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Dissonância cognitiva

por André Siqueira — publicado 15/09/2010 09h45, última modificação 02/10/2010 11h37
Como justificar ao brasileiro a cobertura negativa dos números da Pnad?
Dissonância cognitiva

PNAD: Há uma sensível diferença entre o Brasil que se vê nas ruas e o que está estampado nos jornais. Foto: Agência Brasil

Como justificar ao brasileiro a cobertura negativa dos números da Pnad?

Há um limite, mesmo em tempos eleitoreiros, para a ginástica a ser feita com os números no intuito de desenhar esta ou aquela realidade. A cobertura da chamada grande imprensa sobre os últimos resultados da Pnad, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, é um exemplo do desserviço prestado por um jornalismo econômico menos comprometido com a boa informação do que com o desejo de exibir apenas a metade vazia do copo.

Melhor retrato da qualidade de vida do brasileiro, o levantamento foi realizado em setembro passado, quando o País ainda não deixara totalmente para trás os impactos da crise financeira internacional que eclodiu exatamente um ano antes. Os números surpreenderam ao mostrar, mesmo assim, melhoras ou estabilidade em praticamente todos os indicadores. Convém ressaltar que, diante do tamanho da crise internacional – que levou à paralisia temporária tanto os bancos quanto a indústria –, os empates são, sim, resultado a ser comemorado.

E eis que surgem as manchetes, com poucas variações dentro de um mesmo tom: o brasileiro consome mais, mas não tem esgoto e é analfabeto. Em boa parte das coberturas, a expansão do consumo foi tratada como se fosse, se não um pecado, algo supérfluo diante das necessidades mais graves da população. Como fosse possível ao brasileiro, de alguma forma, abrir mão de falar ao celular para puxar a corda da descarga. Como se o cidadão não tivesse o direito de assistir à tevê antes de adquirir uma casa própria.

O desemprego, que a pesquisa revelou estar em alta em setembro de 2009, é dado velho e superado. Todos os estudos posteriores, focados no tema, mostram que o número de trabalhadores sem vaga recuou rapidamente antes mesmo da virada do ano, e chegou, em meados de 2010, aos níveis históricos mais baixos. Mesmo assim, ganhou destaques nas primeiras páginas.

No mesmo caminho, o saneamento básico – problema endêmico e histórico neste País – virou tema do momento. Pautou a oposição no debate da Rede TV, no domingo 12, e passou a frequentar as colunas de opinião. Tratamento digno de escândalo. Também voltou às manchetes nosso analfabetismo crônico – que, neste caso, não piorou, mas pouco melhorou, algo que o próprio IBGE justifica, em boa medida, pelo envelhecimento da população iletrada, o que reduz o alcance das medidas corretivas.

Para o pobre leitor, restou uma baita dissonância cognitiva. Há uma sensível diferença entre o Brasil que se vê nas ruas e o que está estampado nos jornais. A felicidade da família da classe C ou D que conseguiu viajar ao Nordeste de avião nas férias não é um dado que mereça ser desprezado. E vá dizer à dona de casa que comprou a primeira máquina de lavar que, se ela não joga a água na rede de esgoto, é sinal de que sua vida não melhorou. Tudo isso é qualidade de vida, no seu estado mais palpável. Ignorá-lo é praticar mau jornalismo.