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Economia

Crise do Euro

Falta “cair a ficha”

por Delfim Netto publicado 23/12/2011 09h00, última modificação 06/06/2015 18h57
No passar dos anos houve um crescimento desigual da produtividade e dos salários dentro de cada país, enquanto as moedas se desvalorizavam (ou valorizavam) em relação ao euro.
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Merkel e Sarkozy deixam o continente numa encruzilhada entre capitalismo e democracia. Foto: Lionel Bonaventure/AFP

Ainda há muita divergência (e desconhecimento) sobre as origens dos problemas que ameaçam a sobrevivência do sistema do euro. Ele foi uma concepção notável, conduzida por lideranças convencidas de que só a união política e uma forte integração econômica permitiriam enterrar “para sempre” a herança dos mil anos de guerras no continente.

Hoje, com a vantagem do “futuro” ter se tornado “passado”, vê-se com mais clareza que sua construção esteve apoiada numa integração incompleta e sem regras suficientes, o que lhe deu uma grande fragilidade econômica.  Quando começou a funcionar o euro, pretendia-se que as taxas de câmbio das moedas europeias estivessem em equilíbrio. Talvez, mas no passar dos anos houve um crescimento desigual da produtividade e dos salários dentro de cada país, enquanto as moedas se desvalorizavam (ou valorizavam) em relação ao euro.

O deutsche mark foi a moeda que mais se desvalorizou dentro do euro, o que em dez anos deu à Alemanha uma vantagem extraordinária. Hoje ela tem um superávit em conta corrente de 150 bilhões de dólares, produzido pelo comércio com os demais países da Eurolândia. Essa conta só podia ser administrada com os parceiros contraindo dívidas do sistema financeiro privado, como realmente aconteceu.

A crise iniciada em2008, a recessão americanaque se seguiu e a fraqueza descoberta no sistema bancário mundial ajudaram a colocar luz sobre os problemas escondidos na estrutura econômica da Zona do Euro. Está claro que não foi apenas o descumprimento do regulamento de Maastrich que produziu o terremoto.

Para entender o que se passou nos últimos 12 anos (de1999 a2010) dentro do euro é preciso verificar o que aconteceu com as taxas de câmbio “virtuais”. Tomemos, inicialmente, o próprio euro que se valorizou 12% e, dentro dele, a dracma. Como se sabe, a melhor estimativa para a taxa de câmbio -real é a relação taxa cambial nominal/custo unitário do trabalho.

Nos 12 anos o custo do trabalho na Grécia cresceu 35%. Logo, a taxa cambial “virtual” da dracma foi reduzida de 340,75 para 252,41 (340,75/1,33), para todas as exportações e importações gregas provenientes da própria Eurolândia, valorizando-se “virtualmente” 26%.

Para as operações fora da Eurolândia, a dracma valorizou-se também12% no euro, ou seja, passou de 340,75 para 225,36 (252,41/1,12). Logo, a taxa “virtual” da dracma valorizou-se 34%. No período as exportações -físicas mundiais cresceram 82%, enquanto as gregas cresceram apenas 52%. É claro que é preciso cuidado com cálculos tão grosseiros para enfrentar um problema tão complexo, mas parece não haver dúvida sobre tal efeito.

Tomemos agora a Alemanha. No mesmo período a variação do custo unitário de trabalho foi de apenas 2%, de forma que a variação do valor do marco dentro do euro praticamente foi nula. Para operações fora da Zona do Euro, ele valorizou-se 12%. Suas exportações físicas cresceram 126% (ante 82% das exportações mundiais).

Desde1999, ainflação na Eurolândia manteve-se em torno de 2% ao ano, e o crescimento do PIB “per capita” -equiparou-se ao crescimento do PIB americano, próximo de 12%. Mesmo convivendo com os grandes desequilíbrios internos de suas balanças comerciais, a Zona do Euro tem praticamente equilíbrio com o resto do mundo e um déficit em conta corrente de 1% de seu PIB. Um resultado importante é que entre 1999 e 2011 o emprego total na Eurolândia aumentou em quase 12%, a despeito do imenso desemprego em alguns países membros, particularmente a Espanha.

A teoria econômica ensina (e a pesquisa empírica confirma) que a integração monetária não leva à homogeneização dos países. Pelo contrário, quando não há mais o risco do câmbio, as regiões se especializam (vantagens comparativas) e vão ficando cada vez mais diferentes. Quem se expande em bens e serviços não transacionáveis não temcomofinanciar seus déficits, a não ser reduzindo o seu crescimento ou aumentando o seu endividamento.

Os alemães parecem ter compreendido que o problema das dívidas foi criado pelo próprio funcionamento da dinâmica dos valores das antigas moedas nacionais dentro do euro.  Não “caiu a ficha”, contudo, para o fato de que a ausência de um sistema federativo impede a consolidação do sistema. A Eurozona não chega a ser uma área monetária ótima e não tem um banco central autorizado a funcionar como emprestador de última instância.