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Esvaziaram o baú

por André Siqueira — publicado 17/11/2010 16h44, última modificação 24/11/2010 17h34
Silvio Santos, 80 anos em dezembro, tem de entregar seu patrimônio em troca de 2,5 bilhões de reais para salvar o Banco PanAmericano
Esvaziaram o baú

Silvio Santos, 80 anos em dezembro, tem de entregar seu patrimônio em troca de 2,5 bilhões de reais para salvar o Banco PanAmericano. Por André Siqueira. Matéria publicada originalmente na edição 622, de 12/11/2010. Foto: SBT

Matéria publicada originalmente na edição 622, de 12/11/2010

Silvio Santos, 80 anos em dezembro, tem de entregar seu patrimônio em troca de 2,5 bilhões de reais para salvar o Banco PanAmericano

Às vésperas de completar 80 anos, Senor Abravanel, conhecido pelo nome artístico de Silvio Santos, fez a aposta mais arriscada de sua vida. Diante de uma fraude contábil no Banco PanAmericano, o empresário empenhou todos os negócios de seu grupo – dono de 44 companhias, avaliadas em 2,7 bilhões de reais – em garantia a um empréstimo de 2,5 bilhões de reais para cobrir o rombo. Dificilmente conseguirá quitar esse carnê sem abrir mão de parte significativa de seu patrimônio.

A decisão mais dura para Silvio Santos, acostumado a exercer comando absoluto no grupo que leva seu nome, foi a de abrir mão da autoridade em uma das principais empresas do conglomerado. O Conselho de Administração do PanAmericano passou às mãos da Caixa Econômica Federal, que em julho completou a aquisição de 49% do banco, antes de saber que a instituição escondia uma bomba-relógio no balanço. Os diretores-executivos, demitidos após o estouro do caso, foram substituídos por profissionais indicados por representantes do setor financeiro e pelo parceiro estatal.

Desde 11 de outubro, o empresário e apresentador de tevê passou a frequentar o prédio de número 201 da Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo. Funciona nesse endereço o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), associação criada em 1995 para atuar como uma espécie de caixinha dos bancos, obrigados a contribuir para cobrir eventuais perdas e quebras de instituições que possam representar ameaça ao funcionamento do sistema financeiro nacional. O fundo administra 28 bilhões de reais e cresce num ritmo de 300 milhões de reais ao ano apenas com os aportes dos associados.

Foi naquele dia que os demais banqueiros receberam do Banco Central a informação de que o PanAmericano estava em situação de insolvência – ou seja, não dispunha de capital para fazer frente aos riscos de suas operações. O próprio BC só confirmara a existência e a extensão do problema poucas semanas antes, entre agosto e setembro, durante a fiscalização realizada para a aprovação da venda à Caixa de 35,54% do capital total do banco (49% das ações com direito a voto).

Nas várias reuniões, ficou acertado que a holding controladora do PanAmericano emitiria 2,5 bilhões de reais em debêntures (títulos de dívida privada) a serem adquiridas pelo FGC. Os papéis vencem em dez anos, mas os pagamentos só começam a ser realizados após os três primeiros. Os juros são pagos de seis em seis meses e equivalem à inflação medida pelo IGPM. Caso não seja quitada, Silvio Santos perderá o controle de seu conglomerado, que inclui o Sistema Brasileiro de Televisão, a marca de cosméticos Jequiti, o Baú da Felicidade, a Liderança Capitalização e uma série de outros negócios.

De acordo com o presidente do Conselho de Administração do FGC, Gabriel Jorge Ferreira, a operação do PanAmericano é um caso único na história do fundo. “É a primeira vez que um empresário oferece voluntariamente seu patrimônio pessoal como garantia para evitar uma intervenção.”

Se as condições do empréstimo não são das piores para Silvio Santos, revelam-se ainda melhores para o FGC. Segundo Ferreira, historicamente o fundo nunca conseguiu recuperar um tostão pago no ressarcimento a correntistas e credores de bancos em estágio falimentar. Só no episódio da quebra do Bamerindus, que teve a liquidação extrajudicial decretada pelo BC em 1998, o fundo entrou com quase 3 bilhões de dólares e até hoje não recebeu um centavo em retorno.

Em setembro, muito provavelmente já ciente do buraco nas contas da organização, Silvio Santos encontrou-se com Lula em Brasília, para pedir o apoio do presidente ao Teleton, programa televisivo de caráter beneficente exibido pelo SBT. Se aproveitou para pedir alguma interferência no caso do PanAmericano, o desenrolar dos fatos mostra que saiu de mãos vazias.

Na negociação com o FGC, Silvio Santos teve de abrir mão até mesmo de -nomear os diretores do banco. Ferreira não admite, mas a entidade indicou a maioria dos novos dirigentes do PanAmericano. A começar pelo diretor-superintendente, Celso Antunes da Costa, ex-Banco Real e responsável pela integração da Nossa Caixa ao Banco do Brasil. A área administrativa será assumida por Ivan Dumont Silva, enquanto Eliel Teixeira de Almeida cuidará dos negócios com cartões e Mario Ferreira Neto será o diretor de produtos. Coube à Caixa indicar José Henrique Marques da Cruz para a diretoria de crédito, e Raphael Rezende Neto para a divisão de riscos e compliance (cumprimento de normas e regras).

A mudança mais significativa dos novos tempos ocorrerá no conselho de administração. A divisão das oito cadeiras será feita meio a meio, mas ninguém menos que a presidente do banco estatal, Maria Fernanda Coelho, encabeçará o grupo. Os outros indicados são altos executivos da Caixa: os vice-presidentes Márcio Percival Alves Pinto (Finanças), Marcos Vasconcelos (Controle e Risco) e Fabio Lenza (Pessoa Física).

O envolvimento do parceiro estatal na administração faz parte de uma estratégia para devolver credibilidade ao Pan-Americano e conter a fuga dos investidores e aplicadores. Depois de perder cerca de um terço de seu valor de mercado em duas semanas (só ontem, a queda das ações foi de 27,5%), a cotação do banco na Bovespa voltou a subir, na quinta-feira 11 (5,24%). “O banco (PanAmericano) está muito líquido. Tinha 1,3 bilhão de reais em caixa e agora tem mais de 2,5 bilhões de reais. Hoje é doador de recursos no mercado”, garante Ferreira.

Quando anunciou a compra de participação no PanAmericano, no fim de 2009, a Caixa tinha como objetivos mais imediatos ampliar sua carteira de crédito, sobretudo em áreas como cartões, financiamento de automóveis, empréstimos consignados e leasing. Além disso, teria acesso aos 20 mil pontos de venda de produtos do banco – o que equivalia a quase duplicar os seus canais de comercialização. A transação foi checada pelo Banco Fator e pela KPMG, que dizem não ter encontrado irregularidades nos números, auditados pela Deloitte.

As “inconsistências contábeis” – eufemismo aplicado aos crimes praticados no PanAmericano – foram comunicadas pelo BC à Caixa em meados de setembro. Ao que tudo indica, as perdas resultaram de tentativas dos administradores do banco de sustentar resultados positivos e inflar artificialmente os ativos. E, do modo como eram feitas, só ficariam evidentes em um cruzamento de números entre várias instituições financeiras.

A exemplo de outros concorrentes de médio porte, o PanAmericano negocia com bancos maiores e fundos de investimento suas carteiras de crédito. Ou seja, concede os empréstimos e depois vende a um terceiro, com um desconto, o direito de receber os pagamentos futuros. Essas operações são realizadas para garantir a liquidez de instituições que só têm acesso a fontes de recursos de curto prazo (até um ano), mas oferecem financiamentos de perfil mais longo.

As fraudes consistiam em não dar baixa contábil na receita passada adiante. Tampouco eram retirados do balanço os financiamentos quitados antecipadamente ou mediante a execução de garantias (ou seja, quando os bens com parcelas em atraso são retomados pelo banco). Essas dívidas continuavam a fazer parte das carteiras comercializadas, como se ainda representassem uma potencial entrada de capital. Quando os fundos se queixavam da interrupção no fluxo de caixa, que se traduzia em elevação da inadimplência, o Pan-Americano comprava de volta os créditos podres e melhorava o perfil da carteira.

Uma das primeiras tarefas da nova administração será, portanto, colocar em dia a contabilidade do banco e reativar as operações de crédito e reconquistar clientes. No início do ano, o valor de mercado do banco chegou a 2,9 bilhões de reais, puxado pela notícia da sociedade com a Caixa, que pagou quase 740 milhões de reais pelas ações.

Se o plano der certo e a instituição se recuperar do golpe, o banco estatal verá seu investimento recuperar o valor. O mais provável é que Silvio Santos busque um comprador para o PanAmericano. Terá, assim, a chance de manter-se em dia com o pagamento do gigantesco carnê assumido em nome da credibilidade de seu grupo empresarial. Mas, para fugir da casa “perde tudo” no tabuleiro em que se meteu, é possível que tenha de se desfazer de mais empresas, de acordo com analistas de mercado.

A alternativa à venda de ativos seria uma reestruturação capaz de extrair do grupo, que fechou o ano passado com prejuízo de 7,9 milhões de reais, uma rentabilidade não só positiva, mas capaz de fazer frente às dívidas a vencer. A escolha de soluções não deixa a desejar aos desafios propostos aos participantes de vários jogos exibidos na tevê. Só que, desta vez, Silvio Santos terá de provar sua capacidade como protagonista, e não como apresentador.