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Economia

Análise / Paulo Yokota

Hipóteses sobre as prioridades para o curto prazo

por Paulo Yokota — publicado 17/03/2014 03h39
Temos uma tendência a dar maior prioridade para os objetivos dos quais podem decorrer baixas taxas de poupança, que dificultam elevados investimentos e mais pesquisas

Características brasileiras como da baixa taxa de poupança e a dificuldade de visões de prazos mais longos intrigam os analistas econômicos mesmo locais, principalmente quando comparadas com muitas outras do exterior. O Brasil dispõe de abundantes recursos naturais nem sempre bem aproveitados, uma população de dimensão, miscigenada e criativa, com uma grande disposição de trabalho e alegria de viver, que passou por uma melhoria recente de sua distribuição de renda que não se observa em outras economias. Somos admirados por estas qualidades, mas parece que existem espaços para aperfeiçoamentos.

Temos uma tendência para dar maior prioridade para os objetivos de curto prazo da qual pode decorrer a sua baixa taxa de poupança, que dificultam elevados investimentos que poderiam resultar em mais pesquisas, aumento das inovações e maior eficiência de sua economia, que provocaria um desenvolvimento econômico, político e social mais acelerado, como já tivemos em alguns períodos passados.

Podem ser levantadas muitas hipóteses sobre as causas destes comportamentos, como a falta dos desafios a serem enfrentados, por exemplo, pelos invernos mais rigorosos. As populações das regiões gélidas precisam armazenar parte do que produziram até o outono por uma questão de sobrevivência, ainda que não haja um determinismo geográfico. Os que passaram por muitas guerras sabem que precisam poupar, pois sempre existem períodos difíceis com muitas incertezas. Para superarem estas e outras limitações muitas coletividades reuniram os esforços dos seus membros para efetuarem investimentos que reduzissem suas vulnerabilidades, muitos que exigiam anos de trabalhos estimulando o hábito de pensarem nos projetos de longo prazo. São situações que não ocorreram com frequência neste país.

No Brasil, Pero Vaz de Caminha já registrava que era uma terra onde plantando tudo dá, mas era necessário plantar, pois a simples coleta numa natureza dadivosa não seria suficiente para o bem estar de toda a população, mesmo que possível num curto prazo. Entre o plantio e a colheita existe um tempo indispensável para o trabalho da natureza.

Hoje, em alguns países como o Japão e na Europa, a previdência social que já não era generosa está sendo reduzida diante do substancial aumento de sua população idosa, difícil de ser sustentada por uma população ativa relativamente menor. E os dados demográficos estão entre os mais estáveis de um país. Os hábitos das poupanças individuais ou familiares acabam sendo forçados e indispensáveis, para evitar riscos de uma velhice dependendo da assistência pública sempre precária.

No âmbito público, desde o término da Segunda Guerra Mundial, vieram sendo estimulados planos de prazo mais longo, indicativos ou fortemente influenciados pelo governo, dependendo da ideologia política optada pelo país, quando havia uma forte crença no planejamento. Também vieram sendo aperfeiçoadas as técnicas de elaboração de grandes projetos e as avaliações de suas viabilidades econômicas, reduzindo os improvisos ou as influências das vontades das autoridades de plantão.

Muitos programas amplos e complexos que envolvem considerações multidisciplinares, pois procuram atingir diversos objetivos simultaneamente, exigindo cuidados sistêmicos dados às interelações dos mais variados fatores que sempre tendem a serem simplificados pelos técnicos. Ações políticas de toda a natureza acabavam interferindo nestes programas, quando não ocorrem também as mudanças das preferências da população.

Observando o que é feito em muitas partes do mundo, notam-se exemplos bem sucedidos que merecem atenção. Evidentemente alguns deles podem ser adaptados para as condições brasileiras que apresentam particularidades importantes, como em qualquer país. O efeito demonstração sempre foi utilizado no processo de desenvolvimento, tanto no setor público como privado.

Não parece necessário inventar a roda a toda a hora. As experiências internacionais, com seus sucessos e fracassos podem abreviar a acumulação dos conhecimentos para que os objetivos perseguidos por uma nação, utilizando os instrumentos também conhecidos e todos os recursos disponíveis, possam permitir a escolha de uma estratégia mais eficiente para a suas obtenções. Com a flexibilidade indispensável para o mundo que apresenta constantes mudanças. Nem tudo que se deseja pode ser alcançado simultaneamente, mas sempre é possível conseguir-se melhorias, mesmo numa coletividade que apresenta preferências que não são uniformes, numa convivência democrática até com os que pensam de formas diferentes.