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Estímulos ao private equity

por Gerson Freitas Jr — publicado 01/10/2010 17h51, última modificação 01/10/2010 17h51
Atraídos pelos bons ventos da economia, os fundos de participação em empresas aumentam as captações e fazem novos aportes

Atraídos pelos bons ventos da economia, os fundos de participação em empresas aumentam as captações e fazem novos aportes

Até poucos anos atrás, a participação de fundos de investimento no capital de empresas fechadas no Brasil era irrisória. A possibilidade de se captarem recursos para investimentos na produção era aniquilada pelas baixas taxas de crescimento da economia e pela elevada remuneração dos títulos públicos, que transformou o País em um paraíso para rentistas e um pesadelo para empreendedores.

No entanto, a história começa a mudar. A queda da taxa básica de juros para níveis menos sedutores (embora ainda os mais elevados do mundo) e os bons ventos que sopram sobre a economia parecem finalmente ter despertado o apetite dos investidores para o risco de longo prazo. O crescimento dos fundos de private equity, também chamado de capital empreendedor, é um sinal desses novos tempos.

Levantamento do Centro de Estudos em Private Equity (GVCepe), ligado à Fundação Getulio Vargas, mostra que os fundos de participação em empresas já possuem mais de 34 bilhões de dólares comprometidos com investimentos no Brasil. Até 2004, esse capital não somava mais que 6 bilhões. De lá para cá, a participação dessa indústria na economia mais que dobrou, de 1% para 2,2%.

O vice-presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), Clóvis Meurer, estima que os fundos empreendedores devem captar ao menos 10 bilhões de dólares ao ano até 2014, em média. “Trata-se de uma indústria que está apenas começando. Ainda temos muito a crescer nos próximos anos”, afirma Meurer. Com isso, acredita-se que os fundos alcancem uma fatia ao redor de 3,5% do PIB nos próximos anos – patamar próximo da média mundial.

A crise internacional ajudou a impulsionar esse aumento. A percepção de que as economias maduras, como Estados Unidos e União Europeia, devem amargar baixas taxas de crescimento nos próximos anos fez com que os investidores estrangeiros intensificassem a busca por oportunidades nos países em desenvolvimento, especialmente China, Índia e Brasil. “O Brasil se fortaleceu no momento da crise, tornando-se mais atrativo”, resume Alexandre Pierantoni, sócio da consultoria PricewaterhouseCoopers. A expressiva queda da liquidez nos mercados de capitais também fez com que os fundos de private equity, capitalizados, se tornassem uma fonte de recursos atraente para os tomadores.

Carlos Asciutti, sócio da consultoria Ernst & Young, pondera que o crescimento do private equity se deve, em parte, à falta de recursos para financiamento no Brasil. “O custo dos empréstimos no País ainda é muito alto e o nosso mercado secundário de dívida é zero”, afirma. Por essa razão, explica, muitas empresas de pequeno e médio porte não possuem outra saída para crescer se não atraírem um novo sócio. Asciutti alerta, no entanto, que o custo de atração de um novo capital é elevado. “No resto do mundo, o financiamento sai mais barato, porque há garantias para quem empresta. Por isso, não faz sentido o private equity ser uma solução definitiva para a falta de financiamento. O Brasil precisa de um mercado de dívida para estimular o investimento.”

Os fundos de private equity brasileiros ainda detêm mais de 60% da carteira de investimentos, segundo o GVCepe. Os fundos de pensão são os principais cotistas, com, aproximadamente, um quarto do total. No entanto, a participação estrangeira cresce em ritmo acelerado.- É o caso do fundo norte-americano Carlyle, que administra uma carteira de ativos da ordem de 90 bilhões de dólares em todo o mundo e agitou o mercado brasileiro nos últimos meses.

Em janeiro, a empresa anunciou a compra do controle da CVC por um valor estimado em 250 milhões de dólares. Nos últimos dois meses, o fundo adquiriu a operadora de planos de saúde Qualicorp, por um valor próximo de 1 bilhão de dólares, e o controle do grupo paulista Scalina, dono das marcas TriFil e Scala, por cerca de 400 milhões de reais. Outro player importante é o Advent International, responsável por algumas das maiores aquisições por parte de fundos de private equity no ano passado. Recentemente, a companhia captou 1,6 bilhão de dólares para um fundo destinado a investir na América Latina. Estima-se que mais da metade dos recursos deva ser aplicada no Brasil.

Os investidores que colocam dinheiro em fundos de private equity perseguem rendimentos elevados. “Nos últimos 50 anos, a Bolsa norte-americana ofereceu um retorno médio de 10% a 12% ao ano. Lá fora, o equity tem de dar 20%. No Brasil, esse ganho tem de ser ao menos de 25%”, afirma Asciutti. Posto de outra forma, os fundos cobram uma taxa duas vezes e meia maior do que a oferecida pelo governo nos títulos da dívida.

A meta ambiciosa é uma contrapartida aos riscos do negócio. Ao contrário da bolsa de valores, esse é um investimento sem liquidez, ao qual o cotista fica exposto durante um longo período. Além disso, são aportes em empresas fechadas, sobre as quais há poucas informações. “Em tese, o potencial de valorização de boas empresas fechadas é muito maior que o de empresas já maduras, de capital aberto”, afirma Paulo Silvestri, diretor de private equity da Rio Bravo.

Para obter a rentabilidade perseguida, os fundos de equity buscam comprar participação em empresas pequenas e médias. A Rio Bravo, por exemplo, captou recentemente 140 milhões de reais para investir em empresas situadas no Nordeste, com receita de até 140 milhões. Até o momento, duas empresas – uma de alimentos e outra de tratamento de água – foram selecionadas para receber um aporte de até 25 milhões de reais cada uma. É o segundo fundo da gestora voltado para empresas da região. “Apostamos há muito tempo que o Nordeste vai apresentar taxas de crescimento mais altas que o resto do Brasil”, explica Silvestri.

Nos últimos anos, os setores de bens de consumo e serviços foram os que mais atraíram o capital dos fundos de private equity. Além de sensíveis à forte expansão da renda e do crédito observada nos últimos anos, apresentam a vantagem se ser muito pulverizados – uma característica particularmente atraente para esses investidores. “São setores que possuem não apenas um elevado potencial de crescimento do consumo, mas de consolidação”, observa Pierantoni.

Entre janeiro e agosto deste ano, o Brasil registrou mais de 502 fusões ou aquisições de empresas. Trata-se da maior onda de consolidação já observada no País. A participação dos fundos de equity nessas transações também é recorde. Esses investidores estiveram presentes em 42% dos negócios nos segmentos de tecnologia, hotelaria, alimentos, saúde e serviços imobiliários. Há quatro anos, essa proporção era de apenas 11%. “A participação do private equity nessas transações deve ficar acima da média mundial, que é de, aproximadamente, um terço”, afirma Pierantoni.

Nos próximos anos, setores como os de infraestrutura, energia e commodities devem liderar os investimentos. Recentemente, a Rio Bravo abriu um fundo com o objetivo de captar 600 milhões de reais e investir em projetos de geração de energia elétrica, especialmente a renovável. O FIP Terra Viva – fundo administrado pela DGF Investimentos e que tem a Previ, a Petros e o Banesprev entre os principais cotistas – anunciou este mês a compra de 32% da Paraíso Bioenergia, usina de cana-de-açúcar localizada no interior de São Paulo.  Em março, o fundo já havia adquirido uma fatia das duas usinas do Grupo Tonon, em São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Ao todo, estima-se que o FIP Terra Viva já tenha investido entre 150 milhões e 200 milhões de reais nas três usinas, o que lhe garantiu participação em uma capacidade de moagem próxima de 8 milhões de toneladas. A meta dos investidores é dobrar esse volume, agrupar as usinas sob um único guarda-chuva e abrir o capital da nova empresa – estratégia comum nesse tipo de investimento.

A maioria das empresas adquiridas por fundos de private equity é estruturada para abrir capital num prazo de seis a sete anos – momento em que o investidor sai do negócio. A estratégia implica uma profunda mudança de gestão, especialmente em companhias administradas por famílias. “O private equity agrega valor à empresa, pois traz consigo novos executivos, boas práticas, um plano de investimento de longo prazo e acesso a recursos”, afirma Asciutti. “O Brasil tem muito a ganhar com o crescimento do private equity, porque se trata de um capital de investimento e, sobretudo, de um capital inteligente que ajuda a modernizar a economia”, assegura Pierantoni. •