente um paraíso, só não o é, pois tem que pagar uma taxaçãozinha que diminuí sua renda, mas mesmo assim, perante o que o resto do mundo oferece, ainda é uma baita de uma remuneração.

E a economia real como vai ficando? Com a enxurrada de dólares o câmbio vai se valorizando, portanto, alguns ficam alegres e felizes por estarem viajando ao exterior, comprando produtos importados, além do que, dificulta-se a exportação, com riscos concretos de desindustrialização e desemprego, e até outros mais ousados afirmam que a nossa moeda é respeitadíssima no mundo.

Com a maior taxa de juros real do mundo, aos poucos, mesmo com as importantes medidas do governo, estamos nos tornando a bola da vez, no sentido de que, em algum momento esse capital sairá. E que controle teremos? Até o momento nenhum. Com isso, os reflexos serão o aumento do crônico problema de deficit em transações correntes. Esse será o pior cenário e não impossível de se ocorrer. Até lembra momentos da década de 80.

Aí está a fragilidade do dito cujo tripé política fiscal subordinada a política monetária e câmbio valorizado iniciado com o Plano Real. A inflação amainou com um alto custo à sociedade brasileira, ao mesmo tempo, corremos um altíssimo risco de desindustrialização, é importante frisar, não se pode querer um país desenvolvido sem indústria.

Infelizmente, talvez, faltou ao BC confiar no próprio taco, seria muito mais prudente, ao menos, manter a taxa de juros e aguardar os efeitos das ditas políticas macroprudenciais iniciadas no final do ano passado, queiram o não, de certa maneira, Meirelles vai fazendo escola…

*Publicado originalmente em Além de Economia.