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Crise financeira

Estados Unidos, o império em crise

por Redação Carta Capital — publicado 08/11/2011 09h08, última modificação 08/11/2011 09h23
A crise atual nasceu no coração do capitalismo e decorre de uma acumulação capitalista que pretende prescindir da economia real. Deu no que deu
Occupy Wall Street/ versão LA

Populares protestam contra os grandes bancos em Los Angeles: DAVID MCNEW / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP

Por Emiliano José

Não há dúvida de que vivemos uma crise mundial de proporções ainda não devidamente dimensionadas, embora se perceba ser de longa duração, como recentemente foi destacada pela mestra Maria da Conceição Tavares. Quando uma nova onda chega até nós, até parece tratar-se de outra crise, como querem alguns, e não a mesma que explodiu em 2008, e que deixou o mundo aturdido. Trata-se, como me parece óbvio, da mesma crise, e não de outra. Uma crise que nasceu no coração do capitalismo, nos EUA e na Europa, e que decorre da financeirização do capital, da grande ciranda do capital financeiro, de uma acumulação capitalista que pretende prescindir da economia real. Deu no que deu. E as reações se sucedem. Me parece que como decorrência dela muita coisa mudará no mundo, não se sabe em que direção, nem se para pior ou para melhor. Dependerá, claro, da luta política em curso, da correlação de forças que se estabelecer na  sequência.

O movimento que se desenvolve em Wall Street, a ocupação de Wall Street, talvez seja a mais simbólica das reações político-sociais. Ao proclamar que representa 98% dos americanos, aqueles que não têm nada a ver com a movimentação do capital financeiro, e que sofrem diretamente os efeitos dos jogos do cassino, aquele movimento simboliza um novo momento. Dois fatos parecem marcar os EUA e o mundo neste novo milênio – o 11 de setembro, em 2001, e agora esta, em 2011, a ocupação de Wall Street. Uma década passada, várias guerras, e, então, o sinal de que há algo de podre no reino, e não é na Dinamarca.

Não nos anima o raciocínio do fim iminente do capitalismo, sempre uma tentação nesses momentos, sempre um pensamento desejoso que nos ronda. Melhor raciocinar com Gramsci, pessimismo da inteligência, otimismo da vontade. Analisar a real correlação de forças e travar a luta política.  Melhor raciocinar com a complexidade da crise, só comparável ao crack de 1929, e com as inevitáveis mudanças que ela deve provocar no mundo, inclusive mudanças no próprio jogo de poder mundial. Está evidente que as velhas potências, e os EUA em particular, dão claros sinais de decadência. Não é bom desconhecer que um Império em decadência, por ter força militar, como é o caso dos EUA, constitui sempre um perigo pela sua atitude beligerante. Os países emergentes, devem, por isso, insistir no caminho da paz para a solução dos conflitos mundiais.

A Grande Depressão de 1929, é bom lembrar, diferentemente da crise atual, encontrou uma liderança política à altura, Franklin Delano Roosevelt. O New Deal, que foi a resposta à crise do capitalismo de então, produziu um investimento maciço em obras públicas e promoveu a diminuição da jornada de trabalho para aumentar a oferta de empregos, a fixação do salário mínimo, a criação do seguro-desemprego e o seguro para os que tinham mais de 65 anos de idade. Ou seja, a solução localizou-se no Estado, no fortalecimento do Estado, que voltou-se para o fortalecimento da produção e a proteção do emprego. Hoje, quando se fala em enfrentamento da crise que se inicia em 2008, só se fala em amparar o capital financeiro, o real causador da tormenta.

Só se fala em socorro a bancos, não em ajuda aos trabalhadores ou incremento da produção. Nem nos EUA, nem na Europa. Obama, Sarkozi, Merkel ou Berlusconi não se debruçam sobre o significado da orgia financeira. Ao contrário, querem novamente fortalecer os reais causadores da crise, que voltariam à mesa do cassino, como se nada tivesse acontecido. Quando se falou em plebiscito na Grécia para ouvir a opinião da população, foi um deus-nos-acuda, e o governo teve que recuar por pressão das grandes potências. A população não pode e não deve ser consultada. Por tudo isso, pela conjuntura dramática, errática, vivida pelos países do capitalismo central, se tem dito, com propriedade, que os países emergentes têm muito a dizer ao mundo quanto à solução da crise, e Dilma o tem feito, quanto Lula o fez durante muitas intervenções.

E isso tem a ver com a política. Se analisamos os últimos anos na América do Sul, e em toda a América Latina, vamos observar um movimento claramente contrário ao neoliberalismo, com a emergência de governos reformistas e progressistas, de esquerda lato senso, que se opuseram e se opõem às políticas voltadas ao enfraquecimento do Estado e às políticas destinadas exclusivamente a favorecer os grandes grupos econômicos.  Por conta das opções políticas, a América do Sul e a América Latina vem enfrentando transformações importantes, melhorias significativas na vida de seus povos, embora se saiba da longa caminhada que há pela frente no enfrentamento das desigualdades e da miséria no Continente.

Curioso observar, no Brasil, o discurso de oposição ao projeto da revolução democrática em curso desde 2003, quando Lula assumiu.  Diante da crise mundial, ao tentar dar respostas, com seu núcleo de inteligência localizado no PSDB, ela insiste em manter e fortalecer as propostas neoliberais, que envolvem o enfraquecimento do Estado, privatização dos fundos públicos, privatização das estatais. Caracteriza-se como uma espécie de enclave do pensamento dominante americano e europeu na América do Sul, contrapondo-se ao pensamento progressista e reformador que tem hegemonizado o Continente.

Sabemos que a crise, sendo de longa duração, atingirá a América do Sul. O Brasil já está sentindo a chegada dela, e tomando as medidas para diminuir o impacto dessa chegada. O governo brasileiro sabe que não será deixando as políticas sociais de lado que irá enfrentá-la. São essas políticas sociais, distribuidoras de renda, que tem garantido, junto com a valorização inédita do salário mínimo, o dinamismo da economia e a continuidade da distribuição de renda.

O governo sabe que precisa estimular a produção, como vem fazendo, ao fortalecer a atividade industrial, ao manter um programa intenso de obras públicas, como o PAC, ao fortalecer o ensino tecnológico, ao dar prioridade à formação científica dos nossos jovens, ao destinar milhares de bolsas nas melhores universidades do mundo. O Estado ocupa um papel chave. A idéia de Estado-mínimo, tão presente no raciocínio dos pensadores do PSDB, é um desastre para o enfrentamento da crise.  O que o pensamento tucano prega é a volta de uma concepção tipicamente neoliberal, sem preocupar-se obviamente com a geração de empregos, com a distribuição da renda, com o fortalecimento dos serviços públicos.

Corretamente, o governo da presidenta Dilma tem intensificado a política de incremento da produção, inclusive com a redução dos juros, medida correta, e reclamada há muito tempo. A queda dos juros deve continuar, e tal medida é parte da política de enfrentamento da crise. Volta-se a insistir, como o tem feito a presidenta, que não se deve perder de vista o grande objetivo de acabar com a miséria extrema em nosso País. O Brasil, desde 2002, tem recusado a idéia de que primeiro é preciso crescer para depois repartir a riqueza. É a política de distribuição de renda, de repartição da renda, que assegura o crescimento, a manutenção e ampliação do mercado de massas, e é nessa linha que o desenvolvimento brasileiro deve continuar nos próximos anos.

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