Você está aqui: Página Inicial / Economia / Eterno Nacionalista

Economia

Entrevista

Eterno Nacionalista

por Gerson Freitas Jr — publicado 18/08/2010 16h55, última modificação 23/08/2010 17h51
Carlos Lessa, o ex-presidente do BNDES, em entrevista exclusiva à CartaCapital critica o atual modelo de desenvolvimento e diz que a elite brasileira se destaca pela avidez em auferir ganhos. Leia aqui a íntegra da entrevista publicada na edição 608 de CartaCapital
Eterno nacionalista

Carlos Lessa, o ex-presidente do BNDES, em entrevista à CartaCapital, critica o atual modelo de desenvolvimento e diz que a elite brasileira se destaca pela avidez em auferir ganhos. A Gerson Freitas. Foto: Cleber Bonato

Carlos Lessa, o ex-presidente do BNDES, em entrevista exclusiva à CartaCapital critica o atual modelo de desenvolvimento e diz que a elite brasileira se destaca pela avidez em auferir ganhos. Leia aqui a íntegra da entrevista publicada na edição 608 de CartaCapital.

Aos 74 anos, o economista Carlos Lessa mantém intacto o discurso que carregou ao longo da vida. “Sou um velho nacionalista, que é nacionalista desde os 15 anos e continua tão nacionalista quanto antes”. Tal convicção o faz necessariamente um crítico feroz da atual política econômica brasileira. Para o ex-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Brasil continua a beneficiar os especuladores do mercado financeiro em detrimento da produção e do emprego. Torcedor do Olaria e apaixonado confesso pelo Rio de Janeiro, Lessa afirma que o Brasil dos juros altos estará condenado a repetir o modelo econômico primário-exportador da República Velha se não romper com a política atual.

Carta Capital: Por que os juros são tão altos no Brasil?
Carlos Lessa
: Essa pergunta admite duas respostas de naturezas muito diferentes. Há uma resposta técnico-formal e uma de natureza sócio-antropológica. Do ponto de vista técnico-formal, os juros são altos porque o Brasil adotou o modelo de metas de inflação Esse modelo pressupõe uma taxa de juros de equilíbrio, pela qual a economia pode crescer praticamente sem inflação. A partir do controle de certas variáveis macroeconômicas, principalmente monetárias, é possível arbitrar valores à inflação. E da inflação você deriva a taxas de juros e câmbio que são os dois itens fundamentais para estabelecer a política. Por que nossos juros são tão altos com esse modelo? Porque o Brasil optou pela política de resolver os problemas da balança de pagamentos atraindo capitais especulativos. Para isso, promete aos especuladores uma taxa de juros extremamente saborosa. Os juros altos desaquecem a economia e atraem uma avalanche de dólares para o País, o que valoriza o real. Os preços domésticos ficaram interligados aos preços internacionais. No que se valoriza o real, você segura a inflação.

CC: O modelo de metas de inflação é adotado em vários países que não possuem juros tão elevados...
CL
: Não mesmo, pois nem todos têm uma classe capitalista tão ávida por ganhos. Essa é a explicação sócio-antropológica. Pessoalmente, acho que nada nessa discussão é técnico. Há uma estrutura de ganhadores localizados, que ganham alucinadamente com esse modelo. São os bancos, os operadores do mercado financeiro. Os bancos fazem carteiras com títulos da dívida pública, mas não repassam a totalidade do rendimento para o correntista comum. Os operadores do mercado de capitais operam especulativamente com o câmbio e, por extensão, com todos os ativos que estão referenciados na relação entre real e dólar. Isso é um jogo. A evidência disso é que os grandes bancos privados brasileiros cresceram, em termos reais, 11% ao ano durante os anos FHC. E passaram a crescer 14% ao ano durante o governo Lula. Isso é uma loucura. O que cresce no Brasil são os rendimentos do não-trabalho.

CC: E os empresários?
CL
: Eles não se importam com os juros altos. Por que eu, empresário, vou me preocupar em investir se posso fazer aplicações financeiras espetaculares. Essa política tem o mérito de desestimular o investimento produtivo e converter a empresa, antes emissora de dívida, em aplicadora financeira. Ao fazer isso, a empresa reduz o emprego, pois não amplia a capacidade produtiva, e isso explica o comportamento rastejante da nossa economia. Eu diria que o sonho do empresário brasileiro é virar banqueiro. O empresário pode investir no exterior, até com financiamento do BNDES. A liberação total das transações cambiais faz com que os ativos e os empresários brasileiros tenham liquidez em moeda internacional. Então, o rico brasileiro não é um rico apenas em real. É também um rico em dólar.

CC: O que explica a inflação no Brasil?
CL
: Formalmente, numa inflação, há uma corrida simplificada de preços e salários. Os preços estão sempre se movendo à frente. A inflação é uma pedagoga, que ensina ao empresário a vender o estoque pelo preço estimado de reposição. Consequentemente, ele embute nas suas vendas a taxa de inflação que prevê no futuro e, ao fazer isso, converte a previsão em fato. Ao mesmo tempo, educa o trabalhador a lutar por encurtar o máximo possível o período entre os reajustes, pois é o período em que eles estão perdendo. Se o assalariado reduz o período e, ao mesmo tempo, o empresário incorpora na mercadoria em estoque o preço de reposição, a inflação tende a se acelerar. Isso é um mecanismo inflacionário. Por que em uma sociedade capitalista normal os capitalistas ficam com medo da inflação? Por uma razão muito simples: toda a parte da riqueza mobiliária que as empresas têm, que são dívidas de terceiros, está denominada em uma moeda que vai perdendo valor. Então, o empresário ganha mercantilmente com a inflação, mas perde patrimonialmente com a inflação.

CC: E por que essa lógica não funciona no Brasil?
CL
: Porque nós criamos uma dívida pública perfeitamente indexada que serviu de lastro para converter toda a caixa das empresas, que é o grosso da riqueza mobiliária das empresas, em ativos financeiros protegidos da inflação. Nós cancelamos o medo da inflação. E se o empresário não tem medo da inflação, os preços correm livres. Ele passa a ganhar mercantilmente e patrimonialmente. Esta foi a armadilha criada, no Regime Militar, por Roberto Campos. Isso criou uma armadilha terrível. As empresas tinham total comando sobre os reajustes de preço, sem perder nada, porque toda a sua riqueza mobiliária estava indexada.

CC: A preocupação deliberada era a de proteger o patrimônio?
CL
: Não, a preocupação inicial do Roberto Campos era encontrar uma maneira de fazer com que os bancos de investimento passassem a comandar a economia brasileira, subordinando os bancos comerciais. O objetivo era tornar possível o financiamento imobiliário. Como se imaginava que a reativação da economia passaria estrategicamente pela construção civil, era preciso criar instrumentos que indexassem pelo menos a caderneta de poupança, pelos menos os débitos do BNH. O problema é que os títulos de dívida pública de longo prazo também foram indexados, mas foi permitido que bancos tivessem reservas desses títulos. Então o banco aluga no atacado a dívida pública e reparte a prazos curtos pelo caixa das empresas. Chamava-se “mercado dinheiro”. Só que isso permite ao banco ganhar diferencial entre as taxas e permite à empresa ter o seu caixa defendido da inflação. Ai você vai generalizado a indexação. Todos os contratos com mais de um ano ficam indexados. Então veio o choque do petróleo. Ao invés de entender isso como uma crise, os militares acharam que era a hora de o Brasil dar um salto. Daí surge o projeto Brasil Potência.

CC: A ideia do Brasil Potência era equivocada?
CL
: Com o choque do petróleo, ou o Brasil recuava, pois os juros subiram internacionalmente, botava a barba de molho e reduzia a taxa de crescimento, ou segurava a taxa de crescimento se endividando a juros mais elevados. Aí começa o tormento da dívida externa brasileira. Até então, os saldos em reservas internacionais brasileiras eram espetaculares. Na crise do petróleo, ao invés de apertarmos o cinto, nós soltamos a economia para crescer, mas crescer com projeto de ser potência. É todo um discurso de euforia que termina com a segunda crise do petróleo e com a crise do México. Aí vem a hiperinflação, com a economia toda indexada. O mais curioso é que continua indexada, um ano e um dia. Todas as tarifas de serviços públicos são indexadas, as operações de dívida pública de mais de um ano estão indexadas. Eles não tiveram coragem de desmanchar as indexações até hoje.

CC: Por que o Plano Cruzado fracassou?
CL
: O plano Cruzado foi o primeiro movimento de uma tentativa que daria certo se o Sarney tivesse tido a coragem de seguir as recomendações que lhe foram feitas no Encontro de Carajás, em 1986. Lá se propôs criar uma holding financeira, juntando as forças do Banco do Brasil, do BNDES, da Caixa, do Banco do Nordeste, do Instituto de Resseguros. Seria uma superholding para competir com as outras holdings financeiras, e seria a operadora dos projetos das empresas públicas que estivessem voltados para o desenvolvimento nacional. Seria um passo à frente da política de estabilização, uma política de crescimento onde a locomotiva seria a holding e as auxiliares seriam as grandes estatais. A resposta do Sarney foi “não se mexe em time que está ganhando”.

CC: E como o Plano Real se livra da armadilha?
CL
: Os economistas que analisaram esse período sempre disseram que o Brasil tinha um sistema bimonetário. Possuía uma moeda de pessoa física, que era uma porcaria, pois se desvalorizava no bolso da pessoa, e tinha uma moeda defendida contra a inflação, que permitia às empresas brasileiras se jogar de corpo e alma na inflação. Houve uma tentativa de desindexação radical, feita por via autoritária pelo Collor, e depois houve uma indexação esperta, convertendo o próprio indexador em moeda, que foi o Plano Real. Porém, para compensar a enorme lucratividade do capital brasileiro, criou-se uma estrutura de juros reais elevadíssimos. Do ponto de vista do capitalismo brasileiro, o plano substituiu seis por meia dúzia. Você estabilizou todos os preços porque criou um indexador universal. Mas, ao fazer isso, você tem de criar um diferencial, e esse diferencial são os juros que condenam à economia a esse crescimento rastejante.

CC: Ainda dá para falar em crescimento rastejante no Brasil?
CL
: Até o início do segundo mandato do Lula, o Brasil só cresceu menos que o Haiti na América Latina. Criou-se uma situação patológica no Brasil. Uma família só é devedora saudável quando tem emprego e renda crescentes e quando se endivida aumentando sua propriedade imobiliária. A família que se endivida para comprar a casa própria passa a ter um ativo que tende a se valorizar no futuro. Se a compra da casa própria ativa o desenvolvimento da economia, então temos um endividamento virtuoso. Quando se usa a dívida familiar, como o Brasil está fazendo por meio do crédito consignado, para a compra de eletrodomésticos e carros, quando não para saldar o cartão de crédito, corre-se o risco de criar uma bolha de dívida familiar, se não houver investimentos produtivos no país. Se você não amplia a capacidade instalada, não há nem emprego, nem renda. Se a taxa de investimento é baixa, você gera pouco emprego, pouca renda e acelera o endividamento. O Brasil optou pelo pior tipo de endividamento familiar, pois em algum momento as famílias vão ficar insolventes. A crise de 2008 nos EUA se deu em cima de uma bolha de endividamento familiar enorme e uma especulação com ativos mobiliários apoiados na bolha imobiliária. Aqui você não tem uma bolha imobiliária, você tem uma bolha de dívida familiar que cresceu vertiginosamente. Imagina o que os credores vão fazer quando retomarem os carros velhos...

CC: O atual modelo de crescimento é insustentável?
CL
: Eu afirmo há dois anos que é suicídio sustentar a economia dessa maneira. Há uma bolha do interior da economia brasileira. Do ponto de vista da classe média, o automóvel e o eletrodoméstico não fazem parte do patrimônio imobiliário. São objetos que perdem valor rapidamente. Em apenas 10 anos, a frota de automóveis brasileira dobrou, mesmo com uma economia crescendo de modo absolutamente medíocre. Nosso crescimento deveria ser puxado pela construção civil, e não pela indústria metalúrgica. O resultado mais óbvio dessa política foi a duplicação dos congestionamentos urbanos e a posição de recordistas em acidentes de trânsito. Temos 300 mil internados por acidentes de trânsito todos os anos nos hospitais, ficando em média nove dias internados. Temos, por veículo, seis vezes mais acidentes que o veículo japonês e não temos manutenção adequada da rede rodoviária. O Minha Casa, Minha Vida é um bom programa, mas chegou extremamente atrasado.

CC: O endividamento não é compensado pelo aumento dos investimentos e da renda?
CL
: A taxa de investimento brasileira não chega a 19% do PIB. Qualquer analista diria que, para o Brasil crescer 5% a 5,5% ao ano, a taxa de investimento deveria ser de 21%. Para crescer 7% ao ano, precisamos de um investimento correspondente a 25% a 26%. Nós retiramos das empresas o papel principal que é tocar para frente a capacidade produtiva. Mas, para que tenhamos investimento privado, é preciso termos investimento público complementar. Hoje, o Estado investe apenas 2,5% a 3% do PIB, o que é pouco. Como convencer o empresário privado a investir em grandes indústrias se ele não vê no governo um sinal inequívoco de retomada do investimento público e de expansão econômica e nem tem a segurança de que presidente do Banco Central não vai abortar o processo e subir os juros.

CC: A taxa de investimento é baixa porque os juros são altos. Por outro lado, com o Brasil crescendo nas taxas atuais, o juro precisa subir para conter o crescimento. Não é um paradoxo?
CL
: Não. É o argumento utilizado pelo Banco Central para praticar uma política de elevação de juros capaz de atrair mais capital cigano de fora.

CC: O Programa de Aceleração do Crescimento não contempla o problema da falta de investimentos?
CL:
O PAC foi importante por retomar a discussão sobre o investimento público. Mas o
PAC é uma insignificância, uma brincadeira. Apenas para manter as estradas federais sem buraco é preciso gastar 5 bilhões de reais por ano. A gente não gasta 2 bilhões. A ideia do PAC é magnífica. A maior parte dos projetos é fundamental. Mas o ritmo de execução, o volume de recursos e o desempenho do programa são pífios. O pior é que faltam algumas coisas fundamentais. Onde estão os investimentos em infraestrutura urbana, onde está a expansão do metrô no Rio e em São Paulo. Onde estão as melhorias nas cidades brasileiras. O PAC é muito pequeno. Eu gostaria que fosse um Pacão.

CC: E o pré-sal?
CL
: O pré-sal abriu uma nova fronteira para a expansão da economia. O Brasil pode vir a ser a Noruega tropical ou o Iraque do Atlântico Sul. Vai depender de como vamos conduzir esse processo.

CC: O que o sr. acha dessa política deliberada do governo Lula de bancar a formação de multinacionais brasileiras, de campeãs nacionais?
CL
: A política das campeãs nacionais é excelente. Você não tem um sistema industrial sem possuir gigantescas empresas reguladas por intimidade com o Estado, “satelitizando” coleções de médias e pequenas empresas. Esse é um sistema industrial típico das economias industrializadas avançadas. Pela concepção, as campeãs nacionais são grandes empresas que têm prioridade com o crescimento da economia. Mas no Brasil não é assim. A gente vê a Vale, que é estatal, porque continua sob controle estatal, fazendo política de grande mineradora internacional, mas sem ter nenhuma referência prioritária ou prioridade aos planos estratégicos nacionais. Você tem uma Petrobrás comprando refinaria no Japão. Eu acho essa política inteiramente antinacional.

CC: O Brasil está se desindustrializando?
CL
: A grande desindustrialização aconteceu nos anos 1990 e no início dos anos 2000. No governo Lula, esse processo foi interrompido, mas ainda não há uma retomada significativa do processo de industrialização. O que cresceu nos Brasil nos últimos anos não foi a indústria: foi o Brasil pós-tordesilhas, o Centro-Oeste e Amazônia meridional. O que nós estamos fazendo é reproduzir o modelo da República Velha. Tornamos-nos o país da soja, do boi, do etanol. Há uma única diferença. Naquele tempo, o café era todo nacional. A semente era produzida pelo Instituto Agronômico de Campinas, a estrada de ferro era em grande parte nacional, os exportadores eram nacionais e até os bancos eram nacionais. Hoje, a semente é produzida pela Monsanto, o fertilizante é importado. Nenhum fabricante de máquina é brasileiro. Os defensivos não são brasileiros e, dos três maiores exportadores de soja do País, nenhum é brasileiro. Não vamos ser a República Velha. Estamos pior do que na República Velha.

CC: Faz sentido fazer política industrial num mundo globalizado?
CL
: Vou responder a essa pergunta com uma aula. Logo no final do século XIX, um romeno chamado (Mihail) Manoilescu formulou um conceito chamado “princípio da indústria nascente”. Qualquer país só poderia ter indústria se ela nascesse. Enquanto nasce e cresce, essa indústria precisa ser protegida. Se houver outras indústrias já robustas, elas esmagarão a indústria nascente. Este argumento foi utilizado na formulação de políticas industriais tanto na Alemanha de Bismarck, na França de Napoleão III, na Rússia do Czar Nicolau, quanto nos Estados Unidos, com Alexander Hamilton, que formulou o Report of Manufacturing. Nenhum dos países que se industrializaram depois da Inglaterra adotou a teoria dos custos comparativos, de David Ricardo, mas o argumento da indústria nascente: temos de fazer tudo para que nasçam indústrias e para que nossas indústrias não sejam esmagadas pelas outras. Vale dar empréstimo debaixo do pano, câmbio favorecido, treinar mão-de-obra, doar o terreno e, principalmente, reservar o mercado interno. Vale inclusive o governo dar preferência à indústria nacional. Veja o Buy American, do Barack Obama.

CC: O liberalismo fica apenas no discurso?
CL
: O liberalismo é uma empulhação. Quando começou a revolução industrial, a Inglaterra tinha total hegemonia militar e naval no mundo. A Inglaterra conquistou o mundo a partir de uma tecnologia militar. O que outros países fizeram? Construíram as teses de teoria de economia nacional. Ou seja, cada nação é uma unidade cultural específica com suas leis econômicas próprias. E aí você tem as tentativas de industrialização chamadas retardatárias: França, Rússia czarista, Japão e Estados Unidos. Logo que deram certo, começaram a adotar os princípios de Ricardo.

CC: Essa visão influenciou também a industrialização no Brasil?
CL
: Essa visão foi conhecida na América Latina desde sempre. Nós, brasileiros, pela escola filosófica de Recife, tínhamos enorme admiração pelo movimento cultural alemão. Por quê? Porque a Alemanha estava deixando a Inglaterra para trás. Os brasileiros sabiam que a industrialização era fundamental. Depois da Guerra Franco-Prussiana, ficou visível que ganha o país que tiver a melhor indústria. E o exército brasileiro passou a ser o campeão do desenvolvimento industrial por uma questão de defesa da nação. Getúlio Vargas era positivista, sabia da importância da industrialização. Nos anos 20, os intelectuais brasileiros todos adoravam a ideia de industrialização. Com a Primeira Guerra mundial, ficou visível que o país tinha de ser industrializado. Aliás, a Guerra teve um mérito cultural para o Brasil. Desmoralizou completamente o velho mundo. Que droga de sociedade era aquela, que em vez da Belle Époque, do progresso, da civilização, produziu matança em escala industrial. De repente, nasceu o orgulho de ser do novo mundo. Os anos 1920 e 1930 são anos de imensa explosão, de redescoberta do Brasil, na literatura, nas artes. É o primeiro momento em que a elite brasileira percebe a existência de um povo. Daí decorre a ideia de nação do Brasil.

CC: Mas o projeto de industrialização começa mais tarde.
CL
: Com a Segunda Guerra, fica evidente a enorme vulnerabilidade do País, sem combustíveis, sem aviões, sem caminhões. O exército tenta criar uma fábrica de caminhões, a Fenemê, tenta criar uma fabricar uma fábrica de motores de avião, faz um esforço brutal. O Brasil entra na Guerra, e Washington se compromete a dar prioridade aos equipamentos pra siderúrgica nacional. Quando a guerra termina, o Brasil acredita que será beneficiado pelo Plano Marshall. Mas, com a bipolaridade, os Estados Unidos deixam o País de lado. Mesmo assim, a gente fez tudo que era necessário para dar partida ao Plano Marshall. Criamos o BNDES. E se tinha que ser por nós mesmos, teria de ser por rodovia e não por ferrovia ou hidrovia. Por quê? O petróleo tinha de ser nosso. Petróleo e rodovia abrem caminho para a indústria automobilística. Quando termina os anos 50, as filiais norte-americanas tinham ocupado a Europa. As empresas européias, renascidas do Plano Marshall, para retaliar, começaram a buscar outros lugares para se expandir. O Brasil espertamente negociou a vinda da Mercedes e da Volkswagen, forçando a General Motors e a Ford a fazer a mesma coisa. Daí veio a indústria automobilística, Juscelino, o tricampeonato de futebol e as condições psicológicas para romper com o FMI e terminar Brasília. Depois disso vem o Golpe dos militares, que simplesmente se propunham a fazer do Brasil uma potência mundial.

CC: Mas o Brasil paga um preço caro, não?
CL
: Depois veio a crise da dívida, a crise do México, nos anos 1980, e a reconstituição do Estado de Direito, com a Constituição de 1988. Do ponto de vista econômico, não vamos para lugar nenhum, e a inflação se acelera brutalmente. A resposta para isso é a história que todos conhecemos: a adesão progressiva ao neoliberalismo, feita a prestações, com todas as suas orientações: privatização, redução da proteção da indústria ineficiente, redução do investimento público, contenção monetária, agências reguladoras. Ganha a ideia da chamada inserção competitiva no mundo globalizado. O Brasil deixa de crescer apoiado no mercado interno, e passa a crescer apoiado no mercado mundial.

CC: O neoliberalismo enterra a ideia de empresa nacional?
CL
: O neoliberalismo, ideologicamente, cancela a ideia de nação e a substitui pela ideia de mercado. Pela lógica do mercado, você segmenta a população mercadologicamente e cancela as figuras sociais. Não tem mais empresário, não tem mais burguês, proletário, capitalista. Renasce a ideia de que o mercado é perfeito. Para as empresas que dominam o mundo, e já têm filiais em todo o mundo, é uma ideia muito interessante. Operacionalmente, a sugestão é liberar o câmbio, o movimento de empresas, a compra e venda de patrimônios, bens e serviços, informação e tecnologia. Ao mesmo tempo, você dificulta o movimento da população e da mão de obra. Na esfera do capital, o neoliberalismo é total. Na esfera do trabalho, você mantém a visão nacional. No mundo neoliberal, a questão social é um problema nacional. Quando havia a bipolaridade entre Estados Unidos e União Soviética, a periferia podia aspirar a prosperidade e empreender projetos nacionais, sendo satélite de uma dessas potências. Com a queda do muro, acaba a bipolaridade e sobra apenas uma potência.

CC: O G20 não tenta responder a esse anseio?
CL
: Não existe essa história de G-7, G-20, G-30. O que existe é o xerife do mundo e, no máximo, um G-2, entre Estados Unidos e China. Durante a Guerra Fria os americanos tiveram uma experiência de G-2 com o Japão e descobriram, mais recentemente, que é muito melhor ser G-2 com a China que, ao contrário do Japão, muito protecionista, adotou uma política de atração de filiais do mundo inteiro. Os chineses trabalham admiravelmente bem e fornecem mercadorias baratas para os Estados Unidos, que vendem títulos da dívida para a China. Um matrimônio perfeito.

CC: O modelo chinês não representa uma armadilha para os Estados Unidos?
C
L: Tudo é sempre uma armadilha. A história é uma parteira de novidades. É evidente que os chineses não são bobos. Eles estão construindo uma esfera de influência asiática, o que era um sonho japonês. Pode ser que haja uma bipolaridade no futuro, mas ainda não. O casal que produz num e coloca o dinheiro no outro pode brigar muito, mas vai dormir na mesma cama.

CC: Há um modelo de País no qual o Brasil deva se inspirar?
CL
: Sou totalmente contrário a procurar paralelos para o Brasil. Mas, se nos propusermos a fazer isso, eu digo que gostaria de ser o Japão. Os japoneses conseguem fazer transformações extremamente dinâmicas e conservadoras ao mesmo tempo. Conservadoras do quê? Da cultura nacional. O minimalismo, o antidesperdício e a criatividade, típicos da cultura japonesa, estão por trás de seu milagre econômico. O Japão perdeu a segunda guerra mundial por um erro geopolítico, mas conseguiu manter o imperador por direito divino em plena pós-modernidade. Na Revolução Meiji, o Japão desapropriou os direitos dos antigos senhores medievais e fez deles os donos das “campeãs nacionais” ao mesmo tempo em que promoveu a reforma agrária. Assim, manteve o poder e fez uma redistribuição da propriedade preservando todas as instituições japonesas. Falta ao Brasil uma cultura nacional. A elite brasileira não se importa nem um pouco com a nação. Ela dorme tranqüila sabendo que as crianças brasileiras obtêm as pioras notas nos exames internacionais de desempenho educacional. Nossa elite gosta de juros elevados e de comprar apartamento em Miami.

CC: Houve um resgate da ideia de nacionalismo no governo Lula?
CL
: Eu considero uma figura muito interessante, em primeiro lugar, porque ele é do povo. Em segundo lugar, porque ele gosta do povo. Contudo, o Lula não sabe o que é nação, não é nacionalista e desconfia da empresa nacional, o que é muito fácil de explicar. Lula foi líder sindical, e sabe que é muito mais fácil obter um acordo sindical bem-feito com uma filial estrangeira do que com uma empresa nacional. Além disso, a ideia de nação não entrou em sua formação intelectual. Por outro lado, ele descobriu esse conceito quando recebeu a notícia do pré-sal. Ele apostou na projeto do “petróleo é nosso”. De repente, reapareceu a ideia de nação em seu governo. Isso não mudou em nada a política econômica, mas resultou em três decisões fundamentais: 1) o Brasil não será exportador de petróleo bruto, 2) a economia do petróleo será toda usada para dinamizar a economia brasileira e 3) as receitas do petróleo serão usadas para resgatar a dívida social. Eu só posso assinar embaixo. O Lula redescobriu a nação a partir do pré-sal.

CC: Em quem o senhor pretende votar para presidente?
CL
: Conheço muito bem tanto o Serra quanto a Dilma. Fui professor dos dois. O Serra frequentou a minha casa no exílio, e com a Dilma eu tive uma relação muito próxima durante os dois anos em que participei do governo. Os dois são inteligentes e estão preparados. No entanto, eu vou apoiar o José Serra, pois morro de medo de o doutor Meirelles continuar sendo o presidente do Brasil. Eu vou votar no presidente da República. Não aceito ser governado pelo presidente do Banco Central. Precisamos de um outro modelo de desenvolvimento. Os mitos do neoliberalismo acabaram, e é preciso ter coragem de enfrentar os banqueiros e investir num projeto nacional.