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Crédito e renda

Finanças dos que vivem do trabalho

por Paulo Daniel — publicado 24/02/2012 11h04, última modificação 06/06/2015 18h58
É fato que há uma demanda de consumidores reprimida no Brasil, mas também é mais do que urgente os trabalhadores analisarem a utilidade de seu consumo

“Os trabalhadores gastam o que ganham; os capitalistas ganham o que gastam”. Esta hipótese teórica, levantada por Michal Kalecki, estabeleceu-se na mente de alguns economistas como sendo apenas uma constatação empírica. Por muitas vezes, equivocadamente, essa abstração é colocada como representativa de determinada época histórica, nos primórdios do capitalismo, antes dos grandes saltos tecnológicos na produtividade e das conquistas sociais dos trabalhadores. Mas, outras vezes, acham que é pura expressão da verdade, na medida em que seria a realidade.

Nos últimos anos, a realidade brasileira nos mostra que o consumo vem aumentado com bastante consistência, um dos responsáveis por isso, é a geração de emprego e aumento da renda, mas, novas e variadas formas de financiar o consumo daqueles(as) que vivem do trabalho podem estar comprometendo suas finanças.

No Brasil, a classe AB, com renda familiar a partir de R$ 4.807,00, foi a que mais cresceu proporcionalmente no governo Lula, de acordo com dados divulgados, em setembro de 2009, pelo economista Marcelo Neri, pesquisador do Centro de Políticas Sociais da FGV (Fundação Getulio Vargas).

Usando dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE, ele aponta que a faixa mais rica teve crescimento real de 37,1% no número de integrantes entre 2003 e 2008. O número de brasileiros na classe AB subiu de 13,3 milhões para 19,4 milhões, representando 10,4% do total da população. O crescimento nominal foi de 45%, mas, descontada a expansão da população, foi de 37,1%.

A classe mais numerosa, no entanto, é a chamada C (renda familiar entre R$ 1.115,00 e R$ 4.807,00), que, em 2008, concentrou quase metade da população (49,2%). No governo Lula, a classe C aumentou 31,1%, de 65,9 milhões para 91,8 milhões de pessoas. Segundo seus cálculos, quase 20 milhões de pessoas saíram da classe E (16% da população total), abaixo da linha da pobreza (renda familiar até R$ 768,00). No entanto, ainda havia 29,9 milhões nessa condição em 2008. Eram 49,3 milhões em 2003.

Houve redução na desigualdade no país. O crescimento econômico provocou migração das duas faixas de renda mais baixas (D e E) para as de cima. De acordo com os cálculos de Neri, a renda do trabalho foi responsável por 66,8% dessa queda, entre 2001 e 2008.

Com o aumento da renda e, ao mesmo tempo, aumento do crédito com juros altíssimos, a população brasileira atingiu níveis inéditos de consumo. Recentemente, muitos brasileiros compraram seu primeiro carro e melhoraram a qualidade de vida da família por meio da aquisição de confortos domésticos. Por exemplo, passou para 36% a fatia dos que têm carro (face a 30% em 2002), 65% a dos que contam com máquina de lavar roupa (56% em 2002), para 98% a dos que tem TV colorida (90% em 2002) e para 79% a dos que dispõem de aparelho de DVD (5% em 2002).

Para boa parte dos consumidores, cartão de crédito emitido por grande rede varejista é bem mais acessível que os empréstimos bancários. Acabou se tornando uma das únicas formas de gastar quando os financiamentos convencionais minguaram com a crise.

Mas, como nem tudo são flores, segundo dados do Banco Central do Brasil o número de brasileiros(as), cerca de 25 milhões de pessoas, que possuem dívidas acima de R$ 5.000,00 mais que dobrou nos últimos cinco anos. Para algumas dessas pessoas, isso significou o acesso, pela primeira vez, a crédito para aquisição da casa própria ou do primeiro veículo. Outros, no entanto, sofrem com o acúmulo de dívidas e as prestações não pagas.

É fato que há uma demanda reprimida no Brasil, mas, também, é mais do que urgente, principalmente aqueles(as) que vivem do trabalho, analisar a utilidade de seu consumo. Qualidade de vida não é possuir bens de consumo. Necessita-se ter consciência. Até que ponto se está apenas sofrendo o poder do marketing e a pressão do grupo ao qual se pertence antes de tomar decisões de compra de produtos supérfluos. Seguir a tendência, conjuntamente com a “manada”, justificando-se com base no comportamento coletivo, implode o orçamento pessoal.

Muitos trabalhadores(as) argumentam, com certa razão, que não investem porque “falta salário e sobra mês”, justamente por isso, é mais do que necessário o planejamento financeiro. O(A) trabalhador(a) não pode se dar o luxo de não importar com a segurança financeira. O “processo de habituação” deve ser dirigido a investimentos de longo prazo e não por objetos de consumo imediato. As crianças, geralmente, adquirem com os pais o “hábito de compra” e não o “hábito de investimento”. Educação financeira poderá mudar esse quadro.

Por fim, alguns livros de auto-ajuda financeira sugerem que o mundo real das finanças é simples e fácil de ser enfrentado, talvez esquecem que os(as) trabalhadores(as) não são os donos dos meios de produção, ou não possuem pai rico…