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Governo Temer começa operação otimismo, mas...

por André Barrocal publicado 26/08/2016 10h36, última modificação 26/08/2016 11h52
Mercado de trabalho breca consumo; juros do BC, ociosidade e dívida das empresas freiam investimentos; e o cenário externo é incerto
Beto Barata / PR
Eliseu Padilha, Michel Temer e Henrique Meirelles

Eliseu Padilha, Michel Temer e Henrique Meirelles: otimismo nas palavras, mas a realidade parece desmenti-las

O governo ensaia uma tentativa de vender otimismo. Após a medalha de ouro do Brasil no futebol olímpico, o presidente interino Michel Temer disse no Twitter ser “hora de nos reerguemos com a grandeza do nosso” País, enquanto o chanceler José Serra apontava “mais um fator para melhorar a autoestima brasileira”.

Diante da alta da produção industrial, da Bolsa de Valores e da confiança de consumidores e empresários, esta última registrada em pesquisas, o Ministério da Fazenda subiu a previsão de crescimento da economia em 2017, de 1,2% para 1,6%. Em passagem pela Câmara dos Deputados na quarta-feira 24, o ministro Henrique Meirelles estava animado.

Mas será que a situação justifica sorrisos? “Esse otimismo é essencialmente político. Muito mais uma operação de marketing do que realidade. Os meios de comunicação têm ajudado nisso”, diz Júlio Miragaya, presidente do Conselho Federal de Economia. “O único fato novo que temos é um presidente mais de acordo com o mercado financeiro.”

Desde a ascensão de Temer, o “mercado” dá retaguarda ao prenúncio de novos tempos, embora a demora do governo em abraçar o arrocho fiscal já cause certa inquietação no setor. Uma atitude de torcedor, talvez. Enquanto Meirelles debatia na Câmara, o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira publicava um artigo no jornal Valor Econômico intitulado “O fundo do poço ainda está distante”.

A seleção olímpica de #futebol conquista #ouro inédito em momento histórico do país. Hora de nos reerguermos com a grandeza do nosso #BRA!

— Michel Temer (@MichelTemer) 20 de agosto de 2016

O Brasil mereceu a vitória contra a Alemanha. Grande campeão olímpico de futebol! Mais um fator para melhorar a autoestima brasileira! #BRA

— José Serra (@joseserra_) 20 de agosto de 2016

Mesmo no sistema financeiro, há quem veja nuvens cinzas, no lugar do arco-íris. É o caso de André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, a calcular uma expansão do Produto Interno Bruto (PIB) no ano que vem de no máximo 0,5%.

Para ele, não haverá grandes estímulos à atividade econômica. A renda cai e o desemprego sobe, fatores de contenção do consumo. O investimento por ora não será de grande magnitude, devido à ociosidade das fábricas. Isso quer dizer que por um tempo é possível aumentar a produção sem tirar dinheiro do bolso.

Do lado externo, a tendência de valorização do real afetará a balança comercial, ou seja, resultará em superávit abaixo das expectativas. Já a elevada liquidez internacional – excesso de dólares pelo mundo – tende a preferir o porto-seguro dos Estados Unidos assim que o Banco Central de lá iniciar a esperada elevação do juro, em vez de vir ao Brasil.

Além disso, acrescenta Perfeito, o ajuste fiscal prometido por Brasília não tem como ser atingido só com corte de despesas, corte este que em si mesmo atrapalha avanço do PIB, ao retirar recursos da praça. “Vai ser preciso aumentar imposto, o que sempre tem um efeito ruim para a economia”, diz.

Motor da demanda doméstica, o mercado de trabalho tão cedo não se recupera, na avaliação de Clemente Granz Lúcio, diretor do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócioseconômicos (Dieese).

No primeiro semestre, a taxa de desemprego medida pelo IBGE estava em 11,3%, três pontos percentuais acima da verificada um ano antes. Em julho, foram fechados 94 mil postos de trabalho com carteira assinada. A renda média dos trabalhadores caiu 1,3% este ano. “Não há nada que indique uma situação positiva em 2016 e 2017”, afirma Lúcio.

Em um almoço na Câmara de Comércio França-Brasil em São Paulo em meados de agosto, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, se mostrou cético. Para ele, já estará de bom tamanho se em 2017 o PIB acelerar algo em torno de 1%. A ociosidade medida pela CNI este ano atinge níveis recordes, 36% no último cálculo.

A ociosidade não é a única trava aos investimentos tidos pela Fazenda como carro-chefe da economia em 2017. O empresariado nunca esteve tão endividado, segundo um estudo recém-concluído do economista Felipe Rezende, professor da Hobart e William Smith Colleges, nos Estados Unidos.

Em um debate no Senado brasileiro há duas semanas, ele apontou uma crise de solvência do setor privado já a se espalhar pelo sistema financeiro. As empresas, disse, não teriam mais onde cortar custos para arrumar os balanços. “Daí a necessidade de o setor público ter uma política anticíclica, para justamente compensar essa queda dos gastos privados”, afirmou.

O que não acontece no plano fiscal de Temer e Meirelles. A ideia é oposta: controlar despesas, inclusive com o congelamento de verba de saúde e educação por 20 anos. Se não for possível equilibrar as contas públicas só com tesouradas, como crê André Perfeito, o alto juro do Banco Central não cairá.

Em comunicado recente, o BC sinalizou que não mexerá na taxa enquanto não houver equilíbrio fiscal. Outra trava aos investimentos produtivos.