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Falcatruas made in Brazil

por Thomaz Wood Jr. publicado 05/07/2011 12h32, última modificação 05/07/2011 12h32
Tese analisa como fraudadores usaram “recursos simbólicos” (leia-se truques de imagem e comunicação) para atrair espertos e enganar incautos por um longo e lucrativo período.

A fascinação dos povos tropicais pelos estrangeiros é conhecida. Junto, caminha um mal disfarçado, o senso de inferioridade. Mas eis que surge um motivo para júbilo. Aqueles que invejavam os grandes feitos dos titãs das falcatruas – os Madoffs, Skillings-, Ebbers e Tanzis – não têm mais motivo para se sentir inferiorizados. Pois aqui, não deve mais haver dúvida, também temos grandes mestres e maquinações extraordinárias.

Em tese defendida na FGV-Eaesp, supervisionada por este escriba, Ana Paula Paulino da Costa estudou a fundo dois célebres casos brasileiros: Boi Gordo e Banco Santos. Um de seus objetivos foi entender como os fraudadores usaram “recursos simbólicos” (leia-se truques de imagem e comunicação) para atrair espertos e enganar incautos por um longo e lucrativo período.

Segundo a pesquisadora, “a fraude acontece na medida em que os agentes fraudadores identificam a oportunidade e tomam sucessivas decisões visando auferir vantagens ilícitas e gerenciar a mise-en-scène para acobertar tais decisões e seus efeitos”. No Brasil, não faltam casos emblemáticos. O setor bancário parece ser o líder em número e impacto, com o caso do Econômico, do Nacional, do Noroeste, do Santos e, recentemente, do PanAmericano. O setor dos agronegócios também foi pródigo, com o caso da Gallus, da Boi Gordo e da Avestruz Master. Outros setores e casos completam a elite fraudulenta: a célebre Encol, da construção civil, e a Daslu, da indústria de futilidades.

Conforme registra Ana Paula, a empresa Boi Gordo surgiu em 1988, com 310 cabeças de gado e 42 investidores. Em 1994, com a ajuda de uma assessoria de imprensa, começou o show de efeitos especiais. Dez anos depois de criada, a empresa contava com 130 mil cabeças de gado e 14 mil investidores. A Boi Gordo prometia uma rentabilidade muito acima das alternativas de mercado à época. O que atraía os investidores não era apenas a promessa de lucro fácil, mas a imagem de sucesso, idoneidade e confiança exibida pela empresa. A fraude ocorria pelo uso do dinheiro dos investidores para a compra de fazendas e enriquecimento ilícito. A fábrica de ilusões foi criativa e audaciosa. O controlador da empresa, Paulo Roberto de Andrade, de passado tortuoso, foi transformado em empreendedor visionário. A empresa chegou a ganhar prêmios corporativos. Não faltou nem mesmo a associação com um personagem de novela televisiva, cujo ator principal emprestou popularidade e legitimidade ao esquema. A falcatrua durou até o início dos anos 2000: a concordata foi pedida em 2001 e a falência aconteceu em 2004.

Apesar de ter ocorrido em um setor completamente diferente, o caso Banco Santos apresenta mais semelhanças com o caso Boi Gordo do que poderia imaginar um auditor. O Banco Santos foi formalmente constituído em 1989, como parte de uma complexa rede de empresas.

Conforme registra o trabalho de Ana Paula, o Banco Santos concedia empréstimos a empresas de médio e grande porte, e a pessoas físicas de alto poder aquisitivo. Diferenciava-se dos concorrentes por atender clientes com dificuldades de obtenção de crédito e pelas condições vantajosas que oferecia. Notabilizou-se também como um importante repassador de recursos do BNDES. Seu controlador, Edemar Cid Ferreira, seguiu os passos de seu par na Boi Gordo: criou uma imagem de empreendedor de sucesso e grande patrono das artes, tendo promovido grandes mostras culturais e sido presidente da Fundação Bienal de São Paulo. Para manter o esquema em marcha, operava uma complexa malha de operações financeiras, no Brasil e no exterior, com offshores, empresas de fachada e uma lógica de pirâmide, na qual eventuais resgates eram cobertos com novas captações. O sistema durou anos, até a liquidação pelo Banco Central em 2004.

As fraudes sempre fizeram parte do cenário corporativo. Períodos de exuberância econômica parecem multiplicá-las, mas não há ano em que não ocorra uma boa porção de casos. Aparentemente, os esforços realizados para prevenir e punir não têm sido suficientes para conter a criatividade desses endiabrados capitalistas.

Boi Gordo e Banco Santos partilham muitas características comuns: a glamourização dos empreendedores, a promessa de vantagens ou ganhos extraordinários, a atração de investidores “espertos”, o uso intensivo de expedientes de comunicação e de polimento da imagem, uma cultura organizacional agressiva e voltada para o risco, a atração de funcionários ambiciosos e o uso “criativo” da estrutura de governança e da contabilidade. Aos interessados em adivinhar quais serão nossos próximos casos notáveis, aconselha-se observar que empresas “de sucesso” apresentam essas mesmas características.