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Novo calote?

Grécia poderá copiar exemplo argentino

por Brasil Econômico — publicado 23/06/2011 16h46, última modificação 23/06/2011 17h04
Pressionado pelo peso de suas dívidas, o país depende dos empréstimos da União Europeia e do FMI. O PIB deve cair mais 3% este ano

Por Felipe Peroni*  
Assumir uma moratória foi a saída encontrada pela Argentina para recuperar o crescimento em meio à crise de dívida. A situação grega, no entanto, é mais complexa, e o país não tem opções.

"A Grécia pode passar por uma crise bem mais profunda que a Argentina", diz o economista e ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman.

O governo da Grécia conseguiu sobreviver ao Parlamento esta semana, em votação apertada. Com a vitória, aumentam as chances de que o primeiro ministro, George Papandreou, aprove as medidas de austeridade exigidas pelas autoridades europeias.

Pressionado pelo peso de suas dívidas, o país depende dos empréstimos da União Europeia (UE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). O PIB da Grécia recuou 4,5% em 2010, e deve cair mais 3% este ano.

A situação vivida pela Argentina é muito parecida com o caso grego. Pressionada por um alto endividamento e com sua moeda atrelada ao dólar, o país entrou em recessão no fim da década de 90.

Após assumir a moratória, em dezembro de 2001, amargou uma retração de 11% em sua economia. Contudo, nos anos seguintes, a recuperação foi rápida. Segundo Schwartsman, uma das principais diferenças é que o governo da Grécia mantém uma pior situação fiscal.

"Mesmo em 2001, no auge da recessão, o governo nacional argentino ainda apresentava um modesto superávit primário, da ordem de 0,5% do PIB. Ou seja, no momento em que parou de pagar a dívida o governo ainda tinha acesso a um fluxo de recursos suficiente para pagar suas demais despesas."

Esse não é o caso da Grécia. Em 2010, o déficit público atingiu 10,4% do PIB, e o FMI exige que a cifra se reduza a 7,5% do PIB este ano.

"Se a Grécia parar de pagar a dívida, teria, em tese, que tomar recursos emprestados para pagar as outras despesas. Quem, porém, irá emprestar a um governo que acaba de anunciar não ter condições de honrar sua dívida?"

O alto déficit fiscal não é a única dificuldade grega. Na Argentina, após o calote das dívidas, o câmbio foi desvalorizado e o comércio exterior reanimou a economia.

"Basicamente o que impulsionou a recuperação foi a desvalorização do câmbio", explica o argentino Osvaldo Cado, economista da gestora de recursos QFD (Quantitative Financial Developments).

"A recuperação da Argentina arrancou via exportações, através da melhora significativa da rentabilidade dos setores de commodities e derivados, e pequenas e médias empresas", diz.

Já para Grécia, desvalorizar o câmbio implicaria sair da Zona do Euro e reestabelecer o dracma, sua moeda anterior. Assim, apenas um calote não garantiria o crescimento nos próximos anos.

Schwartsman explica que, se houver a moratória e a moeda comum for mantida, o efeito negativo nos preços e salários minaria a retomada do crescimento.

"Se a Grécia não pagar sua dívida, mas decidir continuar na área do euro, a depreciação da taxa de câmbio continuará ocorrendo pela deflação, com reflexos negativos sobre crescimento", diz.

Por outro lado, a saída do euro teria outros custos políticos e econômicos. "O que ocorre com os bancos, contratos, estas questões podem paralisar a economia por meses a fio", explica.

"Uma saída para a Grécia seria que os países centrais, como Alemanha e França, assumam esses problema e comecem a emitir euros para financiar os países endividados, sem juros", diz Cado. Mesmo assim, o economista diz que a renegociação das dívidas seria necessária, além de um ajuste gradual do gasto público.

"A alternativa a isso seria uma saída desordenada", diz. Para Cado, sem a ajuda da Europa, a Grécia terá que abandonar o euro, e decretar uma moratória completa da dívida pública e privada. Entretanto, os países centrais da Zona do Euro não dão sinais de que vão assumir o peso da dívida grega.

Também para Schwartsman, a reestruturação da dívida é certa. "Não se trata de ser a melhor alternativa, simplesmente porque não hã outra", resume.

"Eu tendo a acreditar que a reestruturação passa também pela saída da área do euro, mas tenho menos convicção a respeito disso do que acerca da reestruturação em si".

*Matéria originalmente publicada em Brasil Econômico