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Empreendedorismo: o lado B

por Thomaz Wood Jr. publicado 05/07/2011 12h29, última modificação 05/07/2011 12h29
O pesquisadore norueguês Petter Gottschalk advoga que as organizações criminosas operam e prosperam da mesma forma que os negócios legítimos

Nas cavernas acadêmicas, nos castelos corporativos e na mídia de negócios, empreendedorismo é um assunto em voga. Joseph Schumpeter (1883-1950) foi um dos pais do tema. O economista austríaco considerava os empreendedores forças criativas, indivíduos com iniciativa e grande capacidade de ação. De seus espíritos livres, e algo selvagens, vinha a seiva que alimentava a capacidade de inovação das nações.

Adormecido durante algumas décadas, o empreendedorismo voltou a ganhar notoriedade a partir das décadas de 1980 e 1990. O recuo do Estado, o avanço do mercado e a globalização precisavam de ideias que sustentassem uma visão de indivíduo economicamente autônomo e capaz de construir um alter ego mercadológico. O empreendedorismo caiu como luva. Até os trópicos, dos gentios malemolentes, abraçaram a ideia.

A onda veio acompanhada de trabalhos científicos, palestras, cursos e manuais de autoajuda. O pesquisador norueguês Petter Gottschalk também aderiu. Felizmente, em lugar de produzir mais um tomo laudatório e inócuo, repousou sua lupa científica sobre o lado B do empreendedorismo: o crime organizado.

No livro Organised Crime: Entrepreneurs in illegal business (Edward Elgar Publishing), Gottschalk advoga que as organizações criminosas operam e prosperam da mesma forma que os negócios legítimos: elas respondem às necessidades, demandas e pressões de fornecedores, consumidores, reguladores e competidores. A diferença é que uns lidam com produtos e serviços legais e outros lidam com produtos e serviços ilegais.

Talvez não tenha sido intenção do autor, mas o leitor de -Organised Crime não escapará de uma permanente sensação de ironia ao se deparar com a linguagem dos negócios aplicada ao crime. Para o autor, os negócios criminosos são conduzidos por empresas dinâmicas, que surgem como start ups inovadores e depois evoluem para novos modelos de negócio, até se tornarem empresas baseadas em conhecimento e, em estágios mais maduros, organizações estratégicas.

Gottschalk define o empreendedor criminoso como alguém que assume os riscos envolvidos na organização e condução de negócios ilegais, explorando oportunidades na lavagem de dinheiro, no tráfico de drogas, na pirataria, no contrabando, na venda de proteção e em outras atividades de escopo similar.

Como todas as organizações, também as criminais têm na questão da liderança um ponto focal. Seus empreendedores costumam ser agentes inovadores, que desenvolvem sistemas elaborados para alocar os melhores recursos e aproveitar as melhores oportunidades de mercado. Significativamente, as organizações criminosas bem-sucedidas parecem utilizar estruturas em rede, que são mais flexíveis, em lugar de estruturas hierárquicas, que são mais rígidas.

As organizações legítimas, especialmente as industriais, organizam-se na forma de cadeias produtivas, ou cadeias lineares de valores, de maneira a coordenar as operações desde a fonte de matéria-prima até a venda para o cliente final. As entidades criminosas, por sua vez, costumam ser organizações de serviços que se estruturam como redes tridimensionais de valores, um formato mais contemporâneo e adequado para mercados instáveis e competitivos.

O pesquisador aborda também a questão da cultura organizacional, outro tema em moda nas agendas executivas. O pesquisador nota que uma cultura forte, com valores compartilhados, pode ser observada em muitas organizações criminosas. Várias dessas entidades se estruturam em torno de famílias, ou famílias expandidas, ou ainda “colaboradores” do mesmo grupo étnico.

Gottschalk é um autor prolífico, cobrindo temas de administração, gestão do sistema policial e crime organizado. Não faltam a Organised Crime capítulos dedicados ao planejamento estratégico e à gestão do conhecimento. As seções são ilustradas com casos da Cosa Nostra italiana, da máfia russa, de redes terroristas e outros menos conhecidos.

A coletânea Deviant Globalization: Black Market in the 21st Century (Continuum), organizada por Nils Gilman, Steven Weber e Jesse Goldhammer, segue caminho paralelo e complementa Organised Crime. Neste outro tomo, composto de estudos de casos, a imagem que emerge é da globalização como um processo descontrolado, no qual as atividades ilegais e as organizações criminosas constituem mais do que efeito colateral ou fenômeno marginal. Elas são parte integrante e fundamental do processo.

É conhecida a máxima atribuída ao dramaturgo alemão Bertold Brecht: o que é roubar um banco comparado a fundar um banco? A leitura de Organised Crime e de Deviant Globalization leva a crer que as duas atividades, além de terem muito em comum, em termos de gestão, integram-se em uma mesma lógica. São tempos estranhos os que vivemos.