Economia

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Famílias contêm gastos mesmo com salário mínimo maior

por Gabriel Bonis publicado 07/03/2012 10h18, última modificação 06/06/2015 18h58
Pesquisa da FecomercioSP mosta aumento de apenas 1,5 ponto percentual na inadimplência entre dezembro e fevereiro deste ano, cinco vezes menor que no mesmo período do ano passado
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No mercado externo, a fuga para o dólar limita as captações de bancos e grandes companhias. Por aqui, as pequenas e médias empresas encaram o aumento do custo do dinheiro. Foto: Daniel Teixeira/AE

Entre dezembro de 2011 e fevereiro deste ano, os paulistanos apertaram o orçamento e tiveram um aumento de apenas 1,5 ponto percentual em seu endividamento, contra os 8,1% no período exatamente anterior. Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).

Um resultado incomum, pois neste período os consumidores costumam ter mais gastos devido a festas de fim de ano e dívidas com despesas em janeiro e fevereiro, como IPVA e matrículas escolares.

Segundo Júlio Sérgio Gomes de Almeida, doutor em economia e consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), os dados surpreendem e indicam um maior grau de organização da vida financeira das famílias da cidade. “O brasileiro tem fama de gastador, mas aprendeu com o cenário de apreensão do último ano.”

A pesquisa evidencia também que o aumento do salário mínimo para 622 reais por mês, a injetar 47 bilhões de reais na economia brasileira, ao menos no início de 2012 não está sendo gasto em compras. “As pessoas estão usando o 13º e o rendimento extra para fazer uma poupança e pagar as dívidas.”

Antonio Carlos Alves dos Santos, doutor em economia e professor da PUC-SP, enxerga um "resultado positivo" e relaciona a melhora na administração do orçamento familiar ao medo da inflação alta. “A memória de tempos passados pode ter influenciado os paulistanos.”

Na comparação entre janeiro e fevereiro deste ano, houve um aumento de apenas 0,4% no endividamento das famílias paulistanas, que atingiu 42,8%. Uma queda de 11 pontos percentuais para os 53,8% registrados no mesmo período de 2011.

Por outro lado, o número de famílias com contas atrasadas aumentou 1,6 pontos percentuais e atingiu 12,1%, apesar de estarem poupando mais e do aumento do salário mínimo. “Neste mês há um acumulo de pagamentos, por isso, esse avanço é pequeno. Se o nosso consumidor tivesse gastado dinheiro, a inadimplência teria aumentado muito mais”, destaca Almeida.

De acordo com a FecomercioSP, cerca de 48% das famílias com contas em atraso têm vencimentos sem pagar há mais de 90 dias, 25,1% entre 30 e 90 dias e 22,5% até 30 dias. Além disso, 27,5% dos paulistanos estão com a renda comprometida com dívidas superiores a um ano e 21,8% entre seis meses e um ano.

Neste cenário, o consultor do IEDI acredita que o endividamento não tende a aumentar em ritmo acelerado nos primeiros meses do ano. “No segundo semestre pode haver uma mudança. Caso as condições da economia internacional melhorem, pode haver impacto no aumento do crédito e eventualmente na inadimplência.”

Souza defende, porém, que os indicadores são “otimistas” em relação ao aumento do consumo. “Houve uma elevação significativa do piso salarial, a inflação no primeiro semestre deve estar em queda e o período de maiores gastos já passou. Por isso, o consumo doméstico deve se manter em um bom patamar.”

O professor ainda completa que o mercado doméstico é a melhor esperança para impulsionar o crescimento da economia brasileira no primeiro semestre. “Sem o consumo, teremos muitas dificuldades, porque a indústria não apresentou melhora, enfrenta dificuldades cambiais e a baixa competitividade.”

Vilões

O cartão de crédito é o principal tipo de dívida acumulada pelas famílias paulistas. A opção foi utilizada por 67,5% dos 2,2 mil entrevistados, uma queda em relação aos 75% de janeiro.

Para Almeida, as famílias paulistanas não devem utilizar o cartão de crédito para gastar agora e pagar mais para frente. “O Banco Central adotou medidas de restrição no setor e não vai haver forte possibilidade de aumento destes gastos como no ano passado."