Você está aqui: Página Inicial / Economia / Golpes na economia mundial

Economia

Caos monetário

Golpes na economia mundial

por Envolverde — publicado 02/12/2010 17h40, última modificação 02/12/2010 18h18
As últimas semanas viram o surgimento de um caos monetário, que representa uma nova ameaça para as perspectivas de recuperação econômica mundial

Por Martin Khor*

Genebra, Suíça, dezembro/2010 (IPS/South Center) – As últimas semanas viram o surgimento de um caos monetário, que representa uma nova ameaça para as perspectivas de recuperação econômica mundial. Alguns dos países mais importantes tomam medidas para desvalorizar suas moedas, a fim de ganhar vantagens comerciais. Se o valor da moeda de um país cai, seus produtos de exportação serão mais baratos e isso aumentará a demanda internacional. Por outro lado, encarece as importações no mesmo país, o que incentivará a produção local e melhorará a balança comercial.

Contudo, os países que sofrem por causa destas políticas podem ir “à desforra”, desvalorizando também suas moedas ou colocando barreiras ou, ainda, altas tarifas para importação. Isto pode levar a uma série de desvalorizações competitivas, como ocorreu nos anos 1930, precipitando uma contração do comércio mundial e uma prolongada recessão. A situação atual é complexa e compreende pelo menos três questões interligadas.

Primeira: os Estados Unidos acusam a China de manter o yuan em um nível artificialmente baixo, o que, de acordo com Washington, causa seu enorme déficit comercial com Pequim. Um projeto de lei norte-americano solicita a aplicação de tarifas extras aos produtos chineses, enquanto a China assegura que isto seria contrário às normas da Organização Mundial do Comércio (OMC), e que uma forte valorização do yuan seria desastrosa para sua economia e não corrigiria o déficit norte-americano.

Segunda: Washington tenta desvalorizar o dólar mediante nova rodada de “expansão quantitativa”, pela qual o Banco Central gastará US$ 600 bilhões para comprar bônus do governo e outras dívidas. Isto incrementará a liquidez no mercado, reduzindo as taxas de juros de longo prazo e, segundo se espera, contribuiria para a recuperação econômica.

Isto coloca os Estados Unidos na situação de serem acusados de provocar uma desvalorização competitiva. Além disso, a nova liquidez se somaria a uma onda de capitais que emigram dos Estados Unidos, onde os rendimentos são muito baixos, para alguns países em desenvolvimento e emergentes. No passado, essas ondas de “dinheiro quente” foram bem-vindas pelos países receptores. Mas as nações do Sul aprenderam com as más experiências anteriores, quando repentinas entradas e saídas de ingentes capitais causaram sérios problemas.

Alguns exemplos são:
- A afluência de capital conduziria a um excesso de dinheiro no país que o recebe, aumentando a pressão sobre os preços ao consumidor, alimentando as “bolhas de ativos” ou aumentando os preços das casas e do mercado de valores. Essas bolhas cedo ou tarde explodirão e causarão um grande dano;
- A afluência de capitais estrangeiros faria com que a moeda do país receptor se valorizasse significativamente com relação a outras moedas. Nesse caso, as autoridades financeiras deveriam intervir no mercado para enfrentar a valorização, o que encareceria as exportações nacionais;
- As repentinas entradas de capital também poderiam se converter igualmente em repentinas saídas de capital, quando as condições globais mudarem, como se viu na crise asiática de 1997. Isto pode levar a uma desordem econômica, incluindo uma forte desvalorização monetária, restrição de crédito, dificuldades na balança de pagamentos e recessão.

Recentemente, o International Herald Tribune alertou que Wall Street está comprando avidamente os ativos de economias emergentes e pediu aos países em desenvolvimento que “prestem muita atenção e considerem o controle de capitais para reduzir sua afluência”.

Terceira: alguns países já introduziram controles de capitais. O Instituto de Finanças Internacionais estima que US$ 825 bilhões fluirão para as nações em desenvolvimento este ano, uma alta de 42% com relação ao ano passado. O Brasil triplicou o imposto para os estrangeiros que comprarem bônus locais, a Tailândia fixou imposto de 15% sobre os juros e os rendimentos do capital sobre os bônus tailandeses, a Coreia do Sul anunciou que estabelecerá novos limites no mercado futuro e solicitou aos bancos que não concedam empréstimos em moeda estrangeira.

Por fim, existem temores de que, se o caos monetário ou a guerra de divisas não forem solucionados, logo o mundo deverá enfrentar uma onda protecionista, seja com barreiras alfandegárias ou mediante depreciações competitivas. Envolverde/IPS

*Martin Khor é diretor-executivo do South Centre ().

** Publicada originalmente na Envolverde