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Eles não têm com que se preocupar

por Gerson Freitas Jr — publicado 02/02/2011 17h28, última modificação 02/02/2011 18h25
Custos baixos, preços altos e safra cheia marcam o 2011 dos produtores rurais brasileiros. Talvez seja o melhor ano da história para eles.
Eles não têm com o que se preocupar

Custos baixos, preços altos e safra cheia marcam o 2011 dos produtores. O comportamento das commodities impressiona, quando não assusta. Só o algodão acumula alta de 145% nos últimos 12 meses. Por Gerson Freitas Jr. Foto: Marcelo Justo/Folhapress

Luiz Suplicy Hafers, 75 anos, cultiva café em 80 hectares no Paraná. Os últimos anos, conta, foram difíceis para a cafeicultura. O aumento dos custos de produção e os preços pouco atrativos comprimiram as margens de lucro, quando não causaram prejuízos. Mas, pela primeira vez depois de muito tempo, os ventos parecem soprar noutra direção. O aumento dos preços internacionais, reflexo do aperto nos estoques e do crescimento do consumo, faz Hafers prever não apenas dias, mas anos melhores. “Ainda temos dívidas, temos dificuldades, mas prevejo ao menos três ou quatro safras com preços muito bons. Estou otimista”, afirma.

Não são apenas os produtores de café a esbanjar otimismo. Com os preços de praticamente todas as commodities agropecuárias em patamares históricos e a expectativa de boas colheitas, a agricultura brasileira como um todo deve ter um dos anos mais prósperos dos últimos tempos. “É possível que 2011 seja o melhor ano da história para o produtor rural no Brasil. Todas as culturas tiveram planilhas muito boas. Dificilmente você vai encontrar um agricultor que tenha tido prejuízo”, afirma Fernando Pimentel, presidente da consultoria Agrosecurity, especializada no setor.

O comportamento das commodities impressiona – quando não assusta. Nos últimos 12 meses, os contratos futuros de algodão dispararam 145% em Nova York e bateram todos os recordes. As cotações do milho, trigo e café avançaram quase 80%. As da soja e do açúcar, 50% e 21%, respectivamente. Além disso, o Brasil deve colher uma safra recorde. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção de grãos, fibras e oleaginosas deverá ficar próxima de 150 milhões de toneladas.

Só a produção de algodão deverá crescer 55% este ano. A perspectiva de que os preços da pluma se mantenham elevados nos próximos anos fez com que os cotonicultores aumentassem em mais de 45% a área de cultivo. Mais que isso, ampliassem o investimento em tecnologia, o que poderá garantir um aumento de até 6% na produtividade média, se o clima fizer a sua parte.

De quebra, os custos de produção foram até 10% menores que na temporada anterior. “É o que chamamos de tempestade perfeita”, afirma Anderson Galvão, diretor da consultoria Céleres, sobre a combinação de fatores positivos.

Especialistas sustentam que 2011 será um ano para o agricultor se capitalizar, preparando o caminho para novos investimentos. Em alguns casos, a margem de lucro em culturas como a soja poderá passar de 70% – um retorno excepcional, em qualquer atividade econômica. Os sojicultores minimizam o feito e argumentam que a falta de instrumentos mais modernos de financiamento e comercialização impediu muitos deles de participar da festa. “De modo geral, os produtores têm de antecipar as vendas junto às tradings para comprar os insumos necessários ao plantio. Neste ano, quando a negociação foi feita, os preços ainda não estavam tão altos”, argumenta Glauber Silveira, presidente da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja).

Segundo os analistas, o cenário é promissor. André Pessôa, presidente da Agroconsult, acredita que a safra 2010/2011 marcará o início de um novo ciclo de expansão para a agricultura brasileira, após um período de forte ajuste. “Haverá um crescimento moderado de área plantada, mas não no ritmo da década passada. Agora teremos uma contribuição mais intensa da produtividade, com reflexo positivo para todos os fornecedores de tecnologia”, afirma Pessôa. Culturas como o milho, que ainda sofrem com baixo investimento, possuem larga margem para ampliar sua produção sem expandir o cultivo.

Pessôa estima que a nova safra de grãos deverá superar a barreira dos 154 milhões de toneladas. Só a produção de soja é estimada em 70,3 milhões de toneladas. Na última década, a área plantada com a oleaginosa cresceu cerca de 70%, incorporando mais de 10 milhões de hectares. No entanto, grande parte da expansão ocorreu entre 2000 e 2005, anos de euforia para o setor. À época, a guinada dos preços internacionais e a concessão de crédito farto para a aquisição de maquinário lançaram os produtores numa corrida pela abertura de novas lavouras. A reversão do cenário externo e a falta de planejamento tiveram efeitos desastrosos nos anos seguintes. Endividados até o pescoço, muitos produtores se viram obrigados a arrendar suas terras para grupos maiores. Outros abandonaram a atividade.

Mato Grosso possui, aproximadamente, 26 milhões de hectares com pastagens degradadas, que poderiam ser utilizadas pela agricultura. No entanto, os elevados custos logísticos e de endividamento impõem uma barreira estrutural à expansão da atividade. “Os produtores de Mato Grosso poderiam até dobrar a área plantada com soja sem derrubar uma só árvore. Em vez disso, os mais capitalizados preferem arrendar a área do vizinho”, afirma Silveira. O resultado é uma reforma agrária às avessas. Em vez de distribuição, concentração de terras. “Há dez anos, os 20 maiores grupos de Mato Grosso detinham 7% da área agrícola. Atualmente, controlam 20%.”

A escalada nos preços das commodities é resultado de um conjunto de fatores. O rápido crescimento da China e de outros países emergentes exerce uma forte pressão sobre a demanda, assim como o uso crescente de alimentos para a produção de combustíveis renováveis – nos Estados Unidos, maior produtor mundial de milho, um terço da produção é destinado à fabricação de etanol. Como a oferta não consegue acompanhar o ritmo, e os estoques são os mais baixos dos últimos 40 anos, o mercado fica particularmente sensível a notícias sobre perdas de produção. Foi o que aconteceu em 2010, com a quebra da safra na Ásia e no Leste Europeu.

Trata-se de um cenário perfeito para a especulação financeira. Em um ambiente de extrema liquidez nos mercados, investidores tomam dinheiro emprestado em dólar e aplicam em contratos futuros de commodities. O resultado: apenas em 2010, os fundos lastreados em matérias-primas receberam uma injeção superior a 100 bilhões de dólares, segundo o banco de investimento Barclays Capital. O volume total encontra-se na casa dos 370 bilhões de dólares. No início da década, não passava de 15 bilhões.

Galvão afirma que os preços devem continuar elevados por mais alguns anos, o que não necessariamente significa um cenário róseo para os produtores. Após dois anos seguidos de queda, a expectativa é de que os custos de produção voltem a crescer de modo significativo na próxima safra. “Commodities em alta sempre acarretam em pressão de custo”,­ alerta o consultor. Em 2012, fertilizantes, sementes e defensivos podem ficar até 12% mais caros, calcula. A preocupação com os custos, aliás, extrapola os limites do campo. A disparada nos preços dos alimentos – que tem perturbado o mundo todo – contribuiu de modo significativo para o aumento da inflação também no Brasil. Como consequência, o Banco Central retomou o ciclo de alta nos juros básicos e o governo se comprometeu a cortar gastos e a desaquecer o consumo. Mas, ao mesmo tempo em que contribui para desequilibrar a economia no mercado interno, a valorização das matérias-primas foi o componente que salvou o Brasil de amargar um déficit no saldo comercial em 2010 (reportagem à página 44), uma contradição com a qual a equipe econômica terá de lidar.

Para o bem ou para o mal, ninguém imagina que os preços das commodities vão se perpetuar em patamares estratosféricos. “As commodities agrícolas estão todas com preços excepcionalmente altos, e é muito provável que a oferta como um todo venha a crescer de modo significativo nos próximos anos”, afirma Julio Maria Borges, diretor da Job Economia e Planejamento. “De todo modo, o Brasil está numa situação privilegiada. Grande parte dos investimentos globais na produção de alimentos vai acontecer aqui.”