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Geringonças teóricas

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 04/08/2012 15h32, última modificação 06/06/2015 18h18
Curtimos agora as consequências do colapso financeiro. Esse desastre global juntou miopia, desmonte dos controles internos das instituições e cooptação dos reguladores

Indignado com a sucessão de fraudes nos mercados financeiros, o economista Randall Wray disparou um artigo devastador em seu blog na internet. As linhas e entrelinhas da peça poderiam ser sintetizadas na frase: “Somos controlados por ladrões”.

Nos anos 1980 e 1990, na academia e no debate público, eram poucos os que ousavam discordar das virtudes da liberalização e da desregulamentação financeiras, apresentadas como a forma mais eficiente de alocar os recursos. Quase em uníssono, os economistas acusavam o perecimento das velharias e ineficiências das políticas intervencionistas nos mercados de crédito e de capitais. Eram então incontáveis as referências à “disciplina dos mercados”: tremei governos gastadores, os mercados estão à espreita! No mundo das ideias, os acadêmicos se divertiam com a teoria dos mercados eficientes.

No deserto do real, o jogo era outro. Em 1995, o jornal The New York Times publicou uma série de reportagens sobre as origens políticas da desregulamentação financeira. Selecionei um trecho para informação do leitor de CartaCapital: “Num jantar em sala reservada do Clube 21, em junho de 1991, os executivos democratas mais importantes de Wall Street reuniram-se em uma mesa-redonda para uma série de sessões com aspirantes à Presidência. Um dos organizadores chamou o evento de ‘feira de gado elegante’. Eles sabatinaram um homem de pequeno salário, mas de grande lábia, e esse foi outro show em que o governador Bill Clinton jogou seu charme e ganhou medalha de ouro ao impressionar os executivos com sua propensão a abraçar os ideais de comércio e mercados livres.”

Nos Estados Unidos, os senhores das finanças fizeram lobby pesado para escapar dos constrangimentos do Glass-Steagall Act, criatura do New Deal. Desde os anos 1980, os bancos comerciais foram progressivamente liberados das cadeias legais que os aprisionavam às tediosas operações de empréstimos-depósitos. Decidiram aventurar-se nas terras inexploradas da desregulamentação financeira.

Ingressaram no terreno desconhecido da “securitização” de recebíveis de todos os tipos, em especial os baseados em empréstimos hipotecários, dívidas de cartões de crédito, mensalidades escolares, em suma, todo tipo de cash flow com alguma possibilidade de ser pago pelos devedores finais. Os bancos trataram de “empacotar” os créditos, os bons, os ruins, os péssimos e remover a “mercadoria” dos balanços, mediante a criação de Special Investment Vehicles. Vislumbraram o novo Eldorado.

A festa dos mercados de crédito e seus derivativos ia animada, os lucros cada vez mais gordos quando vieram à tona os cadáveres dos devedores NINJA (No Income, No Job and no Asset), vítimas e beneficiários dos empréstimos subprime. Nos primeiros sinais de turbulência, Chuck Prince, então CEO do Citigroup, desdenhou a gravidade da crise. “Enquanto a música da liquidez está tocando, a gente tem de dançar e nós estamos dançando.” A música parou, os prejuízos se avolumaram e Chuck Prince dançou, foi defenestrado.

A realidade cuidou de demonstrar aos recalcitrantes que os métodos e critérios de avaliação do risco calcados em geringonças teóricas – como a hipótese dos mercados eficientes – ajudaram a patrocinar, em escala gigantesca, a mais grotesca distribuição de recursos já observada na história do capitalismo. Foi absurda a concentração do crédito no financiamento ao consumo, e, sobretudo, no fomento à especulação imobiliária nos Estados Unidos e em boa parte da Europa.

Agora curtimos as consequências do colapso financeiro e econômico. Esse desastre global juntou miopia, desmonte dos controles internos das instituições e captura dos reguladores. O resultado dessas proezas não foi outro: a enxurrada de manobras fraudulentas, como a manipulação da Libor, a lavagem de dinheiro, ou seja, a completa “indisciplina dos mercados”.

Muitos pensadores haviam compreendido, no começo do século XX, que o sistema de crédito é uma arma potentíssima de controle e de “disciplina” da economia. Ele não é apenas um instrumento técnico, mas um instrumento político. Disse o economista e homem de mercado, Charles Morris, a respeito da crise recente: em uma economia monetária, o sistema financeiro é o Gosplan do capitalismo – controla e decide a alocação de recursos para o bem ou para o mal. Ainda assim, os conformistas de plantão tratam de exculpar as pirotecnias financeiras de responsabilidade nas desditas infligidas aos chamados PIIGS da Europa. Atribuem o desastre às imperfeições institucionais que presidiram a construção da moeda única. Tratam de ocultar que tais falhas decorrem de uma visão “livre mercadista”, ao mesmo tempo tola e interessada, da moeda e da finança.

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